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Mulheres negras têm quase o dobro de risco de morte materna no Brasil

mortalidade materna foto pexels
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A cor da pele ainda influencia o risco de morrer durante a gestação no Brasil. Um novo estudo nacional mostra que, entre 2000 e 2020, foram registradas 40.907 mortes maternas, sendo que quase 60% ocorreram entre mulheres pretas e pardas. Publicado em janeiro no International Journal of Environmental Research and Public Health, o trabalho revela que elas têm quase o dobro de risco de morte em relação às brancas, evidenciando desigualdades na assistência à saúde. 

Apesar de avanços, a mortalidade materna no país continua alta e marcada por diferenças raciais, sociais e regionais. “Já havia evidências de maior risco entre mulheres pretas e pardas, mas queríamos avaliar se essa diferença estava diminuindo com o passar dos anos. Observamos que essas desigualdades persistem, mostrando que não se trata apenas de um problema assistencial, mas também estrutural”, relata a enfermeira Giovana Aparecida Gonçalves Vidotti, professora orientadora de mestrado e doutorado no departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autora do estudo. 

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A mortalidade materna considera as mortes de mulheres durante a gestação ou até 42 dias após o término da gravidez, quando relacionadas a causas ligadas ao período gestacional. No Brasil, apesar da melhora após o pico observado na pandemia de Covid-19, os índices ainda variam significativamente entre regiões e grupos populacionais. A meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é reduzir esse indicador para até 70 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030. Em 2024, esse índice no Brasil foi de 57 mortes por 100 mil nascidos vivos.

De acordo com o estudo, as principais causas de mortalidade materna nas duas décadas analisadas foram condições obstétricas mal definidas (29,9% dos casos), seguidas por hipertensão na gravidez (21,3%), complicações do parto (15,2%) e no período pós-parto (13,2%). Já os abortos correspondem a 7,8% dos óbitos maternos. Quase metade das mortes ocorreu no pós-parto imediato (até 42 dias após o fim da gestação), período que concentrou 46,9% dos óbitos. 

Essas condições, em grande parte, poderiam ser evitadas. “A mortalidade materna continua sendo um importante indicador da qualidade da assistência à saúde e das condições sociais de um país. No Brasil, apesar de avanços, os níveis permanecem elevados e desiguais”, avalia  a ginecologista e obstetra Ana Paula Beck, do Einstein Hospital Israelita.

Pretas e indígenas

Entre os achados mais preocupantes do estudo está o risco significativamente maior entre mulheres negras e indígenas. De acordo com a pesquisa, indígenas apresentam mortalidade materna mais de duas vezes superior do que a observada entre mulheres brancas. Essas diferenças estão diretamente relacionadas ao racismo estrutural. “Ele se manifesta desde o acesso aos serviços até a qualidade do atendimento recebido. Na prática, significa que muitas vezes essas mulheres têm suas queixas menos valorizadas e enfrentam estereótipos e abordagens inadequadas”, observa Beck.

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Para Vidotti, o resultado chama atenção pela persistência. “Isso reflete a sobreposição de fatores sociais, como menor acesso a serviços de saúde de qualidade e início tardio do pré-natal. Além disso, o racismo estrutural e institucional influencia diretamente no acolhimento e no manejo clínico dessas pacientes”, destaca. Entre as principais falhas estão o acesso inadequado ao pré-natal, dificuldade na identificação precoce de riscos e problemas no encaminhamento para serviços de maior complexidade.

Embora a cobertura de pré-natal no Brasil seja alta, a qualidade desse acompanhamento ainda é um desafio no sistema público. Ele deveria incluir pelo menos uma consulta por mês até a gestação completar 28 semanas. Até a 36ª semana, os atendimentos deveriam ser quinzenais e, depois, semanais até o momento do parto. No total, seriam em torno de 15 a 16 consultas — no Sistema Único de Saúde (SUS), porém, o pré-natal inclui cerca de oito consultas. Além disso, muitas gestantes não realizam todos os exames recomendados ou iniciam o acompanhamento tardiamente. Somam-se a isso questões estruturais, com falta de profissionais e equipamentos, além de problemas de infraestrutura urbana, como falta de transporte público. 

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Fatores econômicos e sociais pioram esse cenário. De acordo com o estudo, a baixa escolaridade está associada a maior risco de morte materna porque as mulheres com menos anos de estudo têm mais dificuldade de acesso a serviços, informação e condições adequadas de cuidado. Regiões mais vulneráveis, como Norte e Nordeste, concentram os piores indicadores. “Os próximos passos da pesquisa envolvem aprofundar a análise dos dados para auxiliar na formulação de políticas públicas mais eficazes”, conta Giovana Vidotti.

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