Tópicos em alta: delivery jf / coronavírus / vacina / tribuna 40 anos / polícia / obituário

Bicharada protagoniza coleção de livros infantis

Por Marisa Loures

16/03/2021 às 09h03 - Atualizada 16/03/2021 às 10h27

Carolina Simões investe na sonoridade das palavras ao criar a “Bichorelê”, coleção que tem o propósito de ser uma aliada no período de letramento e da alfabetização das crianças – Foto: Arquivo Pessoal

A educadora e contadora de histórias Carolina Simões estava em casa cumprindo o distanciamento social. Era o início da pandemia. E aí veio a necessidade de criar, extravasar as ideias, escrever algo que chegasse até as crianças e seus familiares levando alegria e conforto. Voltou no tempo. Lembrou que, aos 20 anos, havia idealizado uma história de um gato “um tanto beleléu” e resolveu investir nela. Modificou uma coisa aqui, outra ali, e pronto. Nasceu o primeiro livro de uma coleção intitulada “Bichorelê”. Recém lançada, a série é composta, inicialmente, por seis livros – “O gato”, “O rato”, “O marreco”, “A borboleta”, “A cegonha” e “A ovelha” – e tem o objetivo de ser uma aliada no período de letramento e alfabetização dos pequenos.

Carolina conta que ela e a ilustradora Márcia Evaristo já colocaram os três primeiros títulos nas mãos da criançada e avisa que os outros três já estão prontos, à espera de ir para a gráfica. “Inseri como personagem o meu querido netinho que havia acabado de nascer, e, por coincidência, sua mãe tem uma gata que passeia pela casa com total sutileza. Gostei tanto de ter escrito a história do gato que logo veio à mente a história do rato. Cada obra enfatiza um personagem principal, com características próprias, que interage, primorosamente, com outros personagens e que tem a possibilidade de visitar as outras histórias”, comenta Carolina, destacando que a coleção foi pensada como forma de criar uma expectativa nos leitores para os demais livros.

E o processo de produção dessa dupla é o seguinte: enquanto uma dedicava-se à escrita, a outra abusava das cores e ia dando vida aos personagens. “Com textos singelos e impactantes e ilustrações expressivas com estampas harmoniosas, as histórias se caracterizam por serem curtinhas, com enredos surpreendentes, atiçando um movimento contínuo de interpretações, surpresas e emoções. Algumas palavras são rimadas, outras remetem o leitor ao vocabulário usado nas gerações passadas, fato este que desperta a curiosidade e o enriquecimento do vocabulário e gera um encantamento tanto no público adulto quanto no público infantil”, enfatiza a autora.

Carolina é proprietária da Arteria, espaço de arte e cultura, acumula mais de três décadas de experiência como educadora e também já é conhecida pelo público infantil pelo trabalho como contadora de histórias. Agora, celebra a estreia como escritora. Já Márcia é formada em psicologia e em design gráfico e, em 2013, fundou o Atelier Le Truc, onde se dedica às artes visuais. Confira a entrevista com a autora.

Marisa Loures – Já são mais de 30 anos de experiência como educadora e também muitos anos como contadora de histórias. Dessa forma, já tem intimidade com o público infantil. Mas, como autora de livros, essa é sua estreia, e essa estreia acontece com a publicação de livros para os pequenos. Como você se descobriu escritora? E o que é preciso para escrever para esse público?

Carolina Simões – Boa pergunta. Ao sentar tranquilamente em uma mesa com papéis e canetas, ressurgiu em minha mente o desejo adormecido de ser uma escritora, e, junto com ele, o fluir das palavras, que foram se harmonizando e compondo os textos. Sempre fui uma admiradora da literatura. Me fascina ver a criatividade das pessoas ao escrever, ao contar suas histórias. As histórias revelam interpretações do mundo, expressões, sentimentos, insights, infinitas possibilidades de descrições e de saberes. Para escrever para o público infantil, é preciso ter imaginação fértil, admirar e conhecer os interesses dos pequenos.

– Nos seis livros, você dialoga com as crianças por meio da sonoridade das palavras, as histórias são rimadas. É a melhor maneira de conquistar os pequenos que estão na fase de alfabetização?

