“Se eu pudesse mandar um recado para quem está na dúvida sobre ser doador, digo para não ter. Faça o cadastro e, se surgir a oportunidade de salvar a vida de alguém, vá”, defende Wallace Oliveira, 32. Cadastrado como doador de medula óssea desde 2022, o juiz-forano ganhou repercussão nas redes sociais no fim de 2025 ao doar parte da medula para um garoto francês de 8 anos em tratamento contra leucemia. A doença compromete a produção de glóbulos brancos e o funcionamento do sistema imunológico e é comum entre crianças e adolescentes, mas apresenta taxa de mortalidade alta entre pessoas acima de 50 anos, segundo o Observatório de Oncologia.
Assim como Wallace, cerca de seis milhões de brasileiros estão cadastrados no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). O número coloca o Brasil na terceira colocação dos países com mais doadores no mundo. O banco brasileiro é acessado por mais de 50 países para viabilizar transplantes quando não há compatibilidade familiar. “A chance de achar um doador compatível é de um para 100 mil. Por isso é importante o cadastro de rotina”, reforça a médica hematologista e coordenadora do Hemominas de Juiz de Fora Andrea Nicolato.
Foi por meio do Redome que Wallace se tornou peça fundamental para o tratamento de um paciente do outro lado do planeta. O caso ajuda a ilustrar os desafios enfrentados por quem depende de diagnóstico e tratamento rápidos – tema do Fevereiro Laranja, que a Tribuna destaca nesta matéria.
Entre os dez tipos de câncer mais comuns no mundo, a leucemia registra cerca de 260 mil casos por ano, segundo a Pfizer Brasil. “A Leucemia é o crescimento acelerado e anormal das células do sangue, que são mecanismos responsáveis pela defesa do nosso organismo”, destaca Andrea.
Conforme a especialista, o diagnóstico precoce é fundamental para agilizar o tratamento e, possivelmente, o transplante de medula óssea. Por isso é importante avaliar alguns sintomas que elevam a necessidade de exames. “Anemia, cansaço, queda brusca da imunidade e do nível de plaquetas no sangue, hematomas espontâneos ou sangramentos espontâneos.”
Juiz de Fora supera média de doadores, mas fila por transplante cresce
Em Juiz de Fora, a proporção de doadores cadastrados no Redome supera a média brasileira: são 58 mil pessoas no banco, o equivalente a cerca de 10% da população do município. Somente em 2025, a cidade registrou a entrada de 2.555 novos doadores. No cenário nacional, seis milhões de pessoas estão cadastradas, o que representa menos de 3% da população do país, conforme a Fundação Hemominas.
Apesar do avanço no número de registros, a demanda por transplantes também cresce. No fim do ano passado, 2.368 pacientes aguardavam transplante de medula óssea no país, segundo o Redome. A plataforma indica ainda que a fila de pessoas que esperam a confirmação de compatibilidade genética aumentou mais de 25% desde 2022.
Um estudo do Instituto Nacional de Câncer (INCA), de 2015, aponta que a chance de encontrar doador compatível chega a cerca de 80%, resultado superior ao de décadas anteriores. O mesmo levantamento, porém, indica que, mesmo quando há compatibilidade, variações em genes secundários podem reduzir a eficácia do procedimento para uma faixa entre 40% e 68%.
“É importante entender que a medula representa o sistema imunológico de outra pessoa, que pode não reconhecer plenamente o novo ambiente do organismo receptor. Isso causa a doença do enxerto versus hospedeiro, que precisa ser controlada com imunossupressores”, explica o médico hematologista Leandro Borges. Ele afirma, porém, que essa doença pode ter um efeito desejado, já que também atua contra a leucemia, auxiliando no tratamento.
Ainda assim, os profissionais ouvidos pela Tribuna alertam que, embora o procedimento seja considerado seguro, o transplante depende, antes de tudo, de encontrar um doador apto e compatível – o que reforça a importância de ampliar e manter atualizado o cadastro no Redome.
Como se cadastrar
O cadastro no banco de doadores de medula óssea é simples. Segundo Andrea Nicolato, é preciso ir ao hemocentro mais próximo, assinar um termo de consentimento e realizar a coleta de sangue para testes de compatibilidade. O resultado fica arquivado no Redome. “Se um dia esse doador for compatível com algum paciente da lista de espera, aí sim ele vai ser convocado para fazer o procedimento”, explica.
