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O indispensável desejo de viver do jovem Adryan

Nascido com um quadro severo de insuficiência renal e transplantado na infância, Adryan, um adolescente de 17 anos, fala sobre um viver lutando para seguir em frente

Por Mauro Morais

08/06/2019 às 17h40- Atualizada 08/06/2019 às 17h43

Adryan adora jogar futebol, mas confessa não ser tão bom no esporte que precisa treinar entre amigos, para que não sofra nenhum forte impacto. (Foto: Fernando Priamo)

O que você quer ser quando crescer? À pergunta, o pequeno Adryan Daniel Teixeira Damasceno respondia logo: “Médico!”. Havia uma intimidade entre ele e o ofício que justificava a própria existência. “Entre procedimentos cirúrgicos e cirurgias de alto risco, o Adryan já foi umas 40 vezes para um centro cirúrgico. Ele, realmente, já sofreu e se superou muito. Temos muito orgulho dele. Ele é um guerreiro”, emociona-se o pai, Daniel de Paula Damasceno, de 40 anos, referindo-se ao filho de apenas 17 anos. Nascido com insuficiência renal crônica, causada pela doença de nome válvula de uretra posterior, que obstruiu o canal por onde passa a urina, o jovem acostumou-se a dormir em leitos de hospitais. Foram muitos. Ainda durante a gravidez de Selma Teixeira, de 52 anos, foi diagnosticada uma má formação no bebê, por isso a antecipação do parto, de oito meses. Os rins de Adryan pouco funcionavam.

Hoje o jovem corre, chuta a bola, estuda e sorri. Mas não deseja mais ser médico. “Agora que vi que as matérias estão ficando mais complicadas, tenho pensado em trabalhar com a minha mãe”, explica ele, apontando para a ótica que a mãe toca no Bairro Manoel Honório. O pai tem uma estamparia e, para complementar a renda, é motorista de aplicativos. Separados há quase dez anos, tanto o pai quanto a mãe casaram-se novamente, mas convivem em harmonia. Em nome de Adryan. “Estamos sempre muito preocupados. Conversamos muito. Quando ele precisa ir para São Paulo, revezamos. Cuidamos dele o máximo que podemos”, garante Daniel, certo de que a imposição da resistência na vida do filho moldou o homem no qual ele se transforma. “Ele já vai fazer 18 anos, sabe o que está vivendo. Temos que ser compreensivos com ele. Ele é um menino muito bom, não tem vícios, é muito obediente”, elogia o pai.

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Adryan: “Só jogo futebol com o pessoal que já sabe que tenho que tomar cuidado. Às vezes fico ansioso para jogar, mas se for intercolegial, por exemplo, não participo” (Foto: Fernando Priamo)

Os primeiros meses

O primeiro dia o menino passou em casa. Chorava o tempo todo, não parava e também não molhava a fralda. Internou no dia seguinte e, assim, viveu seus primeiros cinco meses. “Nesse tempo ele deve ter vindo para a casa uns três dias, apenas. Piorou e teve que voltar para o hospital”, conta o pai, Daniel. O bebê dormiu em diferentes leitos, sempre desacreditado pelos médicos. “Com dias de vida, a gente estava lutando, lutando. Um dia, quando ele estava na UTI neo-natal do antigo Pronto Socorro, a médica falou: ‘Olha! Não tem como vocês ficarem aqui, podem ir para a casa!’ Fomos para a casa e de manhã cedinho fomos para lá conversar com ela. E ela falou: ‘Um milagre! A gente lutou a noite toda com ele. Chegou um determinado momento que o perdemos, infelizmente. Tirando as luvas, quando eu virei para lavar as mãos, deu uma acendida nos aparelhos. Ele voltou’. Ela contou para a gente chorando. Esse foi um dos muitos momentos que mostram o quanto ele é guerreiro”, narra o pai. Pequenino, ainda, Adryan passou a fazer diálises. E sempre precisava alterar o lugar, tendo que passar por cirurgia para mudar o cateter. Num desses procedimentos o intestino do menino foi perfurado. “A situação que já não era boa, piorou ainda mais”, diz Daniel. Após diversas transferências e as cicatrizes que ainda hoje carrega no abdome, o menino já não tinha nem ponto de acesso para o soro. E os profissionais, pouco a pouco, desistiam de atendê-lo, justificando já não haver solução em Juiz de Fora. Os pais, que haviam feito um plano de saúde para o menino, não conseguiam, sequer, leitos particulares, por conta da doença pré-existente. O desespero dos pais crescia, como o pequeno Adryan. Aos cinco meses, um médico aceitou mantê-lo sob seus cuidados e conseguiu encaminhamento para o Hospital das Clínicas em São Paulo.

