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Os dias de sol e chuva de Adriano, vivendo na rua há 17 anos

Com lona e cobertores, Adriano construiu uma barraca na margem do Paraibuna ao lado da ponte vermelha no Santa Terezinha, onde enfeitou a árvore para o Natal para não se esquecer da alegria que sentia quando tinha sua própria casa

Por Mauro Morais

05/01/2019 às 17h30- Atualizada 07/01/2019 às 07h36

Adriano tem 33 anos e há 17 está em situação de rua, morando numa barraca de lona que só este mês precisou refazer por quatro vezes. (Fotos: Fernando Priamo)

É fim de tarde e chove. Uma chuva que sucedeu o sol forte. Chove e molha a casa de Adriano Lopes da Cunha. Algumas gotas invadem os buracos na lona preta e também molham Adriano. “Já fiz quatro casas só esse mês. A chuva vem e varre tudo”, diz o homem de apenas 33 anos, 17 deles vivendo em situação de rua. É fim de tarde e venta. Os buracos aumentam na lona que Adriano ganhou de uma loja de materiais de construções. As cordas retesam. As estacas sacodem. Acostumado com as tempestades, Adriano assiste a barraca quase se desfazer impávido. O que temer quando muito já foi perdido?

“Eu morava no Eldorado. Um tio fez um gato na luz e pegou fogo na minha casa. A casa caiu, e meus parentes venderam o lote”, conta, com a imagem fresca na memória da sala da grandona. “Eu tinha videogame, televisão, geladeira. O chão era de piso de ardósia e eu encerava. Ficava tudo verdinho.” O pai se mudou, mas, por conta de brigas antigas, Adriano não pode continuar com ele. “Briga de baile funk, coisa do passado. Mas começaram a implicar comigo, e eu tive que sair de lá e vim morar na rua”, diz.

Ao lado da barraca, num pinheiro agigantado, Adriano fixou latinhas de cerveja como se fossem bolas numa árvore de Natal. “Todo ano faço isso”, afirma ele. A ideia, conta, é manter o que fazia quando morava com o pai e as irmãs, reunião que resta em saudade, nada mais. “O Natal esse ano só não foi melhor porque estava sem a minha família”, emociona-se o homem, que se recusa a dormir em albergues por não concordar com as regras dos locais e não se afinar com outros ocupantes. “Quero ficar aqui.”

Adriano vive com o amigo Sérgio (à direita) e com a esposa Ana.

O convívio com a saudade

Enquanto conversa, fuma um cigarro, limpa as gotas da chuva que caem em sua pele e assiste a esposa Ana, com quem vive há um ano e dois meses, dormir. Na pequena barraca dormem ele e Ana numa cama de casal e o amigo Sérgio aos pés, sobre um cobertor. Ele, Adriano conhece há cerca de 20 anos e chama, carinhosamente, pelo apelido de Chão Molhado. “Ele não gosta de ficar parado, não, porque tem problema de água no joelho igual a mim. Ele fica andando por aí”, diz. Ambos os companheiros chegaram ao atual endereço de Adriano, que inicialmente instalou sua barraca num canteiro do outro lado da ponte, no Mariano Procópio, mas foi sugerido mudar-se pelos riscos de acidente no local. “Aqui muita gente para para conversar com a gente. Trazem umas coisinhas para a gente. No Natal ganhei umas roupas maneiras, fizemos um churrasco aqui”, conta ele, que não passou a data com o pai, mas recebeu a visita dele nessa semana. As duas irmãs, uma que mora no Jardim Cachoeira com seis filhos e a outra, que mora em Ewbanck da Câmara, não vê há algum tempo. Havia, ainda, outra irmã e a mãe. “Minha irmã estava brincando de dar aula de catecismo para outras primas. Meu pai tinha ganhado um tanque no campeonato de futebol no Nossa Senhora das Graças, há muitos anos. Ele colocou o tanque embaixo da janela. Minha irmã, que era a mais velha, pulou a janela e o lápis caiu no ralinho. Quando ela virou para pegar, o tanque virou e quebrou o crânio dela. Minha mãe, depois disso, começou a beber e a tentar suicídio”, conta. Anos depois, uma semana depois de perder o marido, padrasto de Adriano, a mulher se foi. “Morreu dormindo. Saudade que chama.”

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A rotina com a luz da lua

A bolsa azul fica logo perto da entrada da barraca, ao alcance das mãos de Adriano, que costuma passar longas horas sentado ali. Adriano abre o fecho ecler e começa a apresentar o conteúdo: “A única coisa que tenho de valor é meu rádio, um cigarro e um trocadinho porque às vezes minha mulher fica afim de comer alguma coisa”. O almoço ele ganha de um restaurante no Mariano Procópio, bairro onde também está a lanchonete que lhe fornece o café da manhã. Nas feiras da região, também ganha legumes e frutas. “Quando pego muita coisa, doo ali na Favela do Rato”, afirma ele, católico, que gosta de ouvir no pequeno aparelho que carrega no posto de gasolina próximo missa e música sertaneja. “Bebo pinga o dia inteiro, mas não fico bêbado, não. Respeito todo mundo que passa aqui”, pontua o homem. “Cato latinhas e papelão de madrugada. À tarde eu descanso e cuido da minha mulher. Não dá para dormir na rua de noite, não. Tem que um vigiar o outro, porque é muita covardia que acontece”, alerta ele, que estudou até a sétima série e seguiu para ajudar o pai. “Sou pedreiro de acabamento, já trabalhei muito com meu pai, que também é. Mas numa briga tomei uma facada que partiu minha palma mão em dois pedaços. Não tenho o movimento em dois dedos. Para eu segurar uma desempenadeira, minha mão incha. Não consigo trabalhar de pedreiro por causa disso. Agora só puxo o carrinho de papelão para me sustentar e não precisar mexer nas coisas dos outros.”

O futuro com jeito de passado

A ponte, aponta Adriano, foi varrida na noite de ontem. A calçada também. Não apenas a disposição da área onde instalou sua barraca simula o espaço de uma casa, com cadeiras para visitas como eu, e um fogão a lenha, como também os hábitos de Adriano não o deixam esquecer o que teve por tanto tempo. Os companheiros também o ajudam a não perder da memória a sensação da casa. Sérgio quando avista as capivaras na margem do outro lado do rio, brinca com Adriano: “Olha lá nossos gatos!”. Os bichos não chegam perto da barraca. E Adriano também não temeria se chegassem, afirma. Medo parece não ser palavra de seu vocabulário. Já sonho… “Sonho em ter uma casa, sair da rua, arrumar um serviço e tratar meus dentes. Viver na rua é osso. Já passei por cadeia, por um montão de lugares, e nada se compara à rua. Os primeiros dias na rua? Comi o pão que o diabo amassou. Vivi igual a cachorro. Usava drogas, bebia o dia inteiro, dormia em qualquer lugar. Mas a rua me ensinou a fazer o certo, arrumar uma lona e um espaço. Sempre faço todo os dias de manhã o sinal da cruz no chão, que significa liberdade e proteção. Jesus me abençoa. Todo os dias de manhã acendo o fogão de lenha. Isso quando não chove. Aqui é bom, rapaz. Está vendo o abacateiro cheio de fruta? Tem acerola ali, goiabas. Tem um ninho de curió na árvore ali, que de vez em quando eles caem, e eu coloco de volta no ninho.”

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