
A professora da USP Alline Campos estuda a “aceleração” dos efeitos dos antidepressivos quando usados junto com substância presente na folha da maconha (Arquivo Pessoal)
A busca por um medicamento que aliviasse os sintomas da depressão mais rapidamente e reduzisse os efeitos colaterais provocados pelos fármacos utilizados atualmente levou a pesquisadora Alline Campos, 33 anos, a conquistar o prêmio L’Oréal-Unesco-ABC para Mulheres na Ciência 2015. O prêmio destacou, ainda, o trabalho de outras sete pesquisadoras. O estudo visa a verificar se os efeitos dos antidepressivos podem ser “acelerados” quando os administramos simultaneamente com o Canabidiol, uma das substâncias presentes na folha da maconha. “Os transtornos de ansiedade e depressão são doenças graves e incapacitantes que atingem o funcionamento do cérebro e prejudicam muito a vida diária das pessoas. Hoje, os antidepressivos disponíveis na prática clínica, como a fluoxetina, podem levar de 4 a 8 semanas para o início de alívio dos sintomas.”
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que, entre 2020 e 2030, a depressão será a doença mais comum do mundo. Esses números confirmam a necessidade do desenvolvimento de novos medicamentos. A ex-aluna da Faculdade de Farmácia da UFJF e atual professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) explica que os efeitos adversos provocados pelos medicamentos existentes levam muitos pacientes a abandonar o tratamento e, em alguns casos, pode ocorrer tolerância e dependência. “Se a nossa hipótese estiver correta, no futuro poderemos associar os canabinóides com menores quantidade de antidepressivos, o que melhoria não somente os efeitos adversos, mas também o tempo para que os pacientes fiquem livres de seus sintomas e possam voltar o mais rápido possível para suas atividades cotidianas como a interação com a família e o trabalho.”
US$ 20 mil
A pesquisadora conta que foi uma surpresa ganhar o prêmio L’Oréal-Unesco-ABC para Mulheres na Ciência.”Quando recebi o comunicado, achei que era um trote. Desde que o fato se concretizou, eu tenho refletido muito sobre o impacto dele em minha vida e cheguei à ideia de que o prêmio poderia ser a ciência dizendo: vocês são bem-vindas.” Ela conta que, com o prêmio, a pesquisa teve maior visibilidade e aproximação da sociedade. “É como se nós não estivéssemos mais sozinhos. A sensação de que podemos modificar a vida das pessoas está mais próxima do que nunca.”
O L’Oréal-UNESCO For Women in Science, criado em 1998, é dividido em três programas: Nacional, Internacional e International Rising Talents. A categoria Nacional, na qual Alline foi contemplada, existe há dez anos e tem como motivação o incentivo à entrada de jovens mulheres no universo científico. A cada ano, sete pesquisadoras de diferentes áreas da ciência são contempladas com uma bolsa-auxílio de US$ 20 mil para prosseguir com seus promissores projetos.
Muitas das vencedoras do prêmio L’Oréal-Unesco-ABC para Mulheres na Ciência também incluíram, posteriormente, seus nomes no time internacional de estrelas da ciência. E ainda: duas entre as mulheres vencedoras do Programa Internacional já foram reconhecidas com o Prêmio Nobel. São elas a israelense Ada Yonath e a australiana Elizabeth Blackburn.

