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Um romance que fala de preconceito, racismo, coragem e sororidade feminina

Por Marisa Loures

17/11/2020 às 09h55 - Atualizada 17/11/2020 às 17h21

A escritora brasiliense Juliana Valentim estreia no gênero romance com “O abrigo de Kulê”, livro que retrata o trabalho escravo na década de 40 – Foto Divulgação

Na semana em que celebramos o Dia da Consciência Negra (20 de novembro), apresento a escritora e jornalista brasiliense Juliana Valentim, que trabalha no lançamento de “O abrigo de kulê” (All Print Editora, 204 páginas). Ambientado em Minas Gerais, o livro retrata a escravidão nos anos 1940, permitindo abrir uma importante discussão sobre temas, como preconceito e racismo, além de falar de amor, coragem e sororidade feminina. “O preconceito, em todas as suas formas, é um tema que precisa ser abordado. A história do livro acontece nos anos 40, mas o assunto não poderia ser mais atual. A literatura tem um papel fundamental para o fortalecimento do consciente coletivo. A arte, de uma forma geral, é transformadora. Estamos em um momento importante, há vários movimentos ativos, muita gente com muito a dizer. E nós, artistas, temos o papel de amplificar essas vozes até que sejam ouvidas”, enfatiza a autora.

A obra traz a história de uma moça apaixonada pelos livros e que sonha em ver o mundo. O nome dela é Maria. Ela encontra um caixeiro viajante vendedor de brinquedos e contador de histórias chamado Gabriel. Na inocência da juventude, eles não sabiam que o destino tem seus caprichos, desconheciam o fato de que o bem mais precioso é a liberdade. “Busquei personagens fortes, mas ao mesmo tempo muito cativantes. A história começa com um romance entre Gabriel e Maria, dois jovens cheios de sonhos. No entanto, eles não são os únicos protagonistas. Temos também a bailarina Nina, e Kulê, personagem que dá nome à trama. Kulê é uma moça negra que nasceu escravizada em uma fazenda no interior do Brasil. A busca incondicional pela liberdade é o elo entre todos eles.”

“O abrigo de Kulê” é a estreia de Juliana no gênero romance, mas ela é autora de outros dois livros já publicados. Um de crônicas, intitulado “Manuscritos de um viajante” (2007), e um de poesia, “Palavras que dançam” (2014). Aliás, @palavrasquedancam é o perfil que Juliana gerencia no Instagram, onde cerca de 40 mil seguidores acompanham os textos curtos que ela escreve e posta diariamente. A autora também escreve em www.palavrasquedancam.com.br.

Juliana, você tem formação em jornalismo e é escritora “porque a paixão pelas palavras é o que faz sua alma vibrar”. De que forma você se descobriu escritora? Quais são suas leituras e com quais escritores você dialoga?

Trago em mim uma grande paixão pelas palavras, desde criança. Algo que nasceu antes mesmo que eu aprendesse a escrever. Lembro-me de como minha imaginação voava quando meu pai lia para mim na infância. Aos 10 anos, ganhei uma máquina de escrever da minha mãe. E nunca abandonei a escrita, que fui aprimorando e profissionalizando. Muitos escritores caminharam comigo ao longo dos anos. Entre os favoritos estão Clarice Lispector, pela intensidade, Rubem Alves, pela delicadeza, Luis Fernando Verissimo, pela escrita criativa, e Cora Coralina, pela força da mulher brasileira.

Como nasceu “O abrigo de Kulê”? Quais foram suas motivações? Por que essa história nasceu em forma de um romance? E, para escrevê-la, foi preciso fazer muita pesquisa? Ou tudo ali é pura ficção?

Eu sentia que estava na hora de transitar pelo gênero literário do romance. Eu queria desafiar a mim mesma, produzir uma obra com narrativa mais longa, sair da zona de conforto. Além disso, tinha um grande desejo de abordar temas importantes e atemporais como questões raciais e sororidade, essa solidariedade feminina que cresce em tempos desafiadores. Foi assim que nasceu este romance. Apesar de estarmos falando de uma ficção, uma parte da ambientação e do cenário de época veio de pesquisa. A outra parte, e certamente a mais importante, veio das coisas que sempre ouvi, contadas pela minha vó Vila, que nasceu em 1928. Ela é uma fonte linda e inesgotável de histórias daquela época.

E como foi a experiência de escrever uma narrativa longa?

A narrativa longa pede uma atenção diferente, pois o fio condutor da história precisa estar bem amarrado, com todas as pontas em seu devido lugar. Qualquer elemento que entra na trama pede um papel bem definido, um começo, meio e fim. É diferente da poesia, que permite que as palavras fluam mais livremente. E também diferente da crônica, que possui enredo mais curto e acaba sendo mais fácil prender o leitor. Eu diria que o romance requer uma criatividade mais consciente.

Por que Minas Gerais é tão importante para a sua história? Você tem alguma relação pessoal com nosso estado?

Minas Gerais está no imaginário dos brasileiros, não só pela história, mas pela gastronomia e pela beleza das suas cidades do interior. Embora o romance se passe nos anos 40, é possível sentir ainda hoje o ar nostálgico desses vilarejos mineiros onde os velhos espiam pelas janelas com seus olhos cheios de memórias, onde as crianças brincam pelas ruas, com seus pés nus, e as meninas se enfeitam para ver a festa na praça. Sou brasiliense, mas Minas Gerais sempre esteve no meu coração. E não havia outro cenário que me encantasse mais para dar vida aos personagens.

 “Palavras que dançam” é um site, mas também é um perfil no Instagram, com cerca de 40 mil seguidores. Lá você também posta textos curtos diariamente. Muitas editoras apostam em autores que publicam nas redes sociais, querendo atrair os leitores que já os seguem por lá. No seu caso, você acredita que o seu leitor da rede social é o leitor dos seus livros? O que a experiência de gerenciar um perfil literário na internet traz para você como escritora?

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Eu acredito que a Internet, quando bem utilizada, é uma ferramenta incrível para a divulgação de trabalhos artísticos. Uma das coisas que mais me alegra é escrever um texto e ver como ele chega às pessoas. E sentir como se derrama de volta para mim. Sou eu em cada palavra, chegando a casas e corações que jamais chegaria, não fosse pela força das redes sociais. O perfil @palavrasquedancam nasceu inspirado em meu livro de poesias, que tem o mesmo nome, e tem crescido muito. Pelo Instagram, recebo mensagens, converso com o público, sinto a receptividade do que escrevo e aprendo muito. Com o “Abrigo de Kulê”, o retorno tem sido maravilhoso.

A ideia inicial era que “O abrigo de Kulê” fosse lançado na Bienal do Livro de São Paulo, mas a pandemia de Covid-19 fez com que os planos mudassem. O evento literário, como uma bienal, proporciona não só a divulgação da obra, mas também o encontro entre o autor e os leitores. Quais outras estratégias você e a editora planejaram para o lançamento desse livro? Como ter essa proximidade com os leitores mesmo nesse momento de pandemia?

A Bienal do Livro de São Paulo é muito especial para leitores e escritores. É um momento de troca intensa e também de comercialização de livros. A pandemia trouxe a necessidade de reinvenção, de adaptação dos planos e sonhos. Comigo não foi diferente, decidi trabalhar inicialmente com um lançamento online e com toda a divulgação online. Sinto que as pessoas estão mais conectadas nesse momento, e isso faz com que seja natural essa proximidade virtual. Mas, assim que tudo isso passar, pretendo estar nas feiras e bienais. Quero olhar nos olhos do meu leitor.

Como é a cena literária de Brasília?

Brasília possui uma cena cultural muito rica. É uma cidade que viu nascer grandes artistas da música, do cinema, das artes plásticas. Na literatura, também é assim. Temos diversos eventos e saraus que permitem um intercâmbio muito gostoso entre escritores e leitores. E ainda há muito espaço para crescer.

Gostaria de saber quais são seus projetos literários e onde seus livros são vendidos.

Tem muita novidade vindo por aí! A primeira delas é que “O abrigo de Kulê”, cujo livro físico está à venda pelo site da Amazon, ganhará uma edição digital, um e-book. Outra notícia quentinha é que meus poemas vão inspirar uma linda coleção de quadros decorativos que estará disponível em breve. Há também a Kombi Coralina, uma Kombi literária batizada em homenagem à nossa querida Cora Coralina, que deverá estar nas ruas em breve, assim que vencermos esse momento delicado de pandemia. E estou trabalhando na preparação de um workshop sobre escrita criativa. Vou contando tudo no perfil @palavrasquedancam no Instagram. Vejo vocês por lá!

Sala de Leitura – Toda sexta-feira, às 11h35, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,30)

“O abrigo de kulê”

Autora: Juliana Valentim

Editora: All Print (204 páginas)

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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