Engasgar durante uma refeição pode acontecer ocasionalmente com qualquer pessoa. Quando os episódios se tornam frequentes entre idosos, porém, é preciso atenção. Tosses constantes ao comer, dificuldade para engolir, demora excessiva nas refeições e até pneumonias recorrentes podem indicar um quadro de disfagia, alteração da deglutição que precisa ser investigada.
Em entrevista ao programa Tribuna no Ar, da Rádio Antena 1 Juiz de Fora, a fonoaudióloga Liziane Coutinho explicou porque o envelhecimento pode aumentar a dificuldade para mastigar e engolir e quais cuidados familiares e cuidadores devem adotar no dia a dia.
O próprio processo de envelhecimento provoca mudanças no organismo que podem interferir na alimentação. Segundo a especialista, há perda de agilidade e redução da capacidade de contração muscular, fatores que também atingem os músculos envolvidos na mastigação e na deglutição.
A diminuição da produção de saliva, a ausência de dentes e o uso de próteses dentárias mal adaptadas também podem dificultar o processo. Com menor força ou coordenação, existe o risco de o alimento seguir em direção à via respiratória em vez de percorrer corretamente o caminho até o estômago.
Algumas mudanças fazem parte do envelhecimento natural e estão relacionadas à chamada presbifagia. O alerta surge principalmente quando os engasgos deixam de ser ocasionais e passam a fazer parte da rotina.
Engasgos frequentes podem indicar disfagia
A disfagia é uma alteração que compromete o processo de engolir e pode estar associada, entre outras situações, a doenças neurológicas, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC). O problema também é frequente entre pacientes acamados.
Por isso, observar o comportamento do idoso durante as refeições é importante. Entre os sinais de alerta mencionados pela fonoaudióloga estão tosses e pigarros frequentes enquanto a pessoa come, sensação de alimento parado na garganta, mudança na voz após a alimentação, aumento significativo do tempo necessário para concluir uma refeição e recusa de determinados alimentos ou texturas. Perda de peso sem explicação, alimento escapando pelo canto da boca, resíduos permanecendo na cavidade oral depois da deglutição e episódios recorrentes de pneumonia também merecem investigação. Em alguns casos, pequenas quantidades de alimento podem alcançar os pulmões e favorecer complicações respiratórias.
A avaliação deve ser realizada por um fonoaudiólogo. Durante a consulta, o profissional pode observar o paciente se alimentando e analisar diferentes sinais clínicos relacionados à mastigação e à deglutição. Dependendo do caso, exames complementares podem ser necessários para identificar exatamente em qual etapa ocorre a dificuldade. Entre os métodos citados estão a avaliação endoscópica da deglutição e a videofluoroscopia, exame com contraste que permite acompanhar o trajeto do alimento durante o ato de engolir. A identificação correta do problema ajuda a definir quais adaptações serão necessárias e pode evitar consequências mais graves.
Algumas mudanças na rotina ajudam a reduzir os riscos. Uma das principais orientações é que o idoso esteja completamente sentado durante as refeições, evitando alimentar-se deitado. Também é importante diminuir distrações. Como a deglutição pode exigir mais concentração na terceira idade, conversar enquanto a pessoa está mastigando ou engolindo pode dificultar o processo. A consistência dos alimentos merece atenção.
Produtos muito secos ou esfarelentos, como biscoito de polvilho e torresmo, podem representar maior dificuldade. Dependendo da orientação profissional, alimentos podem ser acompanhados de preparações mais úmidas ou pastosas. Pães e bolos, por exemplo, podem ser umedecidos para facilitar a formação e a condução do bolo alimentar. As adaptações, no entanto, devem considerar as necessidades de cada pessoa, especialmente quando já existe suspeita ou diagnóstico de disfagia.
Quando o engasgo se torna uma emergência?
Casos de obstrução grave das vias aéreas exigem atendimento imediato. Durante a entrevista, Liziane Coutinho também abordou a importância de familiares e cuidadores conhecerem procedimentos de primeiros socorros para situações de engasgo.
A orientação é buscar socorro de emergência imediatamente e realizar as manobras adequadas para desobstrução das vias aéreas quando houver treinamento para isso. Mais do que agir diante de uma emergência, a especialista reforça a importância da prevenção. O acompanhamento fonoaudiológico pode ajudar a identificar alterações precocemente, orientar adaptações na alimentação e reduzir o risco de aspiração de alimentos, infecções respiratórias e internações.
