Ícone do site Tribuna de Minas

Programa educacional reduz uso de cigarro eletrônico entre adolescentes, mostra estudo

vape pexels
PUBLICIDADE

Um programa educacional desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália, reduziu a probabilidade de uso de cigarro eletrônico entre adolescentes em comparação com aulas convencionais sobre saúde. O resultado foi divulgado em estudo publicado em agosto na revista The Lancet Public Healthe reforça o papel central da informação na prevenção ao uso dos chamados vapes, cada vez mais populares entre jovens não fumantes.

A iniciativa, criada pelo Centro Matilda de Pesquisa em Saúde Mental e Uso de Substâncias da universidade, foi testada com 5.157 estudantes de 12 a 14 anos de 40 escolas australianas. Eles foram divididos em dois grupos: um participou do programa de intervenção e o outro seguiu com o currículo tradicional.

PUBLICIDADE

No grupo de intervenção, 2.449 alunos assistiram a quatro aulas de 40 minutos sobre cigarros eletrônicos e tabaco, ministradas semanalmente. O conteúdo abordava a prevalência do uso, os danos ao organismo — como doenças respiratórias, cardiovasculares, prejuízos à saúde mental e risco de câncer —, além de ensinar estratégias de recusa e formas de buscar ajuda. Cada encontro incluía um desenho animado sobre o tema, materiais informativos e atividades em sala, como questionários e discussões.

O grupo controle, com 2.708 jovens, continuou recebendo aulas semanais de saúde previstas no currículo obrigatório. A eficácia do programa foi medida por meio de questionários aplicados ao longo de três anos — imediatamente após a intervenção, cinco semanas depois e em intervalos de seis, 12, 24 e 36 meses.

O impacto mais expressivo foi observado um ano após a participação, com uma redução de 65% na probabilidade de uso de cigarros eletrônicos entre os alunos do programa, em comparação com o grupo controle.Além disso, o projeto recebeu ampla aprovação dos participantes: mais de 80% dos estudantes afirmaram que as informações e habilidades aprendidas os ajudariam no futuro, e quase 90% dos professores avaliaram a iniciativa de forma positiva.

Estratégia positiva

Para a neuropsicóloga Ana Lucia Karasin, do Einstein Hospital Israelita, essas propostas ajudam o jovem não apenas a refletir antes de experimentar, mas também a se sentir mais preparado para resistir à pressão social. O adolescente entende os riscos e consegue dizer “não” com mais segurança quando é exposto a essas situações, pois já tem argumentos internos que dão suporte a sua escolha.

PUBLICIDADE

“Quando ele compreende que não se trata apenas de uma moda ou de algo passageiro, mas sim de uma prática que pode gerar dependência, prejudicar o funcionamento cerebral e abrir portas para outras dependências, ele passa a olhar para o cigarro eletrônico de outra forma”, afirma.

A proposta de um programa que alia informações de qualidade com atividades interativas é vista com bons olhos por especialistas. “Mais do que alertar sobre os malefícios, é fundamental proporcionar vivências que ensinem na prática estratégias eficazes para resistir às pressões sociais cotidianas”, diz a especialista do Einstein.

PUBLICIDADE

Muitos adolescentes começam a usar o cigarro eletrônico movidos pela curiosidade, pela influência de amigos ou pela ideia de que é algo inofensivo ou mais seguro do que o cigarro comum. “Quando recebem dados claros sobre os riscos, entendem que existe dependência química, que o cérebro ainda em desenvolvimento pode ser afetado e que há consequências reais para a saúde, então, a forma de pensar muda”, observa a psicóloga clínica Giovana Diez, especializada no atendimento de crianças e adolescentes, de São Paulo.

A adolescência é um período de grandes transformações, em que o jovem busca identidade, pertencimento e aceitação social. Daí porque, nessa fase, ficam mais vulneráveis a influências externas. “A informação possibilita consciência acerca de riscos, danos e prejuízos, mas sozinha é incapaz de alterar comportamento, principalmente de crianças e adolescentes, que estão em franco desenvolvimento emocional”, destaca a neuropsicóloga Natália Chequer ReisJunonski, especialista em dependência química pelo Instituto Nacional de Ensino e Pesquisa (INESP).

O ideal é que programas de prevenção não apenas informem sobre riscos, mas também promovam o desenvolvimento da autoestima, do pensamento crítico e de habilidades socioemocionais. “Quando damos ferramentas para que eles se sintam confiantes, saibam lidar com frustrações e pressões e encontrar alternativas saudáveis de se expressar, aumenta a chance dizerem ‘não’ a comportamentos de risco”, afirma Giovana Diez.Campanhas de conscientização em redes sociais e meios de comunicação também são eficazes, pois alcançam os jovens onde eles realmente estão.

PUBLICIDADE

O papel dos pais e responsáveis é tão essencial quanto o da escola no combate ao uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes. O diálogo dentro de casa e o apoio emocional são peças-chave nesse processo e complementam as informações recebidas em sala de aula.Quando a dependência já está instalada, éindispensável o acesso a tratamento especializado, o que inclui suporte médico e psicológico.

 

Sair da versão mobile