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A roupa do réveillon

Por Nara Vidal

29/12/2020 às 14h17 - Atualizada 29/12/2020 às 14h17

Quando eu morava no Brasil, tinha uma preocupação excessiva em relação à cor que eu passaria a virada do ano. Eu me lembro quando me mudei para a Inglaterra, num outubro de 2001, e dezembro se aproximava com planos de festas em casas de amigos recém feitos. O réveillon bastante comemorado, mas supreendentemente ninguém pensava nas cores da virada.
Confesso que tenho imenso orgulho dessa tradição supersticiosa da nossa América Latina. Claro, há superstições de todo jeito aqui, mas eu sinto que a gente leva isso mais a sério, e a cor da roupa do ano novo sempre foi fator decisivo para o futuro. Até dezembro de 2001. Eu me lembro de passar semanas sondando lojas para que eu encontrasse alguma roupa clara para o dia da festa. Não era possível. Casacos, blusas, calças, botas, tudo preto, marrom e cinza, as piores cores segundo a nossa tradição. Pelo menos a roupa íntima ainda era decisão minha. E assim, fui lá entrar no ano de 2002 com um vestidinho preto, meia-calça preta, botas marrons e um receio grande sobre as consequências daquela anarquia toda.
Os doze meses que se seguiram foram bons. Altos e baixos como é a vida de quem se veste de branco ou de quem se veste de preto, já que a partir dali passei a notar que as coisas aconteciam mais por um resultado do nosso estar no mundo do que por conta de um azul turquesa. – Seria tão mais fácil se a culpa fosse das cores!
Aliás, estar aqui foi um desafio para a minha crença nessas superstições nas quais sempre acreditei com força. É engraçado porque não deixei de colocar a vassoura atrás da porta quando quero que a visita vá embora. Mas ao mesmo tempo, passei a notar que a visita de inglês é muito rápida. Então, a vassoura deve funcionar, não é mesmo?
Minha mãe tinha pavor de bolsa no chão. Ela dizia que o dinheiro ia correndo embora. Eu seguia o conselho dela. Quando comecei a trabalhar para ricos aristocratas, a lady que era a minha patroa chegava em casa e jogava a bolsa no chão da cozinha. A bolsa dela e as bolsas das compras caras que ela tinha feito. Ponderei sobre o saldo da conta bancária da minha mãe e a da lady e decidi deixar todas as minhas bolsas no chão.
Há, porém, uma superstição que eu ainda cumpro e essa não vai mudar: nada de limpar a casa, varrer chão, tirar o pó de casa no primeiro dia do ano. Nada a ver com a preguiça gigante que se acomoda em mim quando assunto é faxina. Mas uma vez eu ouvi dizer, não me lembro onde, que varrer a casa no primeiro dia do ano era varrer os bons desejos. Pronto, era tudo o que eu precisava para validar um dia inteiro no sofá sem fazer nada, sem levantar um dedo sequer. Olha a má sorte, larga essa vassoura, esse aspirador de pó! Perdeu o juízo?
Pensando nesse assunto das cores para o réveillon, acabei me lembrando de uma coisa e vou fazer-lhes uma confissão: eu acho que agora, em profunda reflexão sobre o assunto, eu sei a razão de termos tido o ano que tivemos. 2020 foi osso, foi de lascar, mas acho que sei o que aconteceu. Não foi o vírus, não foi o governo irresponsável e debochado, não, nada disso.
Pensando aqui, me lembro de na virada de 2019 para 2020 usar pijamas. Nunca tinha usado pijamas na hora da virada. Portanto, contem comigo: uso preto, marrom, cinza, azul turquesa, rosa ou vermelho, mas de pijama eu não entro o ano novo.
Saúde e alegrias para toda a gente!

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Nara Vidal

Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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