
Nos últimos dez anos, a 4ª Região Integrada de Segurança Pública, que abrange Juiz de Fora e mais de 80 municípios da Zona da Mata mineira, registrou 139.543 acidentes de trânsito. Deste total, quase 40%, ou seja 53.701, resultaram em vítimas, fatais ou não, que precisaram de alguma assistência médica independente do nível de severidade. O número é alarmante, pode-se dizer que aproximadamente 14 acidentes por dia aconteceram no período entre 2015 e maio de 2025 na região. Os dados foram retirados do painel da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp-MG).
Para o especialista em mobilidade urbana José Luiz Britto Bastos, o número exprime uma média de 5.370 acidentes por ano, o que é grave. “Segundo entendimento do parlamento Sueco, no trânsito, ninguém deveria morrer ou se ferir. Sendo assim, um único acidente por ano é muito. Por isso, é sim muito preocupante 5.370 acidentes num ano.” O mestre em engenharia de transporte acredita que o cenário revela uma conduta imprudente, negligente e irresponsável dos motoristas.
“O excesso de velocidade nas vias públicas requer fiscalização constante e punição. Se o agente de trânsito não pode estar presente em todos os lugares, temos que contar com a ajuda da fiscalização eletrônica e, principalmente, providenciar o aumento do valor das penalidades (multas)”, pontua Bastos.
Até os cinco primeiros meses de 2025, foram registrados 1.640 acidentes com vítimas, enquanto no mesmo período do ano passado foram 1.703. Apesar de pequena, a diferença de 63 acidentes entre os dois períodos é relevante, pois significa que menos vidas foram atingidas. No entanto, para o especialista, essa redução não mostra um resultado de fiscalização mais efetivo ou maior conscientização e responsabilidade por parte dos condutores. “Se, porém, a redução de acidentes fosse mais significativa, aí sim, eu acreditaria que talvez pudesse ser resultado da mudança de comportamento dos condutores e/ou fiscalização mais eficaz do trânsito por parte das Secretarias de Mobilidade Urbana.”
Bastos não atribui a sinalização como causa das graves estatísticas, que colocam em risco a vida das pessoas. Ele considera a atual legislação eficiente e diz que as vias de Juiz de Fora são bem sinalizadas, com limites de velocidade calculados pela engenharia de tráfego. Para o especialista, a principal motivação é o desrespeito às normas de trânsito. “Muita gente morre no trânsito, e o trânsito não deveria matar tanto. A culpa é exclusiva do comportamento reprovável do ser humano.”
Perfil das vítimas de acidentes de trânsito na região
Os 53.701 acidentes com vítimas registrados em Juiz de Fora e região resultaram em 68.855 pessoas feridas. Deste total, 1.619 foram a óbito. A maioria dos casos (37.109) gerou lesões consideradas leves, entretanto, 7.896 apresentaram ferimentos graves. Os homens são os mais atingidos, representando um universo de 71,98% do total. A idade prevalente é a da faixa etária entre 18 e 29 anos. Confira as demais idades no gráfico abaixo:
A Avenida Barão do Rio Branco se posiciona no topo da lista como o endereço com acidentes mais registrados, sendo um total de 2.150 entre 2015 e 2025. Em sequência, a Avenida JK e a Avenida Brasil na margem direita aparecem com 1.802 e 1.225 acidentes, respectivamente.
O que pode ser feito para mudar esse cenário?
Entre possíveis providências a serem tomadas para reduzir esse cenário, o mestre em engenharia de transporte destaca a urgência de repensar a velocidade e a prioridade nas vias urbanas, para criar cidades para pessoas e não apenas para carros. A lógica é simples e baseada em dados que salvam vidas. “Se um carro está a 30 km/h, a chance de um pedestre sobreviver a um atropelamento é de 90%. A 60 km/h, a chance é de apenas 10%.” Com base nisso, ele diz que uma das medidas mais eficazes, adotadas com sucesso em cidades europeias, é a redução da velocidade máxima para 30 km/h nas vias centrais.
Além disso, o especialista ressalta que é fundamental aplicar os princípios da Mobilidade Ativa, que priorizam o uso do transporte público, o estímulo às caminhadas para curtas distâncias e o uso da bicicleta como meio de transporte. O objetivo final é criar um ambiente urbano mais seguro, onde o protagonismo seja devolvido às pessoas, e não aos veículos motorizados. Porém, ele ressalta que nada disso será possível sem vontade política.

