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Queda

Por Nara Vidal

15/11/2020 às 06h55 - Atualizada 12/11/2020 às 22h49

Esta tem sido uma semana importante na rotina dos brasileiros. Hoje é o dia que você, cidadão, tem o direito de votar na sua representação na política local. Todas as reclamações, todas as indignações, todos os desejos têm nas eleições a representação do seu direito de posicionamento. Na semana passada, um dos países mais ricos do mundo e extremamente polarizado elegeu o oponente de um presidente que representa, na minha opinião, tudo que há de pior no ser humano. Trump, assim como Bolsonaro me parecem gatos do mesmo balaio, ou farinha do mesmo saco. A derrota do Trump, muito mais importante que a eleição de Biden que está longe de ser uma justa representação dos mais oprimidos e mais pobres, mesmo tendo uma brilhante vice-presidente, significa muito e deve ser comemorada. Mais que a queda, a humilhação de Trump é espetacular de assistir. Uma sobrinha do ainda presidente que, aliás, se recusa a admitir que perdeu (elegância dinheiro nenhum compra, certo?), escreveu para o jornal inglês “The Guardian” que o tio, por quem ela não nutre qualquer sentimento de afeição, tem mais medo de se tornar irrelevante do que dos processos que tem nas costas, considerando que deve mais de 400 milhões de dólares em dinheiro para campanha, de acordo com a matéria citada. Tornar-se irrelevante, ser esquecido, ridicularizado, minimizado e enfim, cancelado seria para o Trump a mais profunda das humilhações. Um mundo onde ele não é mais o centro das conversas, das discussões. Um mundo onde ele estará esquecido. Acho que além de cadeia pelas barbaridades ditas, ele merece o esquecimento, sim, se isso o atinge tão agudamente. E a queda de Trump simboliza o declínio do que ele representa. Bolsonaro, por exemplo, morre de orgulho de admirar o americano. Pobre Bolsonaro. Duvido que o Trump se lembre que seu nome seja Jair. Bolsonaro me faz pensar no complexo de vira-latas que carrega ideias colonialistas e que não se incomoda em ser visto bajulando o americano. E se ama tanto o Trump, certamente Bolsonaro está de acordo com os pensamentos do ainda presidente. Para refrescar a memória, vamos fazer uma brincadeira do “quem disse o quê”: Trump ou Bolsonaro.
1- “Eu serei o melhor presidente que Deus criou.”
2- “Se ela não fosse minha filha, eu sairia com ela”
3- “Temos esse vírus sob controle. É só uma pessoa que veio da China. Vai passar.”
4- “Mulheres feias são como porcos e animais nojentos”
5- “Isso não passa de uma gripezinha”
6- “Eu só não te estupro porque você não merece.”
7- “Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não.”
8- “O índio devia ir comer um capim ali fora para manter suas origens.”
9- “O Brasil tem de deixar de ser um país de maricas.”
A 1, 2, 3 e 4 são atribuídas a Trump, e o resto, a Bolsonaro. Mas o que as citações têm em comum é a mesma falta de decoro, a mesma dose de preconceito e a mesma falta de discernimento. A complexidade dessas frases é que uma grande parcela da população se vê representada tanto por Trump quanto por Bolsonaro, consequentemente se sentem autorizadas a distribuir frases toscas e expressar seus preconceitos como se não fossem crime, e sim liberdade de expressão. Que graça tem a objetificação e humilhação da mulher senão para dar ao opressor a validade da continuação dos seus privilégios? Qual a razão no desejo de diminuir os povos nativos do Brasil, se não reiterar apoio à tradição colonialista? Que projeto político é esse que se baseia no que há de mais feio no ser humano? Por que apoiadores desses dois sujeitos têm tanto orgulho da truculência e da baixeza que eles representam? Por que cidadãos apoiadores de fascistas, racistas, misóginos se sentem ameaçados com o plano de mobilidades social e econômica? Desde que a oposição a Bolsonaro se organize de forma forte e sem vaidades partidárias, acredito, tenho fé que o Brasil consiga vencer o vírus e a Covid também num futuro próximo. Mas não sejamos ingênuos: as falas tolas ditas por sujeitos assim são uma estratégia para nos distrair de problemas que eles enfrentam de fato. A família Bolsonaro, por exemplo, está envolvida até o pescoço em processos de investigação de corrupção. Os meninos do presidente já não dormem em paz há tempos. Não há chocolate quente ou suco de laranja que os acalme.
As eleições municipais hoje são uma chance de posicionamento, de exercer a democracia, de expressar a opinião. Trump, Bolsonaro e afins vêm perdendo o apelo, vêm perdendo a força, são previsíveis, serão, em breve, parte de um passado. Mesmo uma parcela da população que apoiava esses devaneios começa a questionar se só esse ódio basta e se isso foi o suficiente para promover oportunidades, empregos, educação e saúde de qualidade, segurança pública. A humilhação que vive o Brasil vai acabar. Como disse o visionário Eduardo Bolsonaro, um homem à frente do seu tempo, num famoso tuíte de maio deste ano: “Acontece nos Estados Unidos, acontece no Brasil“. Que Deus te ouça, Dudu. Que Deus te ouça. Melhor a gente Jair se acostumando, não é?

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Nara Vidal

Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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