O nadador juiz-forano Renato Melo Ferreira conquistou, entre os dias 21 e 27 de outubro, duas medalhas de ouro e uma de bronze no 10º Pan-Americano Master de Natação, realizado em Buenos Aires, na Argentina. Com o primeiro lugar nos 200 metros livre, o atleta do Clube Bom Pastor se tornou bicampeão pan-americano da prova, repetindo o título conquistado em 2018, em Orlando, nos Estados Unidos. Renato, que também venceu os 400 metros medley e ficou em terceiro nos 800 metros livre, foi o entrevistado desta quarta-feira (28) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna. Aos 46 anos, ele também acumula o título de campeão mundial master dos 200 metros livre, conquistado em 2025, em Singapura.
Durante a conversa, Renato relembrou a trajetória iniciada ainda na infância em Juiz de Fora, a conquista do título mundial em Singapura, em 2025, e os desafios de manter o alto rendimento com o avanço da idade. O nadador também falou sobre sua experiência como árbitro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Doutor em Ciências do Esporte e professor da UFJF, também abordou a relação entre preparação psicológica e desempenho esportivo, tema de suas pesquisas acadêmicas. Ele ainda avaliou a formação de novos talentos da natação em Juiz de Fora, destacou a importância do esporte master para a longevidade, compartilhou histórias bem-humoradas vividas em competições e viagens e revelou os planos de disputar competições internacionais em 2027.
Confira a entrevista, na íntegra:
Tribuna de Minas: Renato, para começar, queria que você contasse um pouco sobre o início da sua trajetória na natação. Quantos anos tinha, por que começou a praticar o esporte e como ele esteve presente na sua vida até hoje, aos 46 anos?
Renato Melo Ferreira: Começou da forma como acredito que acontece com a maioria das crianças. Eu tinha bronquite, tinha asma e, por indicação médica, meus pais me colocaram na natação para tratar um pouco desse problema. De tabela, meu irmão Rodrigo, um pouco mais novo que eu, também entrou na natação, porque tinha que acompanhar o irmão mais velho. Começamos no Sport Club Juiz de Fora, nos anos de 1983 e 1984, e ficamos até meados da década de 1990. Depois nos transferimos para o Clube Bom Pastor, ainda adolescentes. Passamos lá a adolescência e o início da fase adulta, até por volta de 2000 e 2001. Em 2000, meu irmão foi para o Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, e, em 2001, eu o segui. Ficamos lá, depois meu irmão foi para uma universidade nos Estados Unidos para treinar e estudar, e eu permaneci no Minas até meados de 2006. Naquele ano, me retirei da natação competitiva profissional e comecei a buscar uma formação no mestrado e doutorado em Ciências do Esporte, na UFMG. Mas continuei disputando algumas competições amadoras, competições de prefeituras, os antigos Jogos do Interior de Minas, os Jogos Regionais de São Paulo. Conheci as águas abertas e uma série de outras modalidades. Em 2013, de uma forma mais robusta, comecei a me vincular ao esporte master, disputando provas de águas abertas e de piscina. Em 2018, descobri outro aspecto desse esporte. Além da competição e do treinamento, havia a possibilidade de reencontrar amigos que não via há dez ou 15 anos. Na minha primeira participação em uma competição internacional master, em Orlando, descobri o turismo esportivo. Meu irmão me chamou e falou: “Vem pra cá, a gente compete e depois a gente vai dar um abraço no Mickey”. Fomos, conhecemos e foi uma experiência importante. A partir daí, junto com a possibilidade de conhecer novos lugares e reencontrar amigos, comecei a escolher algumas competições internacionais. Em 2023, voltei a Juiz de Fora, agora como professor do curso de Educação Física da UFJF, e retornei ao Clube Bom Pastor, onde um amigo de infância é treinador. Com toda a estrutura que o clube oferece para o esporte, desde os primeiros anos de vida até os atletas mais velhos, comecei e continuo na natação competitiva, agora no esporte master.
Tribuna: Você acaba de retornar do 10º Pan-Americano Master de Natação, realizado em Buenos Aires, onde conquistou duas medalhas de ouro e uma de bronze em uma competição com mais de 3 mil atletas das Américas. Como foi sua preparação para esse torneio e quais foram os maiores desafios enfrentados durante as provas?
