Embora o Brasil detenha uma das principais biodiversidades do planeta, com milhares de espécies supernutritivas, boa parte ainda permanece desconhecida. Mas a ciência busca esmiuçar essa riqueza, ajudando a ampliar as opções do nosso cardápio. Uma revisão científica publicada em maio no periódico mostra o potencial antioxidante e anti-inflamatório de 19 frutos nativos.
A análise foi realizada por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Autônoma do Chile. “Escolhemos frutas com evidências vindas de pesquisas experimentais, que avaliam mecanismos biológicos, entre outros aspectos, relacionados ao estresse oxidativo e à inflamação”, comenta a cientista de alimentos Elizabeth Torres, professora da USP e orientadora do trabalho.
Jabuticaba, guaraná, cambuci e açaí merecem destaque pela quantidade de pesquisas que apontam efeitos neuroprotetores e contra a síndrome metabólica, distúrbio em ascensão caracterizado por taxas elevadas de glicose, alterações nos triglicérides e colesterol, hipertensão arterial e acúmulo de gordura na região abdominal.
“Também vale mencionar as espécies do gênero Eugenia, caso da pitanga, da grumixama, da cereja-do-rio-grande e do goiabão, que ainda são pouco conhecidas pela população, mas apresentam perfis fenólicos bastante promissores”, enumera Torres. Essas substâncias têm sido associadas à modulação da microbiota intestinal. “Os compostos fenólicos ajudam a promover o crescimento de cepas bacterianas benéficas, como Bifidobacterium, Lactobacillus, Faecalibacterium e Akkermansia”, afirma a nutricionista Priscila Santana Amad, do Einstein Hospital Israelita.
O reequilíbrio microbiano favorece a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como o butirato e o acetato, fundamentais para a integridade da barreira epitelial do intestino. Esse processo pode evitar que agentes nocivos alcancem a circulação sanguínea, freando inflamações.
O grupo dos polifenóis — outra alcunha para os compostos fenólicos — contém 8 mil integrantes catalogados e entre seus integrantes estão flavonoides, ácidos fenólicos, taninos, entre outros. Seu papel na redução do risco de males cardiovasculares também tem sido bastante estudado. Pesquisas indicam que preservam o endotélio, uma camada celular que recobre a parte interna dos vasos, contribuindo para o controle da pressão arterial, por exemplo.
“A revisão da USP valoriza os nossos frutos, em um cenário científico que ainda foca muito em espécies de clima temperado, como mirtilo, morango e demais frutas vermelhas”, avalia Amad. Apesar disso, é necessário avançar para estudos clínicos controlados em humanos e aprofundar o conhecimento sobre metabolismo, biodisponibilidade e mecanismos de ação dessas substâncias. “Sabemos que muitas dessas frutas são ricas em compostos bioativos, mas ainda conhecemos pouco sobre quanto é efetivamente absorvido pelo organismo”, afirma Torres.
Confira os 19 frutos brasileiros analisados
- Açaí: no artigo da USP, é destacado o potencial de suas sementes, ricas em procianidinas e que, segundo os pesquisadores, demonstram uma ampla modulação das respostas oxidativas e inflamatórias. Na região Norte, que é seu berço, o fruto roxo, de sabor terroso, costuma ser apreciado junto de peixe e farinha.
- Cambuci: nativo da Mata Atlântica, o cambucizeiro oferece um fruto de casca fina, polpa ácida, usado em receitas de sorvetes, geleias e ainda no preparo de molhos para acompanhar carnes. Contém ácidos fenólicos, entre outros polifenóis com potencial para reduzir o risco da síndrome metabólica.
- Cereja-do-rio-grande: trata-se de um frutinho vermelho, do grupo da pitanga e da jabuticaba, que ocorre naturalmente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. De sabor doce, costuma ser apreciado in natura ou em doces, como compotas. Além da polpa, as folhas e as sementes ofertam substâncias antioxidantes e com potencial anti-inflamatório, especialmente a epicatequina e o ácido gálico.
- Cupuaçu: no artigo, há menção aos impactos positivos na imunidade vindos de polifenóis presentes no fruto. Conhecido como cupu em diversos locais da Amazônia e cacau-cupuaçu no Nordeste, o cupuaçu é parente do cacau. Das suas amêndoas também se faz um doce parecido com o chocolate, o cupulate.
