A jovem ginasta juiz-forana Júlia Hellen, de 9 anos, e sua mãe, Monique Rodrigues, foram as entrevistadas desta quarta-feira (14) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna. Atleta da Hyber Ginástica Artística, Júlia se prepara para disputar o Torneio Mineiro, em Uberlândia, e o Torneio Brasileiro, em Maceió, ao lado de outras atletas da equipe.
Durante a conversa, mãe e filha falaram sobre a rotina de treinos de Júlia, que dedica três horas diárias à ginástica artística, e o sonho da menina de conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, inspirada por Rebeca Andrade. Monique também abordou as dificuldades financeiras para manter a filha no esporte e a mobilização das famílias para arrecadar cerca de R$ 80 mil, destinados às despesas de transporte aéreo, hospedagem e alimentação das 17 atletas na viagem a Maceió. As entrevistadas ainda comentaram a falta de investimento na modalidade em Juiz de Fora, a importância da ginástica na formação das crianças e os desafios de conciliar os treinos com a escola.
Confira a entrevista, na íntegra:
Tribuna de Minas: A Júlia tem apenas 9 anos e já vai participar do Torneio Mineiro, em Uberlândia, e do Torneio Brasileiro, em Maceió, no final de novembro. A mãe dela é a Monique. Primeiro, queria que você se apresentasse, falasse um pouco sobre quem é a Monique, de que bairro vocês são, e como surgiu a ideia de colocar a Júlia na ginástica, além desse sonho de ela se tornar uma ginasta profissional.
Monique Rodrigues: Nós moramos no Bairro Vila Esperança I, na Zona Norte de Juiz de Fora. A Júlia treina há mais ou menos dois anos na Hyber, aqui em Juiz de Fora, que fica localizada no Mariano Procópio, na Zona Leste. A equipe dela vai para esses dois torneios e a gente está nessa expectativa.
Tribuna: E você, Júlia, como decidiu ir para a ginástica? Conversou com sua mãe? Como surgiu essa ideia?
Júlia Hellen: Quando eu era pequena, minha mãe viu que eu tinha esse dom. Aí minha avó tomou a frente e falou: “Vamos colocar ela na ginástica”. Desde então, minha avó me levou para a ginástica, comecei a treinar e agora sou do alto rendimento.
Tribuna: Por que sua avó percebeu esse dom?
Júlia: Porque minha mãe me virava de cabeça para baixo, eu fazia cambalhota…
Monique: Sempre foi flexível, né, Júlia?
Júlia: Sempre fui flexível.
Tribuna: Tem alguma ginasta de quem você gosta muito, Júlia? Alguém que você vê e pensa que quer ser parecida com ela?
Júlia: Sim. A Rebeca Andrade.
Tribuna: Por quê?
Júlia: Porque lá na minha rua tem um moço que me chama de Rebeca Andrade. E ela é legal.
Tribuna: Conheci vocês quando a Daniele Hypolito veio a Juiz de Fora para uma palestra na Estácio. A Júlia estava muito feliz de assistir. É mais uma referência, assim como a Rebeca Andrade. Temos muitas brasileiras e brasileiros, como o próprio Diego Hypolito. Mas a ginástica ainda precisa ser mais difundida, inclusive aqui em Juiz de Fora. Como você avalia esse cenário na cidade, Monique? Temos a Hyber, o Clube Bom Pastor, mas você acha que poderia aumentar? Houve crescimento desde que a Júlia começou?
Monique: Pelo que a gente vê nos torneios, tem crescido, sim, o número de escolas. Mas, com esse potencial, a Hyber está iniciando tudo isso aqui em Juiz de Fora. E realmente a gente não tem muito suporte para dar as mãos e ir todo mundo junto. O esporte atravessa fronteiras, abre portas. Se der certo, ótimo, mas, se não der também, não deixa de dar certo em relação à disciplina que a criança desenvolve. Falta muito investimento.
Tribuna: Para disputar esses torneios, o Mineiro, em Uberlândia, e o Brasileiro, em novembro, vocês estão fazendo uma vaquinha. Como surgiu essa ideia? Quanto precisam arrecadar? Quantas meninas vão participar e como as pessoas podem ajudar?
Monique: A ideia surgiu quando a gente reuniu os pais, porque temos que custear tudo. Pensamos em montar uma vaquinha que vai ajudar muito, porque tem transporte aéreo, hospedagem e alimentação. Além disso, a escola também é paga, tem as mensalidades das meninas. Custear tudo isso pesa e nem todo mundo tem a mesma realidade. Como não temos nenhum patrocínio ou ajuda, a ideia é conseguir esse valor com as meninas. Estamos pensando em torno de R$ 80 mil para custear as passagens aéreas, a hospedagem e a alimentação delas em Maceió.
Tribuna: São quantas meninas?
Monique: São 17 meninas e quatro dias de evento.
Tribuna: São 17 atletas mirins de Juiz de Fora representando a cidade no Torneio Mineiro e, depois, no Torneio Brasileiro. Como as pessoas podem contribuir com essa vaquinha? Onde vão encontrar o link?
Monique: Vamos começar a divulgar provavelmente hoje, assim que sair essa matéria. Vamos colocar todo mundo no Instagram para as atletas divulgarem tudo direitinho, inclusive no perfil da Hyber. Vamos publicar tudo lá para começar. O Instagram é Hyber Ginástica Artística. É só seguir e acompanhar que o link vai sair para poder ajudar essas meninas.
Tribuna: Também vamos colocar o link na matéria do site da Tribuna de Minas. Monique, achei interessante você falar da disciplina que percebeu na sua filha. A ginástica artística está presente nos Jogos Olímpicos desde a primeira edição, em 1896. É um esporte que trabalha força, agilidade e flexibilidade. Como vocês perceberam, no dia a dia, a evolução física e mental da Júlia? Como isso foi desenvolvido?
Monique: Isso é muito cobrado das meninas na questão da disciplina. Como elas já praticam esporte, precisam aprender a ter responsabilidade, inclusive para cuidar do próprio cabelo e se organizar. Elas treinam todos os dias, porque já estão no alto rendimento. A Júlia treina três horas por dia. Em relação à força, a gente percebe a mudança no corpo, obviamente, e também no equilíbrio, que é algo muito trabalhado. Temos sentido essa disciplina na Júlia porque ela já sabe que tem que acordar. Não precisamos mais ficar falando: “Júlia, você tem que se arrumar”. Ela já sabe que o telefone vai despertar e que precisa se arrumar. Não existe mais essa cobrança. Também é algo de que ela gosta muito.
Tribuna: Júlia, como é lá na Hyber? Você tem várias amigas? O que vocês gostam de fazer juntas?
Júlia: Eu tenho várias amigas lá. A gente conversa.
Monique: E algo muito bonito é que elas se apoiam demais. Isso é muito bonito no esporte delas.
Tribuna: Você falou que a Júlia treina três horas todos os dias. É de segunda a sexta-feira?
Monique: De segunda a sexta-feira, três horas por dia.
Tribuna: É bastante dedicação. Os treinos são de manhã?
Monique: De manhã. A Júlia acorda às 6h, todos os dias, de segunda a sexta-feira.
Tribuna: E de onde vocês moram até o Mariano Procópio, quanto tempo levam no transporte?
Monique: Uns 30 minutos.
Tribuna: Então são mais de quatro horas dedicadas à ginástica, considerando o deslocamento e os treinos. É um investimento que vocês duas estão fazendo. Você já enxerga um caminho para sua filha nesse esporte?
Monique: Exatamente. É isso que a gente fala com ela: “Júlia, é um investimento, então precisamos que você tenha essa dedicação”. Mas, se for algo que ela não queira, também não vamos levar tão a sério assim, porque demanda muito tempo e um esforço muito grande dela. É cansativo, porque ela sai do treino e vai direto para a escola. Então a criança também precisa gostar muito.
Tribuna: Falando do Torneio Mineiro, que vai acontecer em Uberlândia, a Hyber vai com 17 atletas. Como funciona uma competição de ginástica artística na categoria mirim? Existem diferenças em relação às competições dos adultos? Quais são os aparelhos em que a Júlia vai competir? Tem algum em que ela se destaca ou encontra mais dificuldade?
Monique: Tem diferença, sim. Os movimentos que as meninas executam são diferentes. No nível mais alto, que já é o adulto, são movimentos mais difíceis. Para as meninas como a Júlia, que é da categoria pré-infantil, são movimentos mais adaptados a elas. Mas elas fazem todos os aparelhos. Para falar exatamente quais são, a Júlia é melhor do que eu.
Tribuna: Quais são os aparelhos, Júlia?
Júlia: Trave, barra, solo e mesa.
Tribuna: E de qual você gosta mais?
Júlia: Trave.
Tribuna: Por quê?
Júlia: Porque eu me dedico mais nela.
Tribuna: Para quem não conhece muito bem a ginástica, você consegue explicar como é a trave?
Monique: É algo de equilíbrio. Precisa de muito foco e força também para conseguir se sustentar ali.
Tribuna: E o solo, Júlia? Você gosta? Faz muitas acrobacias?
Júlia: Gosto bastante.
Tribuna: Tem alguma acrobacia de que você gosta mais?
Júlia: Rondada-flic. Tem vários jeitos. Tem rondada para flic, rondada-flic-mortal, rondada-flic. A gente ainda está aprendendo e esse elemento precisa de muita força para fazer.
Tribuna: E como é o movimento? Consegue explicar para quem não conhece?
Júlia: É como se fosse uma estrelinha, só que com mais força.
Tribuna: Você vai disputar uma competição longe de casa, em Uberlândia, e depois outra em Maceió. O que espera viver nessas competições?
Júlia: Estou esperando o objetivo, o foco e estou muito ansiosa também.
Tribuna: E, pensando no futuro, daqui a dez ou 20 anos, quando você for adulta, onde quer estar? O que quer ter conquistado?
Júlia: Quero ter ganhado medalha de ouro das Olimpíadas.
Tribuna: Quando a Daniele Hypolito veio a Juiz de Fora, você contou que acompanhava vídeos dela pelo TikTok, porque não teve a oportunidade de vê-la competir ao vivo. Você também vê vídeos de outras ginastas de gerações anteriores, como a Daiane dos Santos?
Júlia: Acompanho.
Monique: Fica o dia inteiro.
Tribuna: Monique, quando a filha ama um esporte e tem toda uma rotina voltada para ele, a mãe também acaba entrando nesse universo. Como é acompanhar os torneios, apoiar, ajudar e investir na carreira esportiva da Júlia? Você já tinha contato com a ginástica antes ou começou a conhecer a modalidade por causa dela?
Monique: Esse contato veio depois da Júlia. Eu nunca tive contato com a ginástica e estou aprendendo agora, porque o negócio está ficando mais sério. Estou começando a aprender e saber mais, porque, até então, a gente fica muito perdida. São muitas coisas, até detalhes pequenos, mas estou aprendendo para a gente evoluir junto. Desejo muito que a Júlia cresça nessa área. Estou sempre torcendo, sempre à frente para que tudo dê certo. E quero deixar claro que não quero isso só para a Júlia. Quero para todas as meninas. Esse é o meu objetivo, porque sabemos que nem todo mundo tem a mesma realidade e queremos conseguir isso para todas.
Tribuna: Imagino que, com tantas atletas, também exista uma amizade entre as mães, que vão compartilhando os momentos e as dificuldades. Vocês acabam formando uma grande família?
Monique: Vira uma grande família. Vou viver isso agora, indo para Uberlândia, porque vamos de ônibus e acredito que essa aproximação vai ser maior. Até então, o contato é muito pelo telefone. A Júlia treina de manhã, quando são poucas meninas. Das que treinam com ela, praticamente só ela e mais uma vão participar. As meninas maiores eu não conheço muito, mas as mães já estão interagindo. Vou viver isso agora e já estou amando essa experiência.
Tribuna: Você imaginava viver tudo isso quando a Júlia nasceu? Já pensava em colocá-la em algum esporte? Você praticou esporte quando era mais jovem? Imaginava que poderia viajar e conhecer outros lugares do Brasil por causa da ginástica da sua filha?
Monique: Nunca imaginei. É um sonho que, às vezes, até me emociona quando penso, porque é algo que estamos buscando e que nunca tivemos na nossa família. É uma mudança de tudo para a nossa família. É maravilhoso, sabe? Deus acima de tudo. Quando a Júlia era muito pequena, ela nasceu mais ou menos no período das Olimpíadas, e lembro que vi aquelas meninas. Algo no meu inconsciente desejou ou pensou que minha filha seria aquilo. É loucura, né? E hoje estamos vivendo isso. Vou aproveitar o máximo que puder dessa experiência, porque é algo extraordinário.
Tribuna: Júlia, você contou que começou fazendo cambalhotas antes de entrar na escola de ginástica. Como se sente quando aprende um movimento novo e consegue fazer algo que ainda não sabia?
Júlia: Alegre!
Tribuna: Vocês trouxeram duas medalhas. Monique, de quais competições são?
Monique: Essas são de participação mesmo, da escolinha dela. A Hyber também faz torneios e convida outras escolas. Essas são medalhas de participação. A Júlia ainda não trouxe nenhuma medalha de premiação de torneio, porque está começando agora a participar dessas competições.
Tribuna: Júlia, como é seu contato com as meninas mais velhas, de 15 ou 16 anos, que participam das competições? Como é a amizade entre vocês?
Júlia: Eu não conheço muitas meninas grandes assim.
Tribuna: Você está no último ano de qual categoria?
Monique: Pré-infantil.
Tribuna: No ano que vem você já estará em outra categoria, com meninas mais velhas. Qual é sua expectativa para essa mudança?
Júlia: Minha expectativa está lá em cima.
Tribuna: E falando um pouco sobre sua treinadora, Júlia, qual é o nome dela?
Júlia: Karina.
Tribuna: Como ela é com você? O que você acha dela?
Júlia: Ela é legal. Ensina várias coisas para a gente.
Tribuna: Monique, como é o contato com a Karina? Sabemos que a orientação profissional é fundamental na ginástica artística, principalmente pelo risco de lesões. Como é o cuidado dela com a Júlia?
Monique: Na verdade, são três treinadoras que a Júlia tem durante a semana. Mas a tia Ká é a principal, porque dá aula na segunda, quarta e sexta-feira. Então o contato maior é com ela. Sempre que acontece alguma coisa, quando a Júlia torce alguma parte do corpo, por exemplo, elas dão apoio, colocam gelo e conversam com a gente. É muito bacana esse contato. Sempre dão feedback, explicam quando ela não está conseguindo fazer determinado movimento e mostram o quanto está melhorando. Depois da última competição de que a Júlia participou, conversei com ela sobre o quanto a Júlia evoluiu e sobre o que ainda poderia melhorar. Ela está sempre pronta para acolher e responder com clareza, para que a gente também consiga entender um pouco mais.
Tribuna: Você falou sobre algumas lesões leves. Felizmente, nada mais grave até agora, mas sabemos que a ginástica, como qualquer esporte, apresenta riscos. Você sente medo ou fica preocupada quando a Júlia vai treinar?
Monique: Dá medo, sim, porque é um esporte que exige muita força e a criança se dobra demais. A Júlia sente muitas dores. Depois que comecei a pesquisar, vi que isso acontece na ginástica, que as meninas sentem mesmo. Mas, às vezes, dá um medo. A gente fala: “Júlia, vamos colocar gelo, vamos fazer o que tem que fazer”. E vamos nos ajeitando.
Tribuna: Vocês fazem algum tratamento específico para essas dores?
Monique: No momento, fazemos o tradicional mesmo. Colocamos gelo no local e depois passa. Não são dores que ficam muitos dias.
Tribuna: Júlia, você treina das 8h às 11h e a escola começa que horas?
Júlia: Às 13h e vai até às 17h15.
Tribuna: É uma rotina cansativa. Você está conseguindo conciliar os treinos com os estudos?
Júlia: Estou.
Tribuna: Está tirando notas boas?
Júlia: Sim.
Tribuna: Estou vendo a camisa que você está usando, Júlia. É um uniforme de ginástica? Quantas camisas dessas você tem?
Júlia: Tenho quatro. Vermelha, azul, uma azul de frio e uma azul com vermelho e branco.
Tribuna: Monique, queria que você deixasse um recado final, reforçando as informações sobre os torneios, as expectativas, a quantidade de meninas que vão participar e a vaquinha para ajudar nas despesas.
Monique: O Torneio Mineiro já vai ser na semana que vem. Depois temos o Torneio Brasileiro, que vai ser em Maceió. Pedimos a vocês que nos ajudem nessa vaquinha, porque vamos sonhar juntos e ajudar várias meninas a acreditar no próprio sonho, que tudo é possível. É isso que tenho para falar com vocês.
Tribuna: O torneio em Maceió será de 16 a 22 de novembro. Então quem quiser colaborar tem cerca de um mês, mas esse tempo passa rápido, principalmente porque o valor necessário é alto.
Monique: Exatamente. Quero aproveitar a oportunidade de estar aqui para que as grandes empresas possam olhar para as meninas e ver como conseguem ajudar e incentivar essas atletas.
Tribuna: E também o próprio poder público, investindo na base do esporte.
Monique: Exatamente. Quero aproveitar esse momento de visibilidade para pedir que olhem para as meninas e para a ginástica de Juiz de Fora.
Tribuna: Júlia, para as pessoas que estão ouvindo o programa e acompanhando sua história, qual recado você gostaria de deixar?
Júlia: Nunca desista dos seus sonhos. Segue em frente e continue.