Sim, na fase da alfabetização, torna-se essencial apresentar para as crianças histórias, textos, poesias e brincadeiras que as levam a perceber, naturalmente, as diferenças e semelhanças dos sons, tornando possível a assimilação diante da composição sonora das palavras. A ludicidade presente nas atividades de alfabetização e nas histórias encanta as crianças, facilitando, assim, o desenvolvimento das habilidades, a compreensão e o domínio de técnicas para exercer a arte e a ciência da escrita e da leitura.

– É uma coleção inteira centrada em torno da bicharada. Essa também é uma boa estratégia nessa fase de alfabetização?

Sim. Os animais despertam a curiosidade e a admiração por parte das crianças. Eles, muitas vezes, estão presentes nas histórias exercendo sentimentos e atitudes dos humanos, possibilitando transferências, ou melhor dizendo, um deslocamento de sentimentos inconscientes ou conscientes nas crianças diante do comportamento e das características dos personagens representados pelos bichos. O mundo animal é repleto de cores, comportamentos distintos, sons e belezas admiráveis.

Márcia Evaristo assina as ilustrações da coleção Bichorelê – Foto: Arquivo Pessoal

 

– Em cada livro, você termina deixando um gancho para as outras histórias. Conversa diretamente com a criança, convidando-a a conferir o que vem pela frente. Essa tática tem aguçado a curiosidade da criançada? Como tem sido a recepção das obras?

Essa foi uma grande sacada da ilustradora Márcia Evaristo, que tem duas filhas que supercurtem livros, e, devido à observação das atitudes comportamentais dos tempos de hoje, em que as interações inteligíveis acabam contribuindo para envolvimento maior das crianças com as obras literárias. Estamos realizando uma parceria bem construtiva, com abertura constante para o diálogo entre nós, entre os textos e as ilustrações. Adotamos essa ideia interativa para realizarmos um trabalho à altura dos pequenos e grandes leitores e, realmente, atiçar a curiosidade deles. A Coleção Bichorelê está sendo bem aceita, estamos recebendo muitos elogios, e, a cada dia, chegam mais mensagens querendo saber quando vamos lançar os livros “A borboleta”, “A cegonha” e “A ovelha”, já que eles estão prontos e só faltam ir para a gráfica para serem multiplicados.

O conteúdo continua após o anúncio

– Escuto de muitos pais que os filhos amavam ler quando pequenos,  encantavam – se  pelo  texto e pelo colorido das ilustrações, no entanto, quando cresceram, perderam o interesse pelos livros.  E aí temos o resultado da mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil: a quantidade de leitores no país caiu de 56% em 2015 para 52% em 2019. Por que as crianças vão perdendo o interesse pela leitura? Em que momento ocorre esse desinteresse? E o que família e escola podem fazer para reverter esse quadro?

Um dos pontos que penso que vem contribuindo para esse desinteresse é a permanência constante de celulares, tablets, computadores, mídias socias, entre outros aparelhos tecnológicos. No meu tempo de adolescência, na minha juventude, chique era ler um livro, andar com livros na mochila, conversar sobre os livros lidos, estar presente em eventos como varais de poesias, jornais escritos pela comunidade, entre outras interações com a literatura. Muitos livros eram lidos pelos membros da família, pais, tios, primos, vizinhos, colegas de escola. Hoje, é comum encontrarmos todos com seus celulares nas mãos.  Lógico que não esperamos voltar no tempo, mas podemos, sim, inserir os livros no contexto atual, com atitudes simples e constantes. Penso que as moradas, as escolas e os espaços públicos deveriam investir em ambientes descontraídos com livros à disposição dos jovens, gibis, jornais, crônicas, papel e caneta para eles escreverem versos, frases, histórias, expressarem suas ideias. Essas atitudes deveriam ser também vistas como uma forma livre de expressão. Lógico que com certa atenção aos conteúdos escritos, mas sem querer interferir demais com ordens e conselhos. Outro ponto seria transformar realidades percebidas, sem generalizar, é claro. Os autores deveriam escrever livros contendo assuntos de interesses dessa faixa etária, livros não tão extensos, com histórias envolventes, textos surpreendentes, contos, crônicas, com ilustrações vivas, talvez feitas por próprios adolescentes, ou ilustradores que percebam as cores, as formas valorizadas por esse público. Ainda hoje, alguns educadores insistem em oferecer para os adolescentes clássicos da língua portuguesa, que, a meu ver, são belos, mas para se ler quando se é mais maduro, ou quando já tiver alcançado um engajamento na prática de leitura. Quando se promove o letramento para o público infantil, muitos educadores investem nas atividades lúdicas, no teatro, nos trabalhos criativos para incentivar a leitura e o manuseio dos livros. No entanto, não vejo tanto essa prática junto aos adolescentes, aos adultos e aos idosos. Se as mídias sociais investissem na valorização dos livros, se passassem a inserir nos anúncios jovens, pessoas com livros nas mãos, assim como fazem com celulares, tênis, bolas, skates, mochilas, roupas, quem sabe os livros ascenderiam como um objeto de valor, ideal para ser consumido?