- Cutia: mais uma espécie nativa da Mata Atlântica, das suas sementes (que não são comestíveis) se extrai um óleo rico em ácidos graxos ciclopentenílicos, investigados pelo potencial benefício anti-inflamatório. Também chamada de fruta-de-babado, a polpa tem sabor que fica entre o do mamão e o da laranja.
- Fruta-geleia-de-amora: a frutinha de casca amarela é chamada assim porque sua polpa é pastosa, de cor escura e gosto que lembra o da amora. Há indícios de efeitos protetores ao sistema nervoso. Por trás do benefício estão substâncias como a rutina e o kaempferol.
- Goiabão: esse fruto pertence à família Myrtaceae, a mesma da goiaba, também conhecido como araçá-piranga, tem polpa doce de cor alaranjada e alto teor de compostos fenólicos que ajudam a neutralizar os radicais livres, moléculas por trás de danos celulares.
- Grumixama: a coloração arroxeada desse fruto, oriundo da Mata Atlântica, denuncia a presença de antocianinas, que se destacam em estudos pela atuação anti-inflamatória. Costuma ser apreciada em sucos, geleias e in natura, forma na qual se obtém a maior parte dos benefícios.
- Guaraná: famoso pelo efeito estimulante, vindo das metilxantinas, classe de substâncias que inclui a cafeína, o frutinho amazônico ainda oferta uma combinação de compostos associados à saúde cognitiva. O pó vindo das suas sementes é usado em sucos e vitaminas. Uma dica é acrescentar mel ou frutos docinhos para atenuar seu gosto amargo.
- Jabuticaba: trata-se de uma das espécies nativas mais estudadas, que apresenta efeitos relacionados à redução de marcadores inflamatórios e proteção contra males cardiovasculares. Inclusive, grande parte dos compostos fenólicos aparece na casca, por isso vale aproveitá-la nas preparações.
- Jenipapo: mais um fruto que acumula um pigmento cheio de benefícios, a genipina, que faz parte do grupo dos iridoides. No artigo, é mencionada sua atuação neuroprotetora. O jenipapo é bastante consumido no Nordeste em formas de doces, sucos e outras bebidas.
- Jucá: também chamado pau-ferro, a espécie, de nome científico Libidibia férrea, tem sido investigada por conter substâncias, sobretudo suas frações proteicas, de potencial anti-inflamatório. Suas sementes são usadas em infusões.
- Juçara: outra nativa da Mata Atlântica, ela oferece frutinhos, parecidos com o açaí, que acumulam antioxidantes benéficos ao sistema imunológico. A juçara também oferece um palmito, retirado do caule, que fica ótimo em saladas.
- Macaúba: rico em gorduras monoinsaturadas, as mesmas do azeite de oliva, o fruto contém ainda carotenoides, grupo de pigmentos de potente ação antioxidante. Há indícios de que a combinação de compostos atue no controle da inflamação de baixo grau associada à síndrome metabólica.
- Marolo: também conhecida como araticum, é da família da fruta-do-conde e da graviola. Além de concentrar vitaminas do complexo B, fibras e minerais como o potássio na polpa, sua casca oferece flavonoides e ácidos fenólicos, compostos com atividade antioxidante.
- Pêssego-do-mato: o fruto, que ocorre naturalmente mais ao sul do Brasil, é idêntico ao pêssego, mas de tamanho menor. Na sua composição há fenólicos, como o ácido gálico e epicatequina, além de carotenoides, caso do betacaroteno que se converte em vitamina A no nosso organismo.
- Pinhão-manso: as pesquisas envolvem as folhas, que esbanjam compostos fenólicos capazes de combater inflamações. Os estudos demonstram ação neuroprotetora e sugerem aplicação em medicamentos. Apesar do apelido, ele não tem nenhuma semelhança com o pinhão retirado das araucárias.
- Pitanga: seu nome vem do tupi-guarani e significa vermelha, coloração resultante de carotenoides, família de pigmentos de comprovada ação antioxidante. Mas a pitanga também oferta flavonoides e no estudo é mencionado um impacto positivo à saúde bucal. Perfumada e azedinha, serve de matéria-prima para sucos e as mais diversas sobremesas.
- Tomatinho-do-mato: apesar do formato idêntico ao dos tomates, a espécie da Mata Atlântica apresenta casca e polpa de tons puxados para o amarelo. Concentra uma mistura antioxidante que inclui fenólicos, carotenoides e vitamina C. De sabor doce, costuma ser consumido in natura ou em sucos.

