Tópicos em alta: cartas a jf / sergio moro / dengue / polícia

Conheça Seu Ivo, um dos barbeiros mais antigos de JF

Aos 86 anos, 70 deles trabalhando como barbeiro, no mesmo endereço, o descendente de alemães guarda consigo a memória de São Pedro e do proletariado local

Por Mauro Morais

13/04/2019 às 16h12- Atualizada 13/04/2019 às 16h13

Sobre a bancada estão uma escova nova, folhas de papel, pano branco, caixa de isopor, canetas, frasco de óleo lubrificante, lápis, caixa vazia, três pequenas garrafas de refrigerante com água dentro, duas latas de molho de tomate, garrafa transparente com líquido perfumado, escova velha, pomada para barba, vasilha para preparo de creme de barbear, pente, navalhete, faca velha, espanador, borrifador de água azul, fotografias antigas, controle remoto, pente, cadeado e um alicate. Na parede frontal, estão escova vermelha, fotografia com o bisneto, papel com contas, chaveiro, escultura de Nossa Senhora da Aparecida, propaganda antiga, uma montagem com quatro fotos 3×4 em quatro tempos e duas fotos dos pais, um alvará de funcionamento, uma imagem de Cristo crucificado e um quadro com o valor do corte de cabelo: R$ 10. E a barba: R$ 10. Também está um relógio, que Pedro Ivo Gerheim vê girar há 86 anos.

A cadeira é de 1954, um dos armários é centenário, e seu Ivo é de 1933. “Eu não cansei até hoje”, garante (Foto: Marcelo Ribeiro)

“Eu não cansei até hoje”, diz o homem, conhecido pelo segundo nome. “Dia de domingo fico até meio-dia. Se tiver freguês eu trabalho, se não tiver, espero. Tenho esse freezer aí e sempre vem um ou outro tomar uma cervejinha”, conta ele sobre o lugar onde passa a maior parte de seus dias desde 8 de maio de 1948. Um dos mais antigos barbeiros da cidade, seu Ivo atende os veteranos. “A meninada nova gosta muito de fazer risquinho (desenhos), mas eu mando fazer com o vizinho”, ri ele, cujo sobrinho é o cliente mais antigo. “Comecei a trabalhar num dia, e ele nasceu no outro. Ele, toda a vida, cortou cabelo comigo”, orgulha-se, rodeado por objetos antigos, alguns até mais velhos que ele mesmo, como o armário em cedro, que era da avó e soma mais de um século de história.

A máquina de barbear analógica ele preserva nos fundos do pequenino salão que ocupa o número 2.498 da Avenida Presidente Costa e Silva. No espaço, também guarda uma roda de bicicleta, vassoura, enxada, papéis, pedaços de madeira e outras inutilidades, segundo o próprio Ivo. “Já entraram aqui para roubar mais de 50 vezes. Uma vez levaram minha máquina, depois não levaram mais”, conta, aos risos, o profissional que viu a tecnologia evoluir e otimizar seu tempo. “A máquina elétrica, de primeira, tinha um motorzinho que rodava uma engrenagem. Depois veio uma que tinha uma lingueta de plástico que ajudava a cortar. Hoje é por vibração e tem tudo quanto é pente. Para cortar cabelo melhorou muito”, diz, sem pensar em parar. “Enxergar, eu enxergo bem. Um problemazinho de saúde eu tenho. Tomo remédio para a arritmia e um para não deixar a próstata crescer. Minha pressão é sempre 11/8. Trabalho sem óculos.”

O conteúdo continua após o anúncio

Pés no chão

Ivo é bisneto de alemães que se mudaram para Juiz de Fora em busca de vida melhor (Foto: Marcelo Ribeiro)

A data em que seu Ivo começou a trabalhar como barbeiro está escrita à mão no verso de um quadro com a imagem de Santo Antônio, pendurado acima da porta que dá acesso aos fundos do salão. “Meu padrinho era devoto de Santo Antônio. Também sou devoto de São Pedro. Nasci no dia de São Pedro, moro em São Pedro e me chamo Pedro”, pontua ele, que aos domingos vai à missa, contribui no ofertório e também nos outros dias todos. “Todo mundo que passa aqui e vem me pedir, eu dou”, assegura ele, bisneto de alemães que se mudaram para Juiz de Fora em busca de vida melhor. Encontraram, no entanto, muito trabalho, num comprometimento que fizeram legado. O pai de Ivo, Antônio, era carroceiro. A mãe, Maria, lavadeira. “Tirei o terceiro ano aqui em São Pedro, e o quarto, fiz na cidade. Ia a pé, atravessava o lote onde é a universidade. Tinha um trilho ali que saía na Rua Padre Café ou na Serrinha (Dom Bosco). Ia descalço porque não tinha chinelo. Punha um embornalzinho nas costas e descia. Não tinha merenda também não. Tenho o diploma da escola até hoje”, orgulha-se, mostrando o documento dobrado e já desgastado pelo tempo. Ainda criança, deixou as salas de aula. “Fui carregar almoço para a (Companhia Fiação e Tecelagem) Industrial Mineira. Fazia tudo a pé. Quando parei, já tinha uns 14 anos e fui ajudar o papai na carroça. Minha mãe nem sabia ler. Meu pai muito mal sabia escrever o nome. Naquela época, não tinha como estudar. Nem saber como entrávamos para colégio a gente sabia. Não tinha luz. Em São Pedro começou a ter luz em 1945. Em 1948, quando comecei a trabalhar, a gente pôs o primeiro telefone, de manivela. Hoje ele está na casa da minha filha. Só tinha aquele telefone aqui. Tinha que ligar, rodar e pedir para discar o número. De lá para cá tinha que discar 91, e aqui era o 544. Para telefonar para fora, era preciso ir ao Centro. Naquele tempo, não tinha farmácia, nada disso. Os comprimidos eram vendidos nas vendas. Eu mesmo tinha para vender. Eu me casei em 1954, e minha patroa já aplicava injeção. Depois eu aprendi também. Tenho muita qualidade na injeção, sem ser enfermeiro nem nada.”

Navalha nas peles

A bicicleta, um modelo simples, está parada do lado de fora do salão. Na frente, está uma caixa de papelão que seu Ivo faz de cesto. Para onde vai, monta no veículo de cor prata. Sempre foi assim. Carro, nunca teve. Nem o desejo de ter. O dinheiro, por sua vez, juntou trabalhando no ofício que aprendeu aos 15 anos. Um dia, recolhendo o mato de um lote no Bairro Santa Terezinha, o pai de seu Ivo teve a ideia de pedir a um barbeiro conhecido seu, cujo salão ficava naquele bairro, que ensinasse o ofício ao filho. “Comecei a ir todo dia de manhã. Eu levava meu almoço e ficava o dia inteiro. Passei seis meses lá aprendendo. Nesse tempo, o papai mandou fazer esses dois cômodos aqui”, diz ele, referindo-se à casa onde está há sete décadas seu negócio. “Foi aqui que comecei a aprender mesmo. Quando cheguei, não sabia direito, mas aprendi a fazer barba bem e a afiar a navalha. Graças a Deus acabou a navalha! Naquele tempo tinham uns alemães que tinha umas barbas vermelhas que pareciam um arame. Era de amargar! Fiz a barba de todos eles”, ri o homem, que com o ofício criou os cinco filhos. Sempre cobrando valores baixos, resultado de cálculos sensíveis. “Está bom, porque num instante a pessoa faz R$ 10. O salário mínimo não chega a R$ 40 por dia. Eu ganho isso muito rápido, mas quem vem aqui não. Eu já me aposentei”, explica ele. Era 1954 quando seu Ivo se casou com a prendada Catarina Zélia e foi morar no terreno dos sogros, também no São Pedro, e onde criava porcos, galinhas, num clima típico de vida rural. Ele ainda mantém-se no local, hoje rodeado por prédios e estabelecimentos comerciais e sem a esposa, falecida em 2002. Os filhos já lhe deram 12 netos, que também já lhe deram quatro bisnetos. Com orgulho, o barbeiro conta a profissão das gerações que o sucederam. O homem de olhos muito azuis e cabelos muito brancos soube calçar a estrada.

“Quando cheguei, não sabia direito, mas aprendi a fazer barba bem e a afiar a navalha. Graças a Deus acabou a navalha!” (Foto: Marcelo Ribeiro)

Registros na caixa e na cabeça

A casa era de tijolos aparentes, numa paisagem repleta de mata e chão de terra batida. Eram quatro irmãos Gerheim. Resta a seu Ivo apenas uma irmã, com quem ele toma café pela manhã e à tarde. Há alguns anos perdeu o irmão que fazia vizinhança com sua barbearia. “Ele era sapateiro aqui do lado. A gente tocava o botequim do outro lado. Quando eu estava trabalhando, ele atendia, quando eu ficava à toa, eu atendia. Em 1984, eu me aposentei. Mas continuei tocando os dois”, diz, a alguns passos do freezer que preserva dentro do salão e no qual conserva bebidas e alimentos que comercializa. Numa caixa de papelão, guardada no armário defronte do freezer, estão as fotos da infância, o ingresso da primeira partida no Estádio Municipal Mário Heleno, a carteira de habilitação de carroceiro do pai, um convite da formatura em medicina de um antigo cliente e um interessante perfil dele escrito por um estudante de comunicação. Também está a lembrança da primeira vez que pisou no Maracanã para ver o amado Flamengo. “Estava cheio de gente. Naquele tempo tinha geral. E não vi briga, não. Hoje assisto na televisão. Mas não perco o sono para ver, não. Dia de domingo é que vejo”, conta o idoso, ele mesmo a memória de toda uma região. “Era uma colônia aqui, cada família tinha três alqueires de terra. E cada casal tinha oito, dez filhos. Tive muitos fregueses. Tinha sábado ou véspera de festa que eu trabalhava até meia-noite. Tudo era mais difícil, tinha a máquina de mão, e demorava bem mais. Comecei a usar máquina elétrica em 1954”, diz ele, mostrando o recibo do equipamento, escrito à mão em caneta azul. “Recebi do Sr. Pedro Ivo Gerheim a importância de CR$ 5.400,00 proveniente da venda que lhe fiz de 1 Cadeira Brasil nº 2, 1 máquina de cortar cabelo elétrica marca Aesculap, e 1 frente para salão com espelho biso no centro com as respectivas guarnições. Por ser verdade, selo e assino. Juiz de Fora, 11 de maio de 1953. Geraldo Gomes”, apresenta o recibo com ares de carta.

Receba nossa
Newsletter

As principais notícias do dia no seu e-mail



Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia