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Isso não é amor!

Por José Anísio Pitico da Silva, assistente social e gerontólogo

11/06/2021 às 07h00 - Atualizada 10/06/2021 às 20h59

Eu fui para a descoberta do mundo sem saber o que é o amor. Escrevo assim para dizer que não fui educado, desde pequeno, formalmente, segundo teorias externas, sobre o que é ter uma educação para o amor. Fazendo uma breve analogia do meu desenvolvimento pessoal, comparo-me, como se eu fosse uma árvore, que, de pequenininha, cresceu, foi crescendo, tornou-se adulta, deu frutos e sombra, mas por ser orgânica, ter vida e natureza próprias, não assimilou lições teóricas – filosóficas, psicológicas e sociais – sobre o seu crescimento e sobre a sua vida. Sobrevivi primeiro, para depois me formar como pessoa e cidadão.

Não tive uma configuração familiar que pudesse reparar em mim, o que estava acontecendo no meu ser, em progresso evolutivo: minhas dúvidas, inquietações e medos. O que deveria ser garantido, nesse período, é ter o que comer em casa. E não o que eu deveria ser, muito menos, ter os pais no apoio para o contato ou para a aproximação com o meu lado interior, de dentro. A necessidade material, de ter que dar comida aos filhos, fala mais alto do que qualquer leitura ou voz que venha de fora. É a máxima publicitária, aqui renovada, de que, quem tem fome, tem pressa.

Busquei a intimidade, reclamada desde pequeno, na intenção de me conhecer, com os recursos que eu tinha, começando dentro de casa, com a família no coração. O incentivo aos estudos me levou a ampliar o desejo de querer mais, de ser mais, de esticar a minha alma no futuro dos dias. Com pouca conversa entre os meus sobre as esperanças para a construção da minha vida, desejei Deus. A fé religiosa sempre esteve presente, mais expressa na fala da minha mãe do que na do meu pai, que era de pouco assunto sobre nós. Na verdade, a mãe foi a grande gestora da rotina familiar. Ela foi decisiva, foi muito forte na fixação da ideia de que os filhos tinham que estudar. E estudaram. A criação de um ambiente para a aproximação afetiva, o vínculo de cuidado e amoroso, ficou de tarefa para ser realizada mais tarde, na vida adulta. Foi o que eu fiz.

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Participei de movimentos de jovens, católicos, de finais de semana, em época de pré-vestibular, no reforço de construção da minha personalidade. Veio a faculdade, a preparação, o treino para atuar na sociedade. Em consonância com o lado de dentro, à busca de luz, estabeleci morada no trabalho social com pessoas idosas da cidade, o que me permitiu e permite o encontro para as minhas carências e necessidades emocionais daquele ambiente de falta, lá de trás.

Não tem sido fácil e confortável atuar na sociedade na defesa e promoção dos direitos das pessoas idosas. Vocês, caros leitores e leitoras, acompanham por aqui, na leitura semanal dessa coluna, os meus desabafos, comentários, críticas, sugestões e reflexões sobre esse período da nossa vida: o nosso envelhecimento. Minha expectativa é a de aumentar o número de pessoas e instituições envolvidas com a questão da longevidade, uma das nossas maiores conquistas do século XXI, tendo o entendimento que envelhecer pode ser e é uma possibilidade de vida muito interessante e positiva. E que para isso acontecer, penso que é necessário, o quanto antes, no tempo que for possível – mesmo que tudo possa ser diferente – planejar o nosso futuro. E a cidade precisa chegar junto a essa sua nova configuração, de que seremos mais velhos e teremos menos crianças.

Não é amor o que as pessoas idosas estão recebendo do país. Lamentavelmente, casos e mais casos de violência abreviam a vida dessas senhoras e senhores. Mais a pandemia, que nos tira do convívio de nossos amigos e amigas e familiares. Precisamos reagir. Resistir. Aqui, mais uma vez, repito essa escrita. Porque a violência e o ódio estão acabando com a gente. Uma outra sociabilidade é possível. Não tenho receitas. No micro-universo, e depois para o campo da Política Pública, penso que o exercício do autoconhecimento, com a ajuda de um bom profissional, facilita na procura de sentido e de ter propósito na vida, o que, na minha opinião, contribui muito para a construção de um mundo pessoal melhor e feliz, o que interfere na nossa militância social para um bom legado às futuras gerações.

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

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