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Homem-Faixa: Amauri, o garçom, escreve mensagens e fixa pelas ruas de JF

Amauri, o garçom, há mais de dez anos escreve cartas para políticos e personalidades e fixa pela cidade faixas com elogios e protestos


Por Mauro Morais

15/03/2020 às 07h00

Amauri escreve com as próprias ideias e letra cartas e faixas que espalha pela cidade: “Sempre tive em mim de que eu poderia fazer o que tivesse vontade e receberia em troca”. (Foto: Fernando Priamo)

Constantemente alguém o desmotivava. “Não vão nem ler”, costumava ouvir. Amauri Luiz Arantes Vieira ouviu a própria intuição. Hás mais de dez anos, passou a escrever cartas para pessoas que admira. Há menos de um mês, recebeu um envelope com remetente de Brasília. Era uma resposta à missiva que Amauri escreveu para o Papa Francisco. “Prezado Senhor, por incumbência recebida do Papa Francisco, venho certificá-lo da gratidão e apreço com que ele acolheu sua mensagem de felicitações, enriquecidas de votos e preces. Associando-se em ação de graças que a igreja elevou aos céus no dia 13 de dezembro de 2019, pelo júbilo de ouro sacerdotal, daquele que, nascido em 17 de dezembro de 1966, e que já há quase sete anos a guia como ‘servo do servos de Deus’. Em retribuição desta união filial com seu louvor, a Santíssima Trindade, pelo dom da vida e do sacerdócio, o santo padre assegura na celebração da missa, uma lembrança particular das intenções do Senhor Amauri Luiz e de quantos se lhe juntarem em seu venturoso voto”, escreveu o Monsenhor L. Roberto Cona, assessor da secretaria de estado de Sua Santidade.

“Sempre tive em mim de que eu poderia fazer o que tivesse vontade e receberia em troca”, diz o autor de diferentes faixas distribuídas por Juiz de Fora. Da primeira faixa não se esquece. Era 2013. “Foi para a nossa querida Alessandra Crispin no The Voice Brasil”, conta ele, que conheceu a cantora após a homenagem. “Também fiz para a saudosa Beth Carvalho, para o querido de Ubá Ary Barroso. Já fiz homenagem ao Bahamas, a Zé Kodak, à escola de samba do bairro, às mulheres no jogo do Tupi. Ano passado pus uma faixa no Largo do Riachuelo a respeito do chafariz que está abandonado. Eu dizia: ‘Alô prefeito, cadê você?!’. Mas escrevi chafariz errado e deu mais ibope do que se eu tivesse escrito certo. Muita gente começou a me gozar na internet, mas também teve gente me parabenizando”, conta o homem de 68 anos, cabelos e bigode grisalhos, sentado na Praça Padre Geraldo Felzeps, no Bairro Santa Luzia, mesmo lugar onde há décadas, ele, moleque, corria jogando bola com os amigos. Enquanto está no local, é tratado como personalidade. Todos que o veem acenam. Amauri corresponde, sorri, e explica: “É que sou muito conhecido!”.

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Assinado, o garçom

O chão da frente de casa era de terra. Na paisagem mais imediata corria um córrego. Não fazia nem três anos que de Cachoeirinha o bairro passou a se chamar Santa Luzia. “Nasci na Rua Ibitiguaia em 1951”, lembra Amauri. “Tirei o primário aqui e em 1962 meu pai me mandou para a roça. Éramos cinco irmãos, a família era grande e, naquele tempo, a gente trabalhava cedo. Eu tinha que ajudar a família. Fui para o (Bairro) Floresta trabalhar na plantação de um tio. Fiquei até 1963 e voltei para Santa Luzia para trabalhar de leiteiro. Fiquei seis anos como leiteiro, rodando os bairros todos, numa carrocinha, entregando no latão”, narra o homem que em 1969 tornou-se balconista na Cantina São Francisco, na Avenida Getúlio Vargas. Dali empregou-se numa lanchonete na Rua Marechal Deodoro e, em seguida, tornou-se vendedor da loja Tecidos Cleonice. No ano em que o Ato Institucional nº 5 foi extinto, mesmo ano em que entrou em vigor a nova Lei de Segurança Nacional e João Batista Figueiredo tornou-se presidente do país, em 1978, Amauri foi atropelado num terrível acidente de trânsito. Estava saindo do trabalho, num bar no Mariano Procópio onde ele atuava como garçom para complementar a renda e conseguir construir uma casa para a família que começava a construir, após se casar em 1976. Passou dois anos em convalescença. Ao retornar foi contratado no Privê Drinks na Avenida Rio Branco, que na época sofria uma de suas maiores alterações, com as grandes obras de ampliação proposta pelo governo do prefeito Mello Reis.