A coordenadora do Hemominas destaca que, embora o cadastro seja efetuado, não é certo de que a pessoa vai, de fato, realizar a doação, tendo em vista a dificuldade de encontrar indivíduos compatíveis entre si.
Andrea também reforça sobre a importância de manter o cadastro atualizado, informando endereço e formas de contato em caso de mudanças. “Já tivemos casos de pacientes necessitando de doação e não conseguimos achar o doador.”
Em nota, o Hemominas também destacou que nem todos podem se tornar doadores. Para preencher os requisitos, é necessário ter entre 18 e 35 anos, boa saúde e não apresentar doenças como as infecciosas ou as hematológicas. O motivo é que doadores mais jovens possuem medula óssea de maior qualidade, o que gera melhores resultados no transplante a longo prazo.
‘Processo simples e rápido’
“Eu ainda não era doadora de medula, mas, sabendo que um gesto simples pode mudar a vida de outra pessoa, isso despertou meu interesse”, conta Mariana Paulino, de 27 anos, que agora se cadastrou para se tornar doadora. Na última quinta-feira (5), ela passou pelo credenciamento no Hemocentro de Juiz de Fora, na Rua Barão de Cataguases, no Bairro Santa Helena. A reportagem da Tribuna acompanhou o processo de cadastramento da auxiliar de administração, que avaliou: “O processo é muito esclarecedor, simples e rápido.”
Depois de acompanhar a saga de um familiar que precisou de transplante de medula, ela conta que percebeu a importância do registro para facilitar o rastreio de doadores aptos e compatíveis. “Acredito que a saúde é o bem mais precioso. Devemos multiplicar. Ser doadora é uma forma de dar propósito à saúde que temos, levando esperança a quem precisa”, completa.
Procedimento não gera riscos a doadores
Mesmo a doação sendo fundamental, muitas pessoas ainda têm receio ou até medo de se tornarem doadores pela incerteza de como funciona o procedimento. “É muito seguro. A medula óssea é o meio do osso e não a medula espinhal, onde passam os nervos. A medula óssea é líquida, então, não é como a retirada de um órgão. Já o paciente recebe o líquido direto na veia”, informa Leandro Borges.
O hematologista também destaca que existem duas modalidades de transplante. Em uma, a coleta é feita com uma agulha que aspira a medula óssea dentro do osso da bacia, podendo haver dor. Já na outra, a coleta é feita do sangue periférico e os efeitos colaterais são raros. “Não existem sequelas e geralmente os doadores nem precisam internar. Vão embora no mesmo dia.”
Para Wallace Oliveira, o medo não fez parte do processo de doação. “Só vivi a ansiedade de salvar uma vida, ainda mais sendo a de uma criança. O processo foi muito tranquilo. Digo que é prazeroso saber que pude fazer a diferença na vida de alguém.” Depois de aguardar quase três anos no cadastro geral do Redome, o atendente de vendas recebeu, em julho de 2025, o primeiro contato informando sobre a possível compatibilidade, que foi comprovada pouco tempo depois. Em outubro, ele foi recebido no INCA do Rio de Janeiro (RJ) e realizou diversos exames. Uma espécie de “check-up”, cita.
Todo o processo foi custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive as despesas do acompanhante. Depois de realizar a doação em outubro, Wallace ficou em repouso cinco dias, sendo apenas um internado no hospital. “Não senti nenhuma dor insuportável. A única recomendação foi não fazer exercícios pesados e evitar caminhadas longas durante 30 dias.”
Wallace ainda não tem notícias sobre o estado de saúde do garoto da França para quem ele doou parte da medula, mas ele pode solicitar informações seis meses após a doação e contato com a família um ano e meio após o procedimento. O mineiro reflete sobre o ato desde então e se emociona sabendo que um transplante como o dele pode fazer a diferença na vida de qualquer um. “Estamos aqui para fazer o bem. E pensar que poderia ser alguém da minha família precisando.”
*Estagiário sob supervisão da editora Carolina Leonel

