O preconceito e a negação são os principais obstáculos enfrentados por quem busca tratamento contra o alcoolismo. Por isso, a acolhida realizada pelos Alcoólicos Anônimos (AA), que completa 80 anos no mundo, é tão importante na transformação da vida de muitos dependentes. Na semana em que se comemora os 68 anos da chegada do AA ao Brasil, o Comitê “Trabalhando com os outros” irá intensificar as abordagens e a divulgação junto à população desse serviço. “Quando abordamos as pessoas, nós estamos indo até elas para buscar ajuda e não para levar ajuda. Nós precisamos do apoio delas para conseguir”, afirma o membro da entidade L.S. sobre as abordagens realizadas pelo comitê. Quando alguém liga para o escritório (3215-8503) procurando ajuda, as equipes de plantão buscam por um membro do AA que esteja próximo à pessoa, para auxiliá-la e acompanhá-la às reuniões, que chegam a ser realizadas três vezes ao dia. Em Juiz de Fora, a entidade existe há 54 anos e conta com 30 grupos espalhados pela cidade, com escritório sede na Rua Henrique Burnier 333, no Mariano Procópio.
O AA possui um programa de recuperação baseado em 12 passos para que os dependentes consigam retomar o controle das suas vidas. “Esses 12 passos são princípios que fazem com que a gente não volte a beber”, afirma L.S. A entidade não é ligada a nenhuma religião. Qualquer pessoa pode participar e não há custo. “Quem tem problema com alcoolismo, vira membro. Quem não tem, vira amigo. Os amigos do AA são representantes da instituição, já que os membros da sociedade ficam no anonimato”, diz L.S.
G. está há 11 anos sem beber e conta que participar das reuniões foi fundamental para ele conseguir deixar o vício. “Quem é alcoólatra já aprontou muito e tem muitos sentimentos de culpa. No AA, esse sentimento vai sendo compartilhado, e essa partilha nos fortalece, porque vamos aprendendo com os outros como agir para reconquistar as coisas que perdemos.”
Conforme G., o alcoolismo não escolhe classe social. “A gente acha que só é alcoólatra aquele que está caído. Muitas vezes, o alcoólatra é aquele que mora numa cobertura.” Há 31 anos sem beber, M. conta que quem sofre de alcoolismo não tem autoestima. “A gente acha que é a pior pessoa do mundo. Eu achava que não era uma boa mãe. No AA, a gente vê que a compulsão é a doença. As pessoas têm resistência a ir ao AA, mas depois que conhecem, começam a se identificar.”
Nas reuniões, os membros compartilham suas experiências, mas o tempo de cada um é respeitado. “Eu demorei um ano até conseguir falar. Eu já tinha tentado parar de beber várias vezes e não conseguia. Quando cheguei ao AA, eu ouvia as pessoas contando a minha história. Eu me identifiquei com aquelas pessoas. Vi que precisava ficar ali, no meio deles. Na primeira vez que fui dar o meu testemunho, quase não conseguia falar, só chorava e agradecia. Eu estava grata porque eu achava que não conseguiria ficar um dia sem beber, e eu estava há um ano.”
Na irmandade, eles trabalham com o conceito de renovação a cada 24 horas. “Nós atuamos para que a pessoa fique 24 horas sem beber. É mais fácil ficar sem beber por hoje do que pensar que nunca mais você vai poder beber.” Conforme os integrantes, o que caracteriza a doença não é a bebida contínua, mas a falta de controle. “A pessoa pode beber uma vez por ano e ser alcoólatra”, explica M. A entidade não recrimina as recaídas. “A pessoa vai ter que lidar com a recaída. Mas as portas do AA vão continuar abertas para ela”, enfatiza L.S.