Adryan e o pai Daniel. (Foto: Fernando Priamo)

Os primeiros anos

Os pais Selma e Daniel nada conheciam na maior capital brasileira. Operária numa tecelagem, ela precisou abandonar o serviço. Viajante, ele conseguiu flexibilizar sua carga horária e, muitas vezes, foi ajudado pelos colegas e patrões. Toda semana a família viajava até a metrópole, numa rotina exaustiva e cara. “Na época tínhamos um carro e vendemos. A moto, também vendemos. Usamos o acerto dela. Tudo era muito caro, e o dinheiro ia embora rápido. A gente fazia bingo, rifa, muita gente ajudava”, lembra Daniel, que conseguiu visibilidade para o caso através de uma reportagem televisiva e, então, conquistou o fornecimento gratuito dos medicamentos mais caros. “Ele não podia tomar água comum e compramos por muito tempo. Graças a Deus, tudo valeu a pena”, diz o pai, lembrando que, no hospital especializado o garoto conseguiu se desenvolver e crescer. Aos 7 anos, no entanto, os rins deram novos sinais de exaustão. E começaram os exames em parentes próximos para investigar compatibilidade. Daniel foi logo descartado. Selma era compatível. Por quatro meses os três moraram em São Paulo, para passar pelo transplante. No dia em que passou a carregar consigo um pedacinho da mãe, o menino chegou à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e o pai lhe aguardava. A mãe estava sozinha no quarto. Adryan acordou da anestesia e sorriu. O pai perguntou: “Quer alguma coisa?”. O menino agradeceu e pediu: “Batata frita!” A vida se enchia de fôlego, ainda assim, Adryan precisava se acostumar com um corpo estranho que o organismo rejeitaria dia após dia. O jovem ficou com três rins. Hoje toma muita água, faz dieta para evitar alimentos como frituras (batata frita só aos domingos!), toma mais de seis comprimidos por dia (tornou-se hipertenso) e zela para não sofrer nenhum impacto. “Só jogo futebol com o pessoal que já sabe que tenho que tomar cuidado. Às vezes fico ansioso para jogar, mas se for intercolegial, por exemplo, não participo”, diz Adryan.

As primeiras décadas

“Todos os dias agradeço a Deus por estar aqui e poder contar minha história”, emociona-se Adryan. (Foto: Fernando Priamo)

O jovem Adryan sai, todos os dias, da casa que divide com o padrasto e a mãe (o irmão mais velho mora com a esposa em outro endereço), no Bairro Teixeiras, rumo à Escola Estadual Fernando Lobo, no São Mateus, onde cursa o segundo ano do ensino médio. “A gente é uma família, o pessoal me pergunta se já tomei meus remédios. Eles se preocupam”, conta ele, que às tardes vai ao curso preparatório para o vestibular e às noites vai à Igreja Universal. Quando está em casa, gosta de jogar videogame e assistir filmes. Também passa horas e horas no celular, mas não costuma pesquisar sobre seus quadros de saúde. Mesmo que a vida pareça fluir, o caminho é sinuoso. Depois do transplante, afirma o pai, “ele ganhou qualidade de vida, mas os cuidados dobraram”. Recentemente Adryan foi picado pelo mosquito da dengue. “Afetou a função renal toda. Ele quase morreu”, recorda-se o pai. O jovem precisou ser internado e, até, passar por uma transfusão sanguínea. “Em dezembro ele fez um quadro de rejeição. Ficou internado em São Paulo, passou o Natal lá. Estabilizou, e agora a dengue fez voltar com tudo. Se acontecer de ele rejeitar, será preciso tirar e esperar um novo transplante”, comenta Daniel. Adryan diz nada sentir. “Se eu perder o rim, aparece nos exames, mas eu não sinto nada no corpo”, conta ele, que todo mês vai a São Paulo. Às vezes, em períodos mais críticos, viaja semanalmente ou quinzenalmente. “A sorte é que o médico que me atendeu quando eu era pequeno, com cinco 5 ou 6 anos, em São Paulo, era residente. Hoje ele mora aqui e abriu uma clínica. Ele atende adultos, acima de 18 anos, mas ele me ajuda no meu caso. As médicas de São Paulo conversam com ele, para eu não ter que ir toda semana”, explica o jovem. “Fico muito preocupado, porque aí pararia tudo na minha vida”, acrescenta, com receio de, entre outras coisas, ter que fazer hemodiálise, parar de estudar e tomar menos água por dia. Mas quando pensa no que já viveu, o que te vem à mente? “Quando penso em tudo que passei vejo um filme. Sinto muito orgulho de ter os pais protetores que cuidaram de mim até aqui. Todos os dias agradeço a Deus por estar aqui e poder contar minha história.”

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