Renato: Divido isso em duas partes. A primeira começou em janeiro, quando sentei com meu treinador, Álvaro Maciel, o Cebola, do Clube Bom Pastor. Treino com a equipe dele e escolhemos essa competição como a principal disputa internacional da temporada. Fizemos toda a preparação, com a pré-temporada na Universidade Federal de Juiz de Fora, junto com a equipe do clube. Treinamos 120 quilômetros no mês de janeiro e mantivemos esse volume até chegar ao polimento, agora em outubro. O maior desafio é conseguir entender e respeitar um corpo de 46 para 47 anos. Não é a dificuldade de treinar, mas a necessidade de descansar, porque o corpo de um atleta mais velho precisa de mais tempo de recuperação. Uma lesão na minha idade tem uma recuperação muito mais lenta do que em um atleta de 15 ou 20 anos. Já na Argentina, até comentei com alguns alunos que a gente chega a uma competição master pensando que é uma competição participativa, com atletas mais velhos, pessoas de 80 ou 90 anos. Mas, no final das contas, atleta é atleta. Eles chegam lá e querem ganhar, ninguém gosta de perder. Quando cheguei, um argentino gritou: “Renato, professor! Vai nadar os 800?”. Falei que sim. Ele perguntou se eu estava bem, respondi que estava e perguntei sobre ele. Aí ele falou: “Eu vou ganhar de você”. Pensei: “Que argentino mais safado”. E ele ganhou. Até dormi mal. No outro dia, íamos nadar os 200 metros livre juntos. Ele chegou perto de mim e perguntou: “E os 200?”. Eu falei: “Não vou nem tentar falar espanhol. Os 200 não são os 800 não, quem ganha sou eu”. Depois ele me encontrou e falou: “Um a um, né, amigo?”. Respondi: “É, um a um. Ninguém fica triste com ninguém”. Então tem o desafio da viagem, da competição e de entender a idade, de conseguir se manter competitivo. A cidade era muito convidativa, a piscina era muito boa, mas o principal desafio continua sendo entender a idade e manter a competitividade.
Tribuna: Você trouxe as medalhas para mostrar. Em quais provas foram conquistadas e quais tempos conseguiu alcançar?
Renato: Essa é a medalha dos 400 metros medley, tem uma similar dos 200 metros livre. Nos 400 medley fiz o tempo de 5min15. No esporte master, na minha faixa etária, que é a partir dos 45 anos, é um tempo bem representativo. Aqui está a medalha de bronze dos 800 metros livre, prova em que meu amigo argentino ficou em primeiro. Acabei perdendo também a segunda colocação para outro atleta que nem vi. Mas são medalhas bonitas. A inscrição reflete a qualidade do evento. É uma competição com um valor de inscrição alto, mas as medalhas, a estrutura, as condições da piscina e o atendimento são o que o esporte master necessita. Com pessoas a partir dos 25 anos até outras próximas dos 100, precisamos de uma estrutura que nos atenda de forma eficaz.
Tribuna: Você mencionou o turismo esportivo, que permite conhecer diferentes lugares enquanto participa das competições. Quais destinos já teve a oportunidade de visitar por causa da natação master? E como consegue custear essas viagens?
Renato: Tenho um amigo de Uberlândia chamado Felipe Maia, que viaja e compete muito. A partir de um convite dele, comecei a perceber essa possibilidade de conhecer outros países. Quando era atleta profissional, tive a oportunidade de conhecer praticamente o Brasil inteiro. Fui da Seleção Brasileira, mas a etapa da Copa do Mundo de que participei foi no Rio de Janeiro. Como árbitro, já conheci alguns países, mas minha primeira oportunidade de sair do Brasil como atleta foi quando meu irmão me convidou para Orlando. Chegamos lá, competimos, ganhamos, nos divertimos e depois pensamos: “Estamos aqui dois, três dias, vamos conhecer a Disney?”. Éramos homens com quase 40 anos e parecíamos crianças de 12 anos na Disney. Voltei no avião pensando que meu objetivo, a partir daquele momento, seria juntar a parte esportiva, qualidade de vida, saúde, competitividade e treinamento, aliar isso à Universidade e ainda ter a possibilidade de conhecer novos lugares. Gosto muito de Capitólio. Eu e minha mulher vamos competir lá, ela fica como meu apoio na prova de dez quilômetros e depois aproveitamos para conhecer a região. Fui a Singapura no ano passado, ao Texas também, e daqui até 2030 consigo listar uns dez lugares que tenho interesse em conhecer. Em relação aos recursos, o Clube Bom Pastor me dá muito apoio e estrutura. Temos uma parceria com o treinador Álvaro, o coordenador de esportes Pedro e o presidente do clube. É uma parceria que funciona de forma eficaz para mim, para a equipe e para o clube.