– No último título, “A ovelha”, entendo que você deixa um gancho para um próximo livro, porque é claro que a criançada vai querer saber aonde aquela bicharada a bordo do avião vai parar. A coleção Bichorelê pode continuar? 

Sim, você descobriu nosso segredo. As próximas histórias da Coleção Bichorelê já estão escritas, e os cenários escolhidos são biomas, lugares marcantes do território brasileiro. Os bichos continuarão a interagir e, certamente, vão encontrar com espécies distintas presentes na região onde ocorrem as histórias. Vão ser apresentados personagens culturais de cada região visitada. Realizamos os livros por conta própria, por isso não fica tão fácil lançar toda a coleção de uma só vez e dar continuidade à realização das próximas obras. Mas temos esperança de que dias melhores virão e assim poderemos ser contempladas com a ajuda de alguma empresa, algum edital de incentivo à literatura e à cultura, podendo, assim, espalhar nossas obras para muitos leitores, livrarias e bibliotecas.

– Na semana passada, você e Márcia Evaristo deram mais um passo com a Bichorelê, lançando um projeto que tem a finalidade de levar os livros da coleção até as crianças da comunidade Santa Cândida (Juiz de Fora) e de São José dos Lopes (distrito de Lima Duarte) e para a Biblioteca Tia Deca, na comunidade Quilombola Corujas (distrito de Dores do Paraibuna, em Santos Dumont). Como funciona esse projeto e como as pessoas podem colaborar?

O projeto tem a finalidade de levar os livros da Coleção Bichorelê para as comunidades citadas acima. Ele nasceu após recebermos um vídeo de uma menina leitora, linda, que mora na Comunidade de Santa Cândida.  Ela estava sentada próxima à biblioteca e contou a história “O gato” com uma desenvoltura de se admirar, e logo depois, ao entrarmos em contato com ela e com a idealizadora da Biblioteca, Adenilde Petrina, participante ativa do movimento Coletivo Vozes da Rua, tivemos a ideia de contemplar as bibliotecas, as crianças, com os livros. Entramos neste projeto arcando sozinhas com o custo da publicação dos primeiros livros da coleção, sendo assim, não temos como doar esses livros sem a ajuda de outras pessoas. Nestes dias, andei escutando palavras bem bonitas: “A força do coletivo é que nos mantém vivos, e fortes. Uma ideia se fortalece quando se torna acolhida por um coletivo de ideias, que, juntas, dialogam, atende o princípio fundamental para a sobrevivência de uma sociedade justa e saudável.” Para doar um livro, o valor do depósito é de R$ 22; dois livros, R$ 42; três livros,  R$ 60. Os interessados podem realizar transferência bancária, Pix ou, se preferirem, entrar em contato por direct nos instagrans @colecao.bichorele, @arteriafabricadecultura, @atelierletruc. A conta para depósito é  99892-7 – Agencia: 3165 – Instituição bancária Itaú.

– Os livros foram lançados durante a pandemia, em um momento em que o distanciamento social impede os lançamentos presenciais, o contato direto dos escritores com os leitores. Você também é proprietária da Arteria, um espaço de cultura. Como tem driblado esse distanciamento social e feito a cultura chegar até o seu público?

Realizando interações nas mídias sociais, como post, vídeos, lives, storys, sempre enfatizando o valor e a beleza da Arte e da Cultura e pontuando a necessidades desses dois elementos para confortar os brasileiros e toda a população mundial nestes dias de tanto sofrimento e tristeza.

Sala de Leitura – Toda sexta-feira, às 11h35, na Rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,30)

Coleção Bichorelê

Livros já lançados: “O gato”, “O rato e “O marreco”

Autora: Carolina Simões

Ilustradora: Márcia Evaristo

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia