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Açaí com picolé, morangos e histórias: a luta de Fábio e Natália

Porteiro, assessor político, produtor de eventos e empresário devotado: o dono do nome que se tornou sinônimo de açaí em Juiz de Fora

Por Mauro Morais

02/02/2019 às 16h40

Natália e o marido Fábio, juntos há 15 anos, construíram uma rede que hoje conta com sete lojas e quase 50 funcionários. (Foto: Olavo Prazeres)

Para, respira, olha para o alto e sorri enquanto reconhece todo o esforço que envolveu suas conquistas. “Era para eu continuar sendo porteiro e estava tudo certo.” Fábio Henrique Araújo Costa queria outro caminho. E não apenas resistiu, como insistiu, de mãos dadas com Natália Dias Mendes, que conheceu no curso de formação de mirins da Amac. Ele ainda não havia completado o ensino médio, que iniciou na Escola Estadual Clorindo Burnier, no Barbosa Lage, após fazer todo o ensino fundamental na Escola Municipal Cecília Meirelles, no Nova Era, onde vivia parte dos dias. Ainda criança, Fábio viu os pais se separarem e ele, então, passou a se dividir entre a casa do pai, no Nova Era, e a da mãe, em Benfica, bairro onde ela há mais de 30 anos mantém uma banca de jornal na praça principal. Desde aquela época Fábio não gosta de usar calça. “Prefiro bermuda”, diz ele, que em mais de dois terços de seus 33 anos não teve outra escolha se não usar as quentes peças que hoje dispensa.

“Sou mais despojado”, conta, enquanto acena para os muitos amigos que passam à sua frente, confirmando o adjetivo que impõe a si mesmo. “Sou humilde e não deixo nada me subir à cabeça”, acrescenta, sob a concordância de Natália, com quem vive há 15 anos. Casados, estão desde o último 16 de setembro, quando subiram ao altar, festejaram e depois partiram para uma viagem por três países da Europa. Aos 33 anos, o casal hoje é dono da rede Açaí do Fábio, com sete lojas, seis em Juiz de Fora e a recém-inaugurada filial de Cataguases. “Queremos saber como vai se comportar essa unidade nossa a 120km de casa. Muita gente já conhece lá, e isso é que é legal”, diz Fábio, que junto da esposa emprega quase 50 pessoas, muitos deles amigos seus.

“Eu estudei pouco, mas um livro que um amigo me deu, chamado ‘Oportunidades disfarçadas’ (de Carlos Domingos), me ajudou a abrir a mente. As oportunidades estão onde a gente menos espera. Não durmo nem um dia sem olhar anúncios na internet”, conta ele, dizendo tomar açaí três vezes por semana. Natália toma com frequência menor, para evitar gelado. “Tem quatro ou cinco meses que não lanço nada, mas tenho umas invenções guardadas!”, anuncia ele, certo de que, além de resistir e insistir, também é preciso apostar: “Sempre tive um espírito empreendedor, visão e acreditei”.

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Um fracasso para tantos sonhos

Quando venceu o período como mirim no núcleo dos Curumins, projeto do governo municipal, Fábio tornou-se porteiro, terceirizado da Regional Norte. Com o acerto como mirim e algumas economias, resolveu, junto da namorada, montar uma pequena lan house no Nova Era. “Nos meus dias de folga eu ficava na lan house, nos finais de semana ela ia para lá, e enquanto eu trabalhava tinha um menino que cuidava das coisas para mim. Estávamos tentando a sorte. O negócio estava indo bem. Em alguns meses conseguimos comprar mais video games. Na época tinha uma onda de assaltos a lan houses, tomamos precauções, prendemos os video games com armações de ferro, mas dois caras assaltaram a loja no meu dia de trabalho na Regional Norte. Eles levaram quatro e ficou um só. Não tínhamos como continuar, porque tudo que entrava a gente investia nos próprios equipamentos. Foi nosso primeiro fracasso na vida”, conta ele, que já morava junto de Natália numa pequena casa no Bonfim, bairro onde ela foi criada. “Era pequenininha, com um quarto, sala, cozinha e banheiro”, recorda-se ela, então auxiliar de escritório numa loja de peças e utilidades, onde permaneceu por 12 anos. Hoje eles vivem num apartamento em Benfica. Pouco tempo depois do fechamento da lan house, Fábio ficou desempregado. E um projeto de moto-entrega nem saiu do papel. A sogra, então, sugeriu-lhe pleitear uma vaga como porteiro de escola estadual. O jovem foi contratado para atuar na Escola Estadual Padre Frederico Vienken, no Bonfim, onde ele conheceu a professora e ex-diretora Ana Rossignoli, para quem fez campanha política em 2008. “Era muito corpo a corpo, então, fora do expediente eu ia pedir voto para ela”, lembra. Ana foi eleita, e Fábio tornou-se colaborador do gabinete, mas sem abandonar o trabalho na escola, pela manhã. “O sonho de ser dono do meu próprio negócio nunca saiu de mim.”

Antes de se tornarem empresário do ramo de alimentos, Natália e Fábio trabalharam com a noite, produzindo shows de pagode e funk. (Foto: Olavo Prazeres)

Uma festa para vários times

Quando a portaria não demandava, Fábio procurava outras atividades na escola. “Montava times de futebol para competição e acabei criando um para mim. Deu um ano e eu resolvi fazer um churrasco”, conta o criador do Vila das Mansões Futebol, nome em referência à vila em que morava no Bonfim, com um mansão logo na entrada e casas simples no interior. Com uma dose de coragem e muitas de ousadia, o casal ampliou a festa e fez uma chopada no Morro da Glória. As despesas do Vila Chopp, em alusão ao time, foram pagas, e o desejo de uma segunda edição foi despertado. Para a terceira chopada, trouxeram atrações do funk nacional. Bombou. Porteiro pela manhã e funcionário do gabinete da vereadora pela tarde, Fábio tornou-se produtor de eventos pelas noites. Quando o cansaço forçou a escolha, passou a se dedicar ainda mais aos shows e se manteve como porteiro. “Foi aí que comecei a ganhar dinheiro com shows. Comprávamos a data do artista e num mesmo dia fazíamos shows em Juiz de Fora e em outra cidade da região. A casa ficava com o bar, e eu, com a porta. Não deixávamos o MC chegar atrasado e assim fizemos dobradinhas como Juiz de Fora-Bicas, Juiz de Fora-Andrelândia, Juiz de Fora-Leopoldina”, conta o lateral-direito e atacante afastado dos campos, torcedor do São Paulo e fundador do Açaí do Fábio Futebol Clube.

Um carro para inúmeros sorvetes

Quando esteve em Mariana, cidade onde acabou levando prejuízo por ter que cancelar um show, Fábio conheceu o dono de uma loja de sucos, que sugeriu a ele comprar uma máquina de sorvetes. “Aquilo ficou na minha cabeça. Passou um tempo e eu vi uma máquina à venda na internet. Eu queria ser um vendedor de casquinha (de sorvete) igual ao McDonald’s. Minha mãe mora na Rua Martins Barbosa, e a varanda é de cara para a rua. Coloquei a máquina na varanda. Não tinha isso em Benfica. Eu ficava atrás do balcão, começou a dar certo. Empolguei, mas continuei fazendo shows, só que pensando em investir nos sorvetes. Foi então que surgiu um anúncio na internet de um ponto no Manoel Honório”, narra. Fábio precisava, porém, de mais uma máquina de sorvetes. A que tinha já começava a falhar. Achou uma sendo vendida em Ipatinga e trocou pelo carro. A máquina não deu certo, e o casal decidiu investir no açaí, protagonista da loja do Manoel Honório e alimento que eles mal conheciam. A rotina tornou-se ainda mais apertada. Natália saía do trabalho no escritório e partia para a loja no Manoel Honório. Aos finais de semana, ambos ficavam em Benfica, vestidos com uma camisa cuja frente tinha estampado “Açaí do Fábio” e, nas costas, “Sorvetes do Fábio”. “Sempre fui sonhador, visionário e empreendedor, acreditando que não dá para parar ou acomodar. Muitas vezes tivemos a chance de ter um carro melhor e outros bens, mas sempre priorizamos investir no nosso negócio.”

Nascido e criado na Zona Norte, Fábio começou o negócio de açaí no Benfica, com o apoio da esposa Natália. (Foto: Olavo Prazeres)

Uma barca para muita coragem

Quando passou pela praça de Benfica, Natália encontrou uma loja com uma faixa: “Passo o ponto”. No dia seguinte, Fábio chegou antes dos outros interessados e fechou o negócio, que envolveu todas as suas economias e uma parte emprestada de um amigo. “Foi onde tudo começou, mas foi o mais difícil de todos os pontos”, lembra ela. O novo endereço exigia uma identidade. Sempre conectado, Fábio pesquisou receitas e identificou a importância de investir em ingredientes com fama e incontestável qualidade. Depois criou uma linha gourmet, com taças e tigelas que incrementavam o açaí com picolés e chocolates. “Se for bom, alguém vai gostar”, apostou ele, que rapidamente viu os compartilhamentos com fotos de seus produtos se multiplicarem nas redes sociais. “Quando o açaí embalou, eu estava no auge dos bailes. O MC começava a estourar e eu já contratava. O dinheiro entrava e eu investia no açaí. Mas eu já tinha escapado de duas tentativas de assalto e estava muito visado. Era uma coisa que a gente amava fazer, mas depois de dois anos com o açaí, parei com os bailes. O último show foi o melhor, quando mais ganhamos dinheiro com eventos. Lotamos Juiz de Fora e Muriaé”, lembra. Era janeiro de 2016 e no palco estava MC TH, do hit com o refrão “aproveita que a mamadeira tá cheia”. Vivendo do próprio negócio, o casal começou a procurar na internet ideias ainda mais ousadas. Um dia viram diferentes composições das tradicionais barcas de comida japonesa. “No Rio surgiu uma barca de hambúrguer, com batata frita, linguiça. Vimos barca de salgadinhos, mas não tinha de açaí”, conta ele, para logo constatar: “Quando fizemos a barca, estourou. As pessoas se acomodam e nunca arriscam. É preciso apostar. E trabalhar. De quantos domingos já abrimos mão até hoje?”

Criação de Fábio, a barca de açaí tem morango, leite em pó, chocolate, banana, picolé e muito mais. (Foto: Olavo Prazeres)

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