João de Deus foi à Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO) por volta das 9h30 e caminhou por corredores da Casa. Em seguida, declarou que é inocente, entrou em um carro e foi embora (Foto: Paulo Giovanni/Estadão Conteúdo)
A Promotoria de Justiça de Goiás solicitou a prisão preventiva de João de Faria, conhecido como João de Deus. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa do médium. A medida foi tomada cinco dias depois de virem à tona denúncias de abusos sexuais. O pedido ainda precisa ser aceito pela Justiça. As vítimas seriam mulheres que teriam buscado tratamento espiritual com o médium. Até a terça (11), mais de 200 mulheres de mais de oito Estados haviam procurado o Ministério Público para denunciar abusos.
Na manhã desta quarta-feira, 12, o médium fez uma visita tumultuada no Centro Dom Inácio de Loyola. Num rápido pronunciamento, disse que era inocente e que estaria à disposição da Justiça. Foi a primeira aparição pública do médium depois que mulheres vieram a público acusá-lo de abuso sexual. As denúncias afetaram o movimento da casa, onde atendimentos são realizados. Por volta das 8h30, cerca de 400 pessoas – incluindo crianças e duas pessoas de cadeiras de rodas – aguardam a chegada do líder espiritual. Isso representa um terço do movimento habitual.
Médium aparece pela 1ª vez em Abadiânia após denúncias
Foram dez minutos de tumulto e gritaria. Assim que desembarcou num Ford Ka branco, João de Deus foi cercado por seus funcionários, fez uma visita de menos de 10 minutos à sala de atendimento e retornou. Jornalistas acompanharam o trajeto, mas foram impedidos de se aproximar do médium, que fez a primeira visita ao centro Dom Inácio de Loyola depois de ser acusado de abuso sexual por mulheres que buscaram a casa em busca de tratamento espiritual.
No trajeto, funcionários gritavam: “Respeitem! Ele vai falar.” A promessa, no entanto, não se concretizou. Apesar do amplo espaço , não foi providenciado um local para a entrevista. O médium saiu sem dar entrevista, mas disse, entre um grito e outro de seus funcionários, que cumpria uma missão dada há 60 anos. E afirmou: “Eu sou inocente”.
Na confusão, voluntários chegaram a agredir jornalistas. A chegada no centro ocorreu por volta das 9h20 desta quarta-feira (12), um horário pouco usual. João de Deus, cujo nome de batismo é João de Faria, horas antes havia desembarcado no aeroporto de Anápolis de um voo procedente de São Paulo.
Esta foi a primeira aparição pública do médium, depois que mulheres vieram a público acusá-lo de abuso sexual. Passados cinco dias após as primeiras denúncias, mais de duas centenas de mulheres procuraram o Ministério Público para fazer relatos semelhantes. Pelo menos quatro inquéritos já foram abertos.
Chico Lobo, um dos funcionários da casa, afirmou que três ônibus – de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas – chegaram à cidade. “É menos que o de costume. Mas há também o impacto da proximidade das festas. Nesta época, tradicionalmente o movimento cai”, disse.
Funcionários e voluntários da casa começaram a chegar na casa Dom Inácio de Loyola mais cedo. “Sabíamos que seríamos necessários aqui. Ele sempre esteve presente com seu amor, agora estamos prontos para defendê-lo”, disse Jacilda Oliveira Soares, que desde 1985 frequenta a casa. Há alguns anos, ela se dedica a organizar as filas de atendimento.
Primeiro, ingressam fiéis escolhidos pelo médium para formar a corrente de oração. Eles ocupam uma sala próxima na qual o líder costuma atender e ficam concentrados durante todo atendimento. Para enfrentar as longas horas, muitos trazem travesseiros ou uma almofada especial, dobrável, para proteger as costas e o quadril.
Essas pessoas já estão posicionadas. São cerca de 200. Outras 200, a maioria usando roupas brancas, estão sentadas em cadeiras situadas num pátio coberto, aguardando atendimento. As pessoas são chamadas em grupos, de acordo com a frequência que vem à casa. De acordo com funcionários, mesmo sem a presença de João de Deus, os trabalhos podem ser realizados. “Onde ele estiver, a energia dele estará aqui”, diz Jacilda.
Em vídeo, filha diz ter sido abusada por João de Deus dos 9 aos 14 anos
Uma das filhas de João de Deus, Dalva Teixeira, 45 anos, já declarou em entrevista ter sido abusada sexualmente pelo médium entre os 9 e 14 anos de idade. O relato teria sido colhido pelo Thiago Mendes, de Goiás, em 2016, que, por medo de represálias, divulgou o vídeo apenas na terça (11), por meio de uma reportagem da TV Record.
“Ele é manipulador, ele é mal, ele é estranho, é diferente, a gente vê que ele é diferente. Eu já pedi muito a Deus que fizesse ele se arrepender das coisas que ele faz, e faz”, diz no vídeo.
Filha de um rápido relacionamento, Dalva teria conhecido o pai apenas aos 9 anos. “Minha mãe disse para ele nos trazer, para estudar”, explica no vídeo. Ela relatou também uma rotina de abusos: “Ele tirou a minha roupa toda, tirou a dele e ficou a noite inteira me molestando. Em viagens, ele colocava o motorista para dirigir, viagens longas, como fizemos uma para a Bahia, e, no banco de trás, ele ficava me molestando.”
Nas imagens, Dalva diz que os abusos cessaram apenas quando ela se casou, aos 14 anos. Ao saber da notícia, o médium teria reagido com violência. “(Ele) me bateu muito com um coro de laçar boi, que tinha um cimento na ponta, e com uma vara de ferrão. Inclusive eu tenho a cicatriz”, conta. “Me bateu muito que eu fui parar no hospital.” Dalva relata, ainda, que, quando se separou, aos 20 anos, teria voltado a sofrer assédio de João de Deus, momento em que ela chegou a sair do país. Por causa do trauma, ela teria se tornado dependente de drogas.
O vídeo traz, ainda, a entrevista de um dos filhos de Dalva, Paulo Henrique Ronda: “Bateram em mim e no meu irmão e, na hora, que um dos pistoleiros dele, que isso é pistoleiro dele, foi no meu irmão, eu fui em cima e eles bateram no meu rosto”, conta. “Cortaram o queixo do meu irmão e um deles gritou: ‘para, não é pra matar: é apenas para dar um susto para eles aprenderem, para saber com quem estão mexendo, com peixe grande.'”
Também na terça-feira, os perfis de redes sociais da Casa Dom Inácio de Loyola, onde João de Deus faz “trabalhos espirituais”, publicaram um vídeo em que Dalva desmente ter sido abusada pelo pai. “Essa pessoinha que está aqui do lado nunca, nunca, me abusou sexualmente”, diz no vídeo, no qual atribui as denúncias ao pai de seus filhos. Nas imagens, ela diz que a “verdade chega, vai vir à tona.”
O Estado procurou o advogado de Dalva, Marcos Eduardo Bocchini, mas não obteve retorno. A ativista Sabrina Bittencourt, do movimento Combate ao Abuso no Meio Espiritual (COAME), diz que está prestando apoio à Dalva e ao advogado, que estariam sofrendo ameaças. Segundo Sabrina, Dalva foi obrigada a gravar o vídeo em que defende o pai, que teria sido filmado em 2017, ano em que os netos processavam o médium pelas supostas agressões e abusos. Em 2018, por sua vez, a mulher teria aberto uma nova ação pedindo indenizando de R$ 50 milhões, a qual tramitaria em segredo de justiça.