Amauri começou a trabalhar como garçom no final dos anos 1960 e ainda hoje atua na área, apesar de ser aposentado. (Foto: Fernando Priamo)

Assinado, o marido, pai e avô

Servindo mesas, Amauri trabalhou no Restaurante Concorde, no Embalo Bar, na boate Carinhoso, no Churrasco do Boi, no restaurante Cozinha Mineira, e, por mais tempo, no bar Gaivota Drinks. Por alguns anos foi ambulante, vendendo títulos de capitalização, até retornar para os restaurantes. Aposentou-se em 2015, mas continua trabalhando. “O importante é saber comunicar, tratar bem as pessoas. Já trabalhei em muito lugar pesado e também já vi muita coisa legal”, comenta, recordando do show de um transformista que imitava Carmen Miranda, espetáculo que ele mesmo trouxe para Juiz de Fora direto da Galeria Alaska, em Copacabana. “Sempre gostei da noite. Acho que sou um corujão”, brinca ele, que há 13 anos parou de beber após uma noite de excessos. “Tomei umas bebidas meio doidas, vinho, uísque, rum e fiquei doido. Era 4h da manhã quando cheguei em casa suando. Na porta, passou um táxi e fui parar na Cotrel”, recorda-se o marido de Maria Aparecida, funcionária da copa da Santa Casa de Misericórdia, pai de quatro (três mulheres e um homem) e avô de oito. A guia vermelha e branca no pescoço denuncia: Amauri é espírita. “Desde os 7 anos”, afirma ele, batizado pela mãe num terreiro de Santa Luzia. “Tenho visão de algumas coisas.” E costuma contar a quem for. Até o príncipe William recebeu algumas informações das visões de Amauri.

Assinado, o fã

De um envelope pardo, Amauri retira cartaz, fotografias, folders e bilhetes. No meio está uma carta de resposta do Duque e Duquesa de Cambridge. Do casal real da Coroa Britânica também chegou um postal de William e Kate. O juiz-forano ainda preserva respostas do ex-prefeito Alberto Bejani, do Ministério da Educação Fernando Haddad, datada de 2008, e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Orgulha-se da placa de metal com a inscrição “A Escola de Samba União de Santa Luzia agradece a Amauri Garçom pelos relevantes serviços prestados à essa agremiação”. Amauri também já enviou um troféu para o quadro Lata Velha, do Caldeirão do Huck, na Globo. “Já fiz homenagem à nossa querida Hebe Camargo, a Fátima Bernardes e a última que fiz foi ao Faustão, aos 30 anos de programa. Fiz uma viagem para o Rio e deixei uma faixa amarrada no Recreio dos Bandeirantes”, cita. De tempos em tempos, uma faixa sua surge por Juiz de Fora. “No início eu mandava fazer, mas estava ficando muito caro. Era R$ 35 o metro quadrado. Eu gastava entre dois e quatro metros. Agora compro o TNT, que está mais em conta e pinto com tinta a óleo mesmo”, explica o garçom, que escreve ele mesmo, com as próprias ideias e letra. Em setembro passado, quando Christiane Torloni veio à cidade para apresentar seu espetáculo “Master Class”, Amauri fez uma faixa e fixou na região central de Juiz de Fora. A atriz viu a homenagem e sua produção procurou o garçom oferecendo-lhe um convite para a peça. Ele foi, aplaudiu e, ao término, conheceu a artista. “Ela me deu um abraço que nunca recebi.”

Cria do Santa Luzia, Amauri é popular no bairro onde nasceu e cresceu. (Foto: Fernando Priamo)

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