O diretor de eventos da Associação de Voo Livre de Juiz de Fora, Nilton César de Castro, foi o entrevistado desta quarta-feira (19) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna de Minas. Durante a conversa, ele contou detalhes sobre o esporte, locais para a prática, explanou sobre a segurança da prática e também abordou o 2º Machados Open Fly, evento de voo livre em Machados, na Zona Rural entre São João Nepomuceno e Bicas, que acontecerá neste sábado (20).
Confira a entrevista na íntegra:
Tribuna de Minas: Quantos pilotos devem comparecer no evento?
Nilton: Nós temos um site, onde são feitas as inscrições. Três estados vão estar presentes, Rio, Espírito Santo e São Paulo, que são mais direcionados ao voo livre. Até ontem tinha um total de 44, 45 pilotos já inscritos.
Tribuna: Fala um pouco sobre o evento, por favor.
Nilton: O evento começa no sábado, a gente tem um briefing, que junta todos os pilotos no pouso e faz abrir as regras do dia, porque depende muito da condição do tempo, como é que está a situação, a direção do vento. Então, no dia a gente estabelece como vai ser o campeonato. Tipo um campeonato, mas é mais um ajuntamento do povo e poder divulgar o esporte. Então, vai ser iniciado umas 10h, com a primeira subida em torno de 11h, onde é a abertura da janela e o fechamento da janela às 16h.
Tribuna: E quais são as preparações envolvidas em questão de traje, equipamentos, alimentação e preparação mental?
Nilton: No voo livre, diferente de vários esportes, a pessoa fala assim, “ah, eu vou me desestressar e eu vou voar”. Não funciona bem assim não. Existe toda uma técnica, você tem que ter um equipamento de bom estado, tem umas manutenções periódicas. Não é que é seletivo, mas você tem uns cuidados que não é a mesma coisa que você colocar uma chuteira, um meião e jogar um futebol no final de semana. Então, a previsão do tempo influencia muito. A questão de equipamentos hoje, por exemplo. Você precisaria, para quem quer entrar no voo, uma selete, um reserva, que é o paraquedas de reserva para caso haja alguma pane no velame, que é outra coisa, uma vela de boa condição e equipamentos de voo, um variômetro, um GPS, um rádio de comunicação. Isso tudo ajuda e muito no desempenho do seu voo.
Tribuna: A selete é o que?
Nilton: A selete seria uma cadeira, onde é conectada a vela através de mosquetão para você poder decolar e ter um conforto ali durante o seu voo. Existem dois tipos, são as seletes carenadas e as seletes que não possuem a carenagem. Aí é a opção de cada piloto.
Tribuna: Como é que é a segurança fornecida a quem vai voar?
Nilton: Para ter controle de uma segurança de cada piloto é meio complicado. Hoje a gente tem a ANAC, que faz essa fiscalização. Mas não tem como você ficar atrás de cada piloto para ir em rampa ou um morro que tem uma altitude boa. Então, o que a gente mais busca hoje, na Associação, é segurança. Cada piloto tem que saber o seu limite. Aí depende como, no equipamento de parapente, existem velas mais avançadas, existem velas saídas de escola, existem velas intermediárias. Quando se faz um evento igual ao nosso, o que a gente procura dar de segurança para o piloto é ter uma ambulância, por qualquer eventualidade. A gente tenta uma ajuda da prefeitura, no caso, de Machados quem está dando o nosso total apoio lá é a Prefeitura de São João Nepomuceno, que dá essa estrutura. Uma rampa que tenha uma decolagem mais segura, uma área boa de pouso para alunos que estão começando a desenvolver o voo, também poderem participar desse evento. E a segurança do equipamento. Isso não pode faltar. Um equipamento com a qualidade boa e instrumentos. Rádio, GPS, variômetro. Fica isso tudo à disposição e o piloto que decide mais na questão de segurança.
Tribuna: A Agência Nacional de Ação Civil, a ANAC, considera o parapente uma modalidade de esporte radical e de alto risco, mesmo com todas essas seguranças envolvidas. Quando você vai dar o seu salto, você sente um medo, um frio na barriga ainda?
Nilton: O medo é bom, mas é um medo controlável, você também não vai decolar com medo, não tem como você fazer isso. Mas aí o que influencia muito, geralmente, o que dá mais temor em cada piloto, é a condição climática no dia do evento. Uma ventania muito forte, porque as velas mais avançadas têm uma velocidade de planeio, se o vento tiver acima dessa velocidade de planeio, ou até mesmo as velas mais intermediárias, então não tem condições de você decolar. Se você decolar, já é conta de risco do piloto. Então, a segurança, basicamente, é você ter uma boa instrução, um bom instrutor, procurar ler meteorologia, fazer uma previsão antes de chegar e decolar.
Tribuna: Inclusive, a escolha dessa data para o evento é por conta disso também, certo?
Nilton: Exatamente, é porque é uma época que a única dificuldade maior para o voo do parapente é o tempo, não tem como. Por várias previsões, você tem uma previsão, e escolhe uma data. Mas a chuva não tem como o parapente voar. Vento muito forte também não tem como. Essa época mais seca, o inverno, é uma época boa para fazer esse tipo de evento.
Tribuna: Você falava, fora do ar, de uma das melhores sensações ser você passar por dentro de uma nuvem. Será que vai ser possível no sábado?
Nilton: É porque, apesar, de ter bastante gente da nossa cidade praticando, o voo livre é o seu voo. É um voo solo, então ali é você com seu equipamento e a atmosfera que vai envolver. A questão da nuvem entrar hoje, olha que dia que está, não tem nuvem no céu, mas tem condição de voo, você vai verificar outras formas para você manter o maior tempo possível voando, uma altitude boa de voo que vai te dar segurança. Então, você vai analisar terrenos, lugares que tem pedra, os gatilhos que a gente fala que vai soltar essa ascendente, que são térmicas, é o que faz o voo livre ser livre. É o combustível do voo livre.
Tribuna: E essa sensação do voo livre?
Nilton: Quando eu saí do meio do futebol, gostava muito, era apaixonado, mas é uma sensação que… meu primeiro voo foi de chupetão, voo duplo, deu medo, como todo mundo, que você olhe uma montanha de 500 metros até chegar no pouso. Mas fui, e na hora que eu pousei, a minha perna não parava de tremer, e falei, “ah, é isso que eu quero pra mim agora”. E quando você entra numa nuvem, que você não vê nada, você está a 1.500, 2 mil metros de altura, é uma sensação que acho que cada um deveria sentir uma hora. É muito seguro, apesar da ANAC restringir. O índice de acidente é muito baixo.
Tribuna: A Associação de Voo Livre de Juiz de Fora já tem mais de 20 anos de história, e você está nessa aí há cerca de 16, 17. Eu queria que você falasse um pouquinho de como foi a sua trajetória, e também sobre o que você falou de que em um mês, dependendo, você já consegue ser um piloto, certo?
Nilton: Isso, depende do seu instrutor e da disponibilidade, tanto sua como do instrutor. Geralmente, é um prazo de três meses, que é você praticando mais ao final de semana, dependendo da sua evolução e do equipamento que você esteja, você consegue fazer o primeiro voo de montanhas altas, que a gente chama, e, a partir daí, todo voo é um aprendizado e um desenvolvimento pessoal. Hoje, no parapente, existem dois estilos de voo: tem o de prova, que formam um determinado pilão, e você tem que bater, que é hoje a disputa do Campeonato Brasileiro, Mundial, Mineiro. E tem o cross, que é a pessoa decolar e tentar bater seu recorde pessoal. O recorde hoje brasileiro é de 592 quilômetros (de voo), que é lá na Paraíba. O recorde feminino, acho que é de 292 quilômetros. Então depende de você, do seu gosto, de você querer mais, de você querer fazer só o seu voo, levar a família para ver como é o tipo de evento que a gente faz hoje, aproximar mais a família, ter um momento ali e curtir.
Tribuna: E sobre a sua história da Associação de Voos Livres?
Nilton: A Associação, estamos entrando agora. A Associação de Voo Livre de Juiz de Fora já existe há bons anos, mas quem era presidente, geralmente estava sozinho. Então, como foi divulgando o esporte, foi crescendo. O meu lance era mais voar e curtir. Hoje eu estou como diretor. Está entrando o Leonardo, o vice dele, que é o Fernando, também. É uma nova Associação com novas ideias, novos interesses no voo, como esse podcast aqui para divulgar o nosso esporte partiu da ideia deles, de correr atrás de vocês para poder divulgar o nosso evento. Então, a gente está querendo parcerias com uma prefeitura, alguém para poder auxiliar a gente, que precisa. É uma estrutura muito grande para fazer um evento nesse esporte.
Tribuna: Como é o cenário do esporte aqui na cidade?
Nilton: Hoje, na cidade, a gente conta com umas três rampas que pode decolar e voar, mas são propriedades particulares. Então, a gente ainda esbarra muito na autorização do dono da terra. Por isso, os eventos não são feitos aqui na cidade de Juiz de Fora, que é um grande interesse nosso também. Tem a rampa do Cristo que tem um local ali que a gente está estudando, mas não tem um pouso de emergência, caso haja algum problema. Então, nesse meio de localização, Machados, a Prefeitura de São João nos apoiou, dando para nós o deslocamento dos pilotos do pouso até a rampa, feito a limpeza da rampa, cedendo água, alimentação. Tem água, frutas, uma música, tem pipoca, tem pula-pula para a criança, para poder reunir a família. O proprietário lá, que é o Sr. Silvinho, que sempre nos recebeu bem, tem uma estrutura que agrega tudo isso. Ele serve o almoço, tem bebidas, tem banheiro com chuveiro, um campo que é excelente para pouso.
Tribuna: O que diz que um lugar é ideal para praticar esse esporte?
Nilton: Basicamente, seria um pouso de emergência, uma rampa com uma certa altura de segurança. Porque você decola livre e você tem que pegar essas ascendentes, essas térmicas para você ganhar altura e para você também ter uma segurança. Quanto mais alto, mais segurança para o piloto de parapente. Quanto menor a altitude, já tem alguns riscos que atrapalham isso.
Tribuna: E a altitude boa seria de quanto?
Nilton: Não tem uma estipulada. Existem equipamentos de performance e equipamentos de saída de escola para quem está começando. Então, quem vai limitar isso é o próprio piloto. Ou, no caso, quando você ainda é aluno, o seu instrutor. Tem um acompanhamento através do rádio. Ele vai te dando as instruções e vai te encaminhando nisso.
Tribuna: Tem outros pontos já consolidados na região que vocês costumam ir?
Nilton: O principal seria em Leopoldina, onde duas semanas atrás ocorreu lá uma etapa do Campeonato Carioca e do Mineiro conjunto, onde teve 141 pilotos. Desses, dez mulheres. Elas estão entrando agora no mercado. Então tem Leopoldina, Astolfo Dutra, que nós fomos no final de semana passado. Teve evento. Mercês. As prefeituras da região têm buscado muito a gente. Tem uma exposição lá, traz o pessoal do voo livre para fazer uma festa maior. Então procura a associação e a gente leva cinco, dez pilotos para poder fazer isso aqui. Mas a mais falada aqui no caso seria Leopoldina, que é um lugar que deu para fazer uma etapa do Mineiro e Carioca. Foi um evento fenomenal.
Tribuna: Como é que você começou com essa ideia lá atrás e o que você acha que falta ainda para que mais pessoas conheçam e tenham interesse de praticar pela primeira vez?
Nilton: Uma das principais causas seria essa distância. Não estar envolvido num centro urbano. Então acaba conhecendo, “um amigo meu faz isso”. Ou você vai no Rio de Janeiro, onde é bem mais amplo, que pega ali a região da Gávea. É muito mais visível. O mundo vem voar no Rio de Janeiro. Na nossa cidade aqui, o que pega mais nessa divulgação é o que nós estamos fazendo hoje aqui. A Associação em si procurando também os meios de comunicação para poder promover esse esporte. E a autorização dos proprietários, porque aqui em Juiz de Fora e na região tem muita propriedade particular.
Tribuna: Para quem tem interesse em começar, quais as maneiras que você sugere para que ela tenha um início no voo livre?
Nilton: Hoje tem a Associação, que seria com essa divulgação. Tem o site, o Instagram. E através de comunicação. Eu falo para o meu parente, meu parente fala para um amigo. Mas se o interesse da pessoa aparecer existem bons instrutores aqui em Juiz de Fora que vão te dar toda a cobertura para você iniciar o parapente.
Tribuna: E o recomendado é a partir de 18 anos?
Nilton: Exatamente, porque para voar de parapente, existem equipamentos, o seu peso influencia. Então, com 18 anos a pessoa não precisa da autorização dos pais. Logicamente que hoje, para fazer um voo duplo, você tem que ter um seguro. Tem que ter uma pessoa especializada. A Anac pede isso hoje. Você faz uma prova da Anac para ter pelo menos a noção do que você está fazendo aí.
Tribuna: E para quem se interessar, quais são os valores envolvidos?
Nilton: Isso depende muito. Hoje, na nossa cidade aqui, acho que um voo livre custa em torno de R$ 300, R$ 350. Aí tem o translado, que a pessoa combina com o piloto que vai fazer o voo livre para você. E depende da localidade. Como eu falei, a gente tem a Rampa do Caeté, do Microondas, e uma rampa bem segura, onde nós vamos fazer o evento, que é em Machados, que é uma rampa muito boa.
Tribuna: Como fazer para estar lá no sábado?
Nilton: O nosso evento vai ser em Machados. É um distrito ali que fica entre Bicas e São João Nepomuceno. Tem vários caminhos. Para quem está saindo aqui de Juiz de Fora, pode passar por Grama, Filgueira, Chácara, pega ali uns 15 quilômetros de estrada de chão e você vai chegar na rampa. Da rampa até o pouso, que é em Machados, dá uns 5 quilômetros, que é uma descida, uma serra lá. E pode também passar por Bicas, que é mais asfalto e tem um pedaço de 3 a 4 quilômetros de estrada de chão, mas as estradas estão melhores que o nosso asfalto aqui de Juiz de Fora. Então o acesso é só entrar mesmo no nosso Instagram (@voolivreavljf.oficial) ou no link da nossa associação (voolivreavljf.wixsite.com/avljf). O acesso é muito tranquilo e pode chegar quem quiser ir só para curtir. Como vai ter voo duplo lá, combina na hora lá os valores para poder fazer um voo, conhecer mesmo o voo livre.
Tribuna: Quantos voos você tem até hoje?
Nilton: Existe um site, que a Confederação Brasileira de Voo Livre libera para os pilotos, onde você faz os seus voos. Existe um computadorzinho, até mesmo o seu celular dá para fazer isso. Então você baixa um aplicativo, eu uso hoje o Track. Então você joga nessa plataforma, da CBVL. Ali tem a sua carteira de voos. Altitude, quantos voos você fez. Para te falar sinceramente, eu não sei quantas decolagens. São muitas. Não tenho essa computação. E eu também não sou muito de lançar voos. Mas as pessoas que competem ou têm o prazer de competir, lançam todos esses voos nesse site. E aí é onde você consegue, através de um login, acessar todos os tipos de voos. Mas quando você está no início fazendo a escolinha, por exemplo, todos os voos que você faz ali de montanhas baixas, montanhas altas, vão sendo computados. Para você também poder ter um nível. Que a associação decreta lá o nível. Nível 1, nível 2, nível 3. Aí depende da quantidade de horas de voo. Não define muito por decolagem, não. É mais por hora de voo e quilometragem, isso aí já é particular.

