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A estreia do jornalista Bruno Blecher na crônica literária

Por Marisa Loures

09/03/2021 às 08h00 - Atualizada 08/03/2021 às 21h21

Bruno Blecher acaba de lançar “Cidade de papelão”, livro em que ele apresenta para o leitor histórias saborosas, permeadas de sensibilidade e humor corrosivo – Foto Divulgação

Xico Sá comenta, no prefácio de “Cidade de papelão” (11Editora, 92 páginas), que conviveu mais de dez anos com o jornalista Bruno Blecher, 67 anos, sem saber que o colega de redação também seria um “bamba na crônica literária.”  Isso porque o jornalista paulista deixou bem guardado, por longos anos, seu amor incondicional pelo gênero praticado por nomes, como Rubem Braga, Fernando Sabino e Otto Lara Resende, monstros da literatura que Bruno acompanhou desde a adolescência. Ele ainda era um menino quando estragou a coleção completa das revistas Cruzeiro e Manchete de seu avô ao arrancar as páginas com os textos que os três escreviam.

Blecher é especializado em agronegócio e meio ambiente. Atuou como repórter de área no jornal O Estado de S. Paulo, foi editor de agronegócios da Folha de S. Paulo, editor da Guia Rural, da Editora Abril, e editor do site Agropauta, do Observatório da Imprensa. Também foi comentarista da CBN Brasil e, atualmente, é comentarista da CBN Campinas.  Guardou por décadas muitas histórias que agora estão reunidas em “Cidade de papelão”, sua estreia na literatura. São 35 textos, nos quais ele transforma a trivialidade do cotidiano em arte literária. Temos ali viagens que fez a trabalho, sua intolerância a barulhos de diversos tipos, entre britadeiras e liquidificadores, memórias do tempo em que sua mãe fazia o inesquecível bolo de cobertura de Chocolate do Padre com lascas de Diamante Negro e o amor à primeira vista por Jane Fonda, que se apresentou a ele exuberante, de cabelos compridos, na tela do cinema, entre tantas e tantas situações corriqueiras.

São Paulo, sua cidade natal, está no centro de narrativas como a que deu título ao livro. Nessa crônica, Blecher observa um acampamento de tendas de papelão erguidas por sem-teto e usuários de droga e, com tristeza, constata que “as ruas estão coalhadas de miséria”. Também há reflexão sobre os difíceis tempos de Covid-19 em “A noite do pandemônio”. O cronista usa seu humor ácido para fazer uma crítica à maneira como o governo está lidando com a pandemia no Brasil, incluindo o descaso com os mais velhos; faz menção ao gabinete do ódio e não esquece das intoleráveis fake news.

“Tudo é surpreendente. Os barulhos me incomodam que é uma coisa incrível. Por exemplo, neste momento em que converso com você, estou em Bertioga, na praia, e os únicos barulhos que ouço são de passarinho e de vento, o barulho das folhagens. Se eu estivesse em São Paulo, neste momento, teria barulho nas ruas, barulhos de carros, barulho de britadeira. E aí escrevo sobre barulhos, escrevo sobre a fila do supermercado. Acho que tudo é assunto, tudo dá história. É só uma maneira de contar”, assevera Blecher. Como um apaixonado pelos livros de papel, ele avisa a quem quiser adquirir “Cidade de papelão” que a única maneira é encomendando o exemplar físico diretamente com a 11 editora.

Marisa Loures – Como foi o processo de escrita de “Cidade de papelão”?  Ali temos uma declaração de amor a Jane Fonda, suas memórias de infância e muitos outros relatos do cotidiano. Como os temas que entraram para seu primeiro livro foram escolhidos?

Bruno Blecher – Esse livro foi saindo de uma forma espontânea. Talvez eu tivesse que ter escrito esse livro 30 anos antes. É incrível isso, né? Porque eu tinha todas essas historias mais ou menos na minha cabeça, mas ele só saiu já na minha fase de maturidade. Sempre quis ser escritor e acabei sendo jornalista. Até por uma covardia minha, eu achava que não seria um bom escritor, porque sempre fui muito rigoroso comigo mesmo. Acho que este é um requisito de todo mundo que escreve: ser rigoroso consigo mesmo. Essas crônicas foram saindo. Tem uma da Av. Paulista, tem várias de viagens que eu fiz. Praticamente, só tive que dar uma reeditada nelas. A cada vez que vou viajar, escrevo. Muitas delas estão no meu Facebook, e eu sempre gostei de crônica. Lembro que eu era um leitor assíduo do Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Otto Lara Resende. Adorava ler as crônicas do Otto Lara Resende na Folha de S.Paulo.

– E você disse que era para essas crônicas terem sido publicadas há 30 anos. Foi preciso fazer um exercício de memória para relembrar todas essas histórias? Ou o jornalista sempre esteve ali, anotando tudo ao longo da vida, esperando, um dia, o escritor pegar aquilo tudo e colocar no papel?

Boa pergunta. Na verdade, é o gravador do jornalista, mas isso aí está gravado na memória. Boa parte dessas crônicas faz parte do meu tempo de infância, outras têm a ver com os dias de hoje, e crônica é um negócio muito mais gostoso de ler. Lógico, todo mundo gosta de ler um bom romance, um bom livro de poesia, mas crônica é um gênero que todo mundo pega para ler e termina em duas horas. Essa é uma vantagem da crônica.

– Confesso que, quando li que você foi editor de agronegócio na Folha de S. Paulo, editor da Guia Rural, da Editora Abril, passou pela Revista Globo Rural, é especializado em agronegócio e meio ambiente, esperava um livro de crônicas com essa temática. E não é o que a gente tem ali. Temos ali muito lirismo, como aponta Chico Sá no prefácio, e encontro o olhar do jornalista. Quando o jornalista dá vez ao cronista? Ou os dois estão ali, sempre juntos?

Acho que sempre os dois conviveram lado a lado, porque, até nas minhas últimas reportagens, quando eu já era diretor de redação, já era editor, então eu podia escrever o que eu queria porque ninguém iria mudar, eu passei a ver que estava escrevendo mais literatura do que jornalismo mesmo. Minhas reportagens buscavam mais uma linguagem literária. E aí eu comecei a ver que a linguagem literária, o contar uma história, o narrar uma história, é o que o jornalista deve fazer. Não buscar um texto burocrático. Eu vejo muitos textos burocráticos no jornalismo hoje, textos amarrados, que não têm criatividade. Acho que o jornalista deve contar uma história como um cronista. O jornalista é um cronista, né? Deveria ser pelo menos.

– “Cidade de papelão” é o título de um dos seus contos e faz referência a São Paulo, sua cidade natal, onde os usuários de droga disputam espaço com os sem-teto nas calçadas para erguerem suas tendas de papelão, como você narra. Você relata estar de volta à cidade, onde as ruas estão coalhadas de miséria.  Por que quis esse título para o seu livro?

Na verdade, quem escolheu esse título para o livro foi a editora. Achei bacana, acho que ele resume bem o que é o Brasil hoje, né? E está piorando ainda mais. Eu escrevi essa crônica depois de ir ao um show num prédio antigo, dentro do Centro da cidade. Para ir lá, você tinha que atravessar uma parte onde ficava muita gente morando na rua, em casas de papelão. Hoje, acho que com essa situação toda que estamos vivendo, com a pandemia, com a falta de ação do governo, a situação está piorando ainda mais. Você vai ao supermercado e há cinco, seis pessoas pedindo dinheiro, pedindo até comida na porta do supermercado. É um país de papelão que está recebendo uma chuva de pedras, não tem uma mínima estrutura. Eu trabalhei muito tempo no Centro de São Paulo, em várias épocas. Trabalhei quando era muito jovem, quando eu já tinha quarentas e poucos anos. E, nesse dia, eu estava voltando ao centro da cidade depois de um bom tempo sem ir lá, e aí eu percebi que o Centro da cidade sempre piora. Isso é incrível, porque estamos na maior cidade do Hemisfério Sul e existe uma pobreza crônica que nunca acaba. Isso é triste demais.

– Na adolescência, você arrancava as páginas das revistas Cruzeiro e Manchete, do seu avô, para recortar as crônicas de nomes, como Rubem Braga. Certa vez, a Marcia Tiburi me disse que as condições sociais e políticas da época do Rubem Braga proporcionavam textos com mais mistérios. Os valores eram outros. Completou dizendo que, na nossa época dessensibilizada, é complicado fazer crônica. Como é escrever crônicas hoje? Quem é esse cronista de hoje?

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Você é muito provocado pelo mal, provocado a escrever coisas mais pesadas. Mas eu acho que tem que ficar ainda o cronista que escreve sobre a borboleta amarela, já que você citou Rubem Braga. A gente precisa desse lirismo da borboleta amarela. Acho que, hoje, eu gostaria de ler, nos jornais, mais crônicas sobre a borboleta amarela do que sobre a Covid-19. Estou falando de “A borboleta amarela”, porque foi uma das crônicas que mais me incentivaram a gostar de crônica. É uma crônica linda, não tinha nada, ele só seguia uma borboleta amarela pelas ruas. O Rubem Braga é um dos melhores cronistas. Talvez, o melhor cronista brasileiro.

– Mas será que é possível, neste momento, escrever, somente, sobre a borboleta amarela, deixar a política de lado, deixar os problemas de lado? É possível não se posicionar?

Não tem como não se posicionar, mas acho que a gente está chegando ao ponto em que a gente está escrevendo para nós mesmos. A gente está pregando para convertidos, principalmente, no Facebook. Você não consegue alcançar o lado de lá, vamos dizer assim, o lado dos bolsonaristas. Por exemplo, hoje li uma notícia que me chocou. O Fernando Henrique Cardoso admitindo que votou nulo na eleição entre Bolsonaro e Haddad. Isso me chocou profundamente. Nunca imaginava isso. Votando nulo, ele votou pró-Bolsonaro. E agora está dizendo que se arrependeu. Isso é um absurdo.

– Não posso deixar de comentar a sua última crônica: “A noite do pandemônio”. Ali, com um humor bem ácido, há uma crítica à maneira como o governo atual está tratando a pandemia no Brasil. Você fala sobre o descaso com os velhos, faz uma crítica ao gabinete do ódio, o disparo em massa de fake news. O Brasil tem rendido muito assunto para você?

Muito. Ainda mais com um presidente desse. Esse presidente merecia mais comédia, porque não dá mais para você ser sério. Uma pessoa que fala para as pessoas levantarem da cama, que estão fazendo mi mi mi com a pandemia. Pelo amor de Deus, né? Já chegou ao absurdo, e o absurdo dá boas crônicas. E essa do “pandemônio” foi o absurdo.

Sala de Leitura – sexta-feira, às 11h35, na rádio CBN Juiz de Fora (FM 91,30).

“Cidade de papelão”

Autor: Bruno Blecher

11 editora (92 páginas)

                             

 

 

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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