Tribuna: Em Singapura, você disputou o Mundial Master de Natação e conquistou o título mundial. Como foi essa conquista?
Renato: Em Singapura, no ano passado, teve o Mundial de Natação em piscina longa, de 50 metros, a piscina olímpica. Consegui ser campeão mundial nos 200 metros livre, a prova que também ganhei na Argentina. Em 2025, na minha categoria, fui o melhor do mundo. E, com o tempo que fiz no ano passado, também apareci em primeiro no ranking mundial deste ano. Então, em 2025, posso falar que fui o melhor do mundo. Agora, em 2026, precisamos esperar o próximo Mundial.
Tribuna: Você também estabeleceu um recorde sul-americano na categoria acima dos 45 anos, com o tempo de 2min20. Ainda detém esse recorde?
Renato: Sim. Se pensarmos nos níveis estadual, nacional, sul-americano, pan-americano, americano e mundial, em todos eles tenho algum recorde, seja individualmente ou em revezamento. Nos revezamentos, somos recordistas mundiais e americanos. Também sou recordista pan-americano em revezamento e, individualmente, recordista estadual, nacional e sul-americano.
Tribuna: Nesse Pan-Americano de Buenos Aires, você conquistou mais um título depois de ter sido campeão oito anos antes, em Orlando. Você comentou que hoje precisa respeitar mais o tempo de descanso. O que mudou na sua preparação e na maneira de encarar as competições desde aquela época, quando estava perto dos 40 anos?
Renato: Graças a Deus, a gente vai ficando mais velho e mais inteligente. Pelo menos esse é o objetivo. Antes dos 40 anos, com 38, eu queria treinar e ganhar. Todo atleta quer ganhar e eu não respeitava tanto o descanso. Quando cheguei perto dos 42, 43 anos, entendi que, para continuar fazendo isso até os 80, 90 ou 100 anos, precisava respeitar meu corpo. Esse é meu objetivo. No Pan-Americano de Orlando, havia um senhor com mais de 100 anos que nadou uma prova e bateu o recorde mundial. Pensei que precisava cumprimentá-lo. Quando fui até ele, antes que eu chegasse, outro homem se aproximou e falou: “Eu ainda vou bater o seu recorde”. O senhor respondeu, rindo: “Para bater, tem que estar vivo”. Aquilo me marcou. Ele estava lúcido, mergulhou do bloco. Então meu objetivo é conseguir ficar o mais novo possível durante o maior período de tempo. Envelhecer com qualidade deve ser um dos principais objetivos da sociedade, para manter a autonomia.
Tribuna: Como você concilia a rotina de professor da UFJF com os treinamentos? Quantas vezes por semana nada, como organiza a musculação, a alimentação e os períodos de descanso?
Renato: No período competitivo, geralmente baixo meu peso para 93 ou 94 quilos. Fora dele, vou para 101 ou 102. Não bebo, nunca bebi álcool, mas gosto de doce e como muito açúcar. Então tento controlar um pouco a alimentação. Faço uma suplementação básica de whey protein e creatina, nada além disso. Faço musculação duas ou três vezes por semana para manter a qualidade muscular e tento nadar seis vezes por semana. Algumas vezes treino no Clube Bom Pastor, outras vezes sozinho. Nos dias em que nado sozinho, diminuo a intensidade para tentar recuperar o corpo. Também aproveito para treinar com os mais jovens do clube. Eles me chamam de dinossauro. Treinar com esses jovens me ajuda a melhorar. A maior dificuldade é organizar tudo isso dentro do dia. Tento concentrar o trabalho na Universidade, orientar alunos, desenvolver pesquisa, extensão, ensino, atividades administrativas, dar aulas. Faço isso de manhã, à tarde e, em alguns períodos, à noite. E separo um pedaço do dia, duas horas ou um pouco mais, para treinar. Dá para fazer. Às vezes achamos que não temos tempo, mas o próprio telefone mostra que ficamos oito horas por semana usando o aparelho. Meu objetivo é que ele me diga que fiquei cinco minutos, porque sei que posso usar esse tempo para treinar.
Tribuna: Achei interessante que, no seu doutorado em Ciências do Esporte pela UFMG, concluído em 2013, você investigou as habilidades mentais de nadadores de alto rendimento e desenvolveu um instrumento psicométrico, que é uma ferramenta científica utilizada para medir características mentais e comportamentais de forma quantitativa. Quais características psicológicas fazem diferença em uma competição e como você trabalha esses aspectos na sua própria preparação?
Renato: No meu mestrado, procuramos avaliar todos os medalhistas olímpicos daquela época para entender o que tinham de diferente dos outros atletas em relação às características psicológicas e estruturais. A partir disso, desenvolvemos um instrumento no doutorado. Posso falar de algumas características, independentemente do esporte, embora acredite que sejam mais evidentes em modalidades individuais. A primeira é o estabelecimento de metas. A pessoa sabe o que quer e, depois que sabe, que é a parte mais difícil, precisa se comprometer com aquele objetivo. Estou em determinado nível e quero chegar ao seguinte. O que tenho que fazer para chegar lá? É o comprometimento com essa meta. Outra característica é a motivação intrínseca. Nos últimos meses, o tempo não tem sido muito agradável para nadar. Você precisa acordar de manhã e pensar: “O que tenho que fazer? Sair da cama, pular na água. Está frio, mas vou treinar”. Isso é motivação intrínseca. Outro fator fundamental é ter bons companheiros de treino. Na ciência já observamos isso. Se você volta a fazer exercício sozinho, tem uma motivação. Se volta junto com outra pessoa, pensa duas vezes antes de desistir, porque vai deixar alguém na mão. É isso que busco com os meninos do clube, de 16, 17, 18, 19 anos. Uma parceria para que, mesmo nos dias difíceis, a gente continue. Então são essas as principais qualidades: estabelecer metas, comprometer-se com elas, ter motivação intrínseca e pessoas ao seu lado que compartilham o mesmo ambiente e os mesmos objetivos.
Tribuna: Muito se fala sobre a importância do acompanhamento psicológico no esporte, principalmente no futebol. Na natação, esse cuidado já está mais presente? Você também faz acompanhamento ou utiliza outros recursos para lidar com a pressão das competições?
Renato: Hoje, devido aos estudos, à formação e à experiência que tenho, consigo, em determinados momentos, fazer uma autogestão dessa carga psicológica. Alguns atletas do clube contam com apoio de fisioterapia, nutrição, psicologia e preparação física. É isso que os jovens devem buscar, porque temos uma dificuldade: todo mundo se prepara para ser campeão, mas só um pode ser campeão. Os demais precisam ter resiliência para se reestruturar e seguir em frente. Essa é uma dificuldade dos jovens hoje. Às vezes me perguntam por que treino com meninos de 15 ou 16 anos e não com pessoas da minha idade. Porque não tem. Eu gostaria de estar em uma piscina com mais dez quarentões, mas, por questões de tempo, recursos e outras possibilidades, as pessoas acabam se desvinculando do esporte master de alto rendimento e indo para o esporte participativo, que é tão importante quanto o que faço. Não sei por quanto tempo vou aguentar, mas sei que vou continuar fazendo. Não importa se chegar em primeiro ou em último. Uma vez, quando tinha 15 anos, vi uma faixa anunciando uma prova de triatlo aqui em Juiz de Fora. Estava escrito: “Se você gosta de se desafiar, se inscreva no triatlo”. Olhei para minha mãe e falei que gostava de me desafiar. Nunca tinha pedalado e corrido em uma competição, mas nadava. Fui participar e era o único com uma mountain bike. Todo mundo estava com bicicleta de estrada. Olhei e pensei: “Estou errado”. Fui o primeiro a sair da água, mas cheguei em último na prova. Mesmo assim, fiquei feliz demais. Pergunta se fiz triatlo de novo. Nunca mais. Mas acho que as pessoas precisam experimentar. Já participei de aquatlo, triatlo, canoa havaiana, outra coisa que nunca mais faço, mas fui convidado e quis experimentar. Essas experiências vão criando um repertório mental que dá sustentação para seguir em frente. Acho que a principal dificuldade dos jovens hoje é lidar com a frustração, com a demora, com o tempo. Todo mundo quer uma coisa muito imediata, mas as conquistas demoram.
Tribuna: No alto rendimento, é importante ter referências e atletas em quem se inspirar. O Brasil teve nomes como César Cielo e, atualmente, Gabriel Araújo, o Gabrielzinho, que se destaca na natação paralímpica. Também tivemos Daniel Dias. Na natação olímpica, você acredita que falta uma grande referência nacional? Existem atletas que possam assumir esse papel nos próximos anos?
Renato: Essa pergunta é muito boa. Como estou na Academia e acompanho especificamente a realidade do estado, acredito que existam vários níveis de referência. O clube do interior, como aqui em Juiz de Fora, precisa ter um atleta mais velho, do sênior ou do júnior, porque uma criança de oito anos até conhece os nadadores que vê pela televisão, mas, quando vê um atleta mais velho treinando no clube todos os dias, pensa: “Se aquele cara está nadando e é o melhor daqui, ele é meu herói”. Assim conseguimos criar uma base dentro da equipe. Imagine se tivermos um em Juiz de Fora, outro em Barbacena e a natação começar a crescer. Depois, quando essa criança vira adolescente, começa a conhecer os heróis nacionais e, posteriormente, os internacionais. Hoje a natação está muito mais diversificada. A cada momento temos alguém batendo um recorde mundial, de diferentes nacionalidades. Antigamente eram os americanos e australianos que dominavam. Hoje temos atletas da Alemanha, China, Japão. Em relação à natação brasileira, existem excelentes atletas, concentrados principalmente em polos como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, onde conseguem treinar com outros grandes nadadores. Alguns vão estudar em universidades americanas e depois retornam. O que precisamos observar é que o Scheffer, nosso último medalhista olímpico, se aposentou recentemente. Então estamos em um processo de transição, tentando identificar potenciais atletas para que possam se desenvolver e alcançar competições pan-americanas, sul-americanas, pan-pacíficas, mundiais e olímpicas. Se eu citar um nome, vou ser injusto com vários outros, porque vemos competições de base muito fortes, como o Troféu Chico Piscina, em Mococa (SP), com tantos atletas se destacando. Às vezes apostamos em alguém e, dois ou três anos depois, ele não chega ao nível esperado. O que torço é para que a natação brasileira consiga levar uma equipe forte para os Jogos Olímpicos, não apenas alguns atletas. Que possamos levar 12 ou 15 nadadores no masculino e outras 12 ou 15 no feminino. Agora, com a inserção das provas de 50 metros, podemos ter uma longevidade maior no esporte. O Nicholas Santos, que é da minha idade, está voltando a nadar, e existe a esperança de que possa participar dos Jogos Olímpicos com 46, 47 ou 48 anos. Imagine isso. É a longevidade esportiva de altíssimo nível em uma edição olímpica, mostrando para as pessoas de 20 ou 30 anos que ainda podem continuar por muito tempo. Espero que em Los Angeles tenhamos uma delegação forte.
Tribuna: Nas últimas semanas, recebemos aqui no programa atletas de modalidades que ainda relatam dificuldades com o investimento, como a corredora Amanda Oliveira e a ginasta Júlia Hellen. Você é professor de uma universidade que também contribui para a formação de atletas de diferentes esportes. Como avalia especificamente a formação de nadadores em Juiz de Fora? Quais são os principais desafios para ampliar o acesso à natação e desenvolver novos talentos na cidade e na região?
Renato: Juiz de Fora historicamente sempre teve bons atletas, em níveis estadual e nacional. Tivemos a Larissa Oliveira, em nível internacional. Uma máquina, um absurdo como atleta. O que acho que falta hoje para a cidade? Na minha época, tínhamos o Sport Club Juiz de Fora e o Bom Pastor. Depois tudo se juntou no Bom Pastor, tornando a equipe, nos anos 1990, a segunda do estado, em alguns momentos disputando com o Minas Tênis Clube. Depois começou a diminuir o volume de atletas. Na minha visão, precisamos aumentar esse quantitativo. As academias precisam inserir crianças e adolescentes nas competições, tanto de águas abertas quanto de piscina, para que vivenciem o objetivo esportivo, que é competir, ganhar e tentar se superar. Vamos supor que, de 100 meninos que entram no esporte competitivo, 10% se vinculem a uma equipe federada. Daqui a três, quatro ou cinco anos, já podemos ter uma equipe com 50 ou 60 atletas. Desse grupo, conseguimos identificar novos destaques. Pode demorar dez, 15 ou 20 anos, mas vai aparecer um novo talento. O que mudou dos anos 1990 para cá? Antigamente, minha preocupação com os estudos era quando chegava aos 17 ou 18 anos, perto do vestibular. Então conseguia me dedicar ao esporte até essa idade. Hoje, com 14 ou 15 anos, os adolescentes já estão muito mais focados nos estudos, e as famílias também. O esporte fica em segundo plano. Existem vários outros atrativos. Na minha época, praticamente não tínhamos telefone nem internet. Fazíamos as coisas no clube. Íamos competir, ficávamos no clube, nos exercitávamos. Nosso prazer era viajar para São João Nepomuceno, Barbacena ou qualquer outra cidade. Era uma desculpa para ter um dia diferente. Hoje é muito mais fácil encontrar outras atividades. Mas essa geração também tem vantagens. Na minha época, a gente consumia albumina, era praticamente o único suplemento disponível. Hoje temos tantos suplementos, equipamentos e materiais que oferecem mais suporte e melhores possibilidades para os atletas. Os meninos estão chegando cada vez maiores. Tem um garoto de 15 anos no clube que já é do meu tamanho. Ele tem a obrigação de tentar. Se vai conseguir, não sei, mas precisa tentar para ver se desenvolve e alcança a excelência esportiva. Então é isso: precisamos ter mais gente.
Tribuna: Você voltou de Buenos Aires com três medalhas e ainda estamos em outubro. Tem mais alguma competição programada para este ano? E como está o planejamento para 2027? Quais provas e lugares pretende disputar na próxima temporada?
Renato: Neste ano, ainda temos, no dia 8 de novembro, a prova Uai d’Água, na Represa Dr. João Penido, com largada no Náutico. O Lucas está organizando esse evento de águas abertas, com provas de 500 metros, 1.500 metros e 3 mil metros. Quem competir nas três provas completa o Desafio Pau d’Água. Quando ouvi falar, pensei: “Esse desafio eu quero”. Então vou nadar as três provas, totalizando cinco quilômetros. É um objetivo, estarei lá. Minha esposa também vai nadar a prova de 500 metros, então acaba sendo uma atividade familiar. Vou levar meus alunos para observar um evento competitivo na cidade, o que também é importante. Você percebe que vou juntando tudo: família, competição, qualidade de vida e uma atividade de que gosto. Também levo parte dos alunos para conhecer um ambiente real da nossa profissão. Em novembro, vou para uma prova chamada João Moreno, em Vila Velha, onde nado os cinco quilômetros e os 2,5 quilômetros. É uma competição de que já participo frequentemente e de que gosto muito, porque é na praia. Então também entra o turismo esportivo, um fim de semana diferente. A partir de dezembro, descanso. Meu descanso é em dezembro e volto em janeiro. No ano que vem, em maio, tem o Campeonato Americano de Jardas, em Irvine, perto de Anaheim, na Califórnia. Depois, acredito que em outubro, tem o Campeonato Sul-Americano de Piscina Curta, em Assunção, no Paraguai. E existe um objetivo maior: no meio do ano teremos o Campeonato Mundial, o mesmo em que fui campeão em Singapura, mas dessa vez em Budapeste, na Hungria. Também temos os Jogos Mundiais, no Japão. Então são essas as perspectivas: Califórnia, Paraguai, Budapeste e Japão.
Tribuna: Você também atuou como árbitro de natação nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Como foi participar de uma Olimpíada nessa função, depois de tantos anos como nadador? E o que o público normalmente não percebe sobre o trabalho dos árbitros em uma competição desse nível?
Renato: Primeiro, fiz o curso de arbitragem por volta de 2005 ou 2006, quando estava parando de nadar. Como já nadava havia mais de 15 anos, o pessoal da arbitragem me conhecia e me convidou para começar a trabalhar. Gosto muito de arbitrar. Trabalhei em mais de 200 competições e fiz todas as funções, desde locução até árbitro-geral. Atuei em todos os níveis, desde competições com crianças de oito ou nove anos até eventos com pessoas de 100 anos. Tive a oportunidade de trabalhar em algumas etapas da Copa do Mundo. Depois fui credenciado como árbitro da Consanat, a Confederação Sul-Americana de Natação, e posteriormente da Fina, hoje World Aquatics. Em 2016, fui convidado para trabalhar nos Jogos Olímpicos como um dos brasileiros da equipe de arbitragem. Acredito que éramos seis. Até brinco com as pessoas que o melhor lugar para assistir à competição era o meu. Estava trabalhando, mas era um lugar privilegiado. É uma função que exige um rigor de comportamento e postura que nunca tinha visto na vida. Foi uma oportunidade de aprendizado, de conhecer pessoas e fazer contatos. Em uma competição olímpica, existem inúmeras câmeras, inclusive dentro das cabines. Quando arbitramos uma prova com crianças de oito anos, acontecem muitos erros. Nas Olimpíadas, são detalhes, pouquíssimos erros. Nossa função é observar se alguém está tentando obter alguma vantagem que não seria permitida pelas regras. Com crianças, os erros acontecem sem querer. No nível olímpico, é muito raro, mas pode acontecer de algum atleta tentar burlar uma regra. O maior aprendizado, porém, foi observar a gestão daquele ambiente e conhecer os bastidores do que todo mundo vê. Entendi o tamanho de uma competição não como público, mas trabalhando por trás. Para realizar um evento daquele porte, o nível de comprometimento é surreal. Quando as pessoas falam que os Jogos Olímpicos têm uma dimensão que não conseguimos entender, eu consegui perceber o porquê. Foi a realização de um sonho como árbitro. Até brinquei que o Anthony Ervin, americano, foi campeão dos 50 metros livre com 35 anos, e eu estava sentado assistindo. Pensei: “A gente tem praticamente a mesma idade e eu estou aqui como árbitro”. Depois pensei: “Mas eu estou aqui como árbitro”. Então consegui passar por diferentes funções na natação. Fui atleta profissional, trabalhei na federação como diretor, fui árbitro estadual e internacional e hoje estou no esporte master. Consegui vivenciar praticamente todo esse universo da natação, principalmente dentro do estado. Hoje estou um pouco mais distante da federação, mas continuo tentando contribuir.
Tribuna: Os esportes paralímpicos têm recebido cada vez mais atenção, e a natação brasileira conta com referências como Daniel Dias, Clodoaldo Silva e Gabriel Araújo, o Gabrielzinho. Como você avalia o crescimento da natação paralímpica e a importância da modalidade para ampliar a inclusão e o acesso ao esporte?
Renato: Enxergo praticamente da mesma forma que a natação olímpica. Quando temos um destaque, uma ascensão, uma pessoa com projeção na mídia, começam a surgir projetos e iniciativas. Grandes atletas como Clodoaldo, Daniel Dias e Gabrielzinho são pessoas que estão na história do esporte brasileiro, independentemente de ser olímpico ou paralímpico. Eles trazem consigo iniciativas públicas e privadas de incentivo. Acho isso fenomenal. Podemos pensar que o objetivo do esporte competitivo é buscar o próximo Gabrielzinho. Realmente, esse pode ser um dos objetivos, mas você tem noção do impacto que esses atletas têm para possibilitar projetos como o que a Prefeitura realiza na piscina da Faefid, atendendo um público enorme que talvez não tivesse oportunidade de praticar o esporte em outro lugar? O Clube Bom Pastor também tem o projeto Formar, que atende o público do paradesporto. É fenomenal. Tanto o Clube Bom Pastor quanto outras iniciativas da cidade, que desenvolvem projetos para atender diferentes públicos no esporte olímpico, paralímpico, na natação, futebol, handebol, dança ou qualquer modalidade, cumprem uma missão que é também nosso objetivo como profissionais de Educação Física: movimentar as pessoas para que tenham hábitos de vida saudáveis e longevidade com saúde. Porque, quando temos saúde e praticamos atividade física, conseguimos ser produtivos e realizar nossos sonhos de vida para além do esporte.
Tribuna: Você já falou que pretende prolongar ao máximo sua carreira na natação, mas também reconhece que não sabe por quanto tempo conseguirá manter o atual nível competitivo. Você e seu treinador fazem alguma estimativa sobre isso? Depois de tantos títulos mundiais, pan-americanos e recordes, quais objetivos ainda pretende alcançar como atleta, pesquisador e professor?
Renato: Meu objetivo é desempatar com meu amigo argentino no ano que vem, porque ele está me devendo uma. Mas, tirando a brincadeira, tenho um objetivo com alguns amigos. Nos revezamentos do esporte master, a categoria é definida pela soma das idades dos quatro atletas. Então juntei alguns amigos e falei que nosso objetivo seria participar do revezamento na categoria 400+, quando nós quatro tivermos 100 anos cada. Todo mundo falou: “Alguém não vai chegar”. Mas é um objetivo. Treinando como estou treinando, acredito que vou continuar. Diante dos desafios que podemos enfrentar na vida cotidiana, gostaria de permanecer o maior tempo possível treinando com essa qualidade. Quando não for mais possível, continuarei nadando e participando dos eventos. Vou precisar fazer uma readequação psicológica, aceitar que estarei ali para participar e ser tão feliz quanto sou quando vou para competir. Meu treinador é meu amigo. Conheço o Cebola desde que tínhamos três ou quatro anos. Então temos uma parceria muito boa, vamos nos desenvolvendo juntos.
Tribuna: Para finalizar, queria que você deixasse uma mensagem para quem está acompanhando o programa, especialmente para as pessoas sedentárias ou que acreditam que já passaram da idade de começar a praticar um esporte. Como a natação e a atividade física podem transformar a vida dessas pessoas?
Renato: O recado que posso dar, primeiro em relação à prática de atividade física, é que quanto mais regular ela for, menos doenças, mais qualidade de vida e mais longevidade você vai ter. Então, se você está sedentário hoje, procure começar a praticar uma atividade física com orientação. Eu garanto que sua vida muda positivamente em menos de seis meses. Em relação ao que a cidade oferece, acho que Juiz de Fora tem uma gama de modalidades esportivas e atividades físicas. As pessoas precisam sair um pouco mais de casa, aproveitar, fazer alguma coisa. Que seja uma caminhada em volta do lago no domingo. Aproveite, pegue um sol, pare, beba uma água de coco, dê uma risada. Acho que as pessoas estão muito dentro de casa. Também quero aproveitar esse espaço para agradecer a vocês pelo convite, a todos que estão assistindo ao vivo ou que ainda vão assistir pelo YouTube. Agradecer à Universidade Federal de Juiz de Fora pela oportunidade que tenho e aos meus alunos, porque sem eles não faço nada. Acho que trabalho para os alunos. Agradecer à minha família, ao meu irmão, que mora nos Estados Unidos, mas com quem converso muito, à minha mãe e à minha esposa, que me apoia demais. Se não tivermos apoio, não conseguimos fazer nada. E, em especial, agradecer ao Clube Bom Pastor. Parece bobeira, mas me sinto renovado quando chego ao clube, encontro meninos de 15 a 20 anos e caímos na água. Ali já quebramos a barreira da idade. Parece que todo mundo tem a mesma idade, todo mundo tem o mesmo objetivo. É como se fosse uma tribo, um clã. A possibilidade de reencontrar colegas e amigos que não vejo há cinco, dez ou 15 anos, durante as viagens, também é importante. Em Buenos Aires, agora, me senti novamente com 14 ou 15 anos. Eram oito ou nove homens de 40, quase 50 anos, todo mundo rindo. A gente rejuvenesce na mente. Quero agradecer mais uma vez ao Clube Bom Pastor, ao presidente, ao Pedro e, em especial, ao treinador e meu amigo Álvaro Maciel. Sem essas pessoas e a instituição, eu não estaria aqui hoje.

