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Maçãs e peras

Por Nara Vidal

07/03/2021 às 07h00 - Atualizada 04/03/2021 às 09h41

Está chegando a minha vez. Aguardo a carta do sistema de saúde me chamando para ser vacinada contra o Covid. Eu tenho 46 anos e, pelo jeito, serei vacinada antes do meu pai.
Há algumas razões para isso. Não devemos nunca nos esquecer o tamanho de um país feito o Brasil, se comparado à pequena Inglaterra. Mas a geografia não justifica o injustificável, e o fato é que o Brasil tem um governo muitíssimo incompetente. Sem entrar em ideologia de esquerda e direita. Afinal, a gente precisa, de uma vez por todas, entender que o atual governo não é de direita. Chamar o bolsonarismo de direita é um equívoco. O que ocupa a presidência não tem profundidade nem para isso. São quantas mortes por dia? Mais de mil, muito mais de mil, 1726 registradas no dia 2 de março. A gente nem consegue acompanhar a velocidade da foice. As brigas entre governos federal e estaduais me mostram – não sei se mostram pra vocês – o inquestionável despreparo da presidência para liderar. Um posto desses precisa de estratégia, diplomacia, estudo, inteligência, empatia, diálogo, ação. Viram só como o Brasil está num mato sem cachorro?
E ainda tem o ano que vem. Os tais “fechado com Bolsonaro” têm boas chances, por exemplo, se acontecer outra facada, se o atual presidente pegar um resfriado e não puder comparecer aos debates. Agora, a boa notícia é que se as mídias sociais e as redes de TV promoverem debates entre candidatos, aí o atual presidente será espetacularmente massacrado por qualquer um. Qualquer um mesmo.
Imaginem o mediador questionando os candidatos sobre as políticas de emprego, saúde, educação, segurança – alô, arminha apontada para a cabeça! O atual governo não aguentaria dez minutos de conversa pautada em fatos, dados, estudos. A pressão subiria? Teria que sair antes do fim porque está passando mal? Alguém da família caiu e quebrou um osso? Ou seja: 2022 oferece, aos que lutam por um país sem a atual política de massacre da própria população, uma alternativa de olhar para cima, lá de dentro do buraco onde estamos, para ver uma luz. Qualquer luz nos ajuda agora. O que não podemos é cavar mais o buraco porque nossos corpos já estão enterrados até o peito e nos falta ar.
O importante vai ser subir pelas paredes desse poço lamacento e podre no qual estamos. A prioridade é parar de morrer. A população brasileira, toda ela, precisa ser vacinada o mais rápido possível. Só assim o trabalhador informal terá a chance de voltar ao ganha-pão sem arriscar a própria vida. Não é difícil entender.
No inglês há uma expressão da qual eu gosto que diz que é impossível comparar peras e maçãs. Mas só pra notar: passadinha rápida para ver os pais idosos: não tivemos. Corridinha ao cabelereiro porque, meu Deus, ninguém merece um palmo de cabelos brancos: não tivemos. Encontro distanciado no parque entre crianças e seus amiguinhos: não tivemos. Voo bate e volta para comemorar os oitenta anos do pai: não tivemos. Estivemos trancados. Mesmo. Foi horrível. Ninguém gosta, mas também ninguém é especial. Estamos todos na mesma lama. O que acontece é que países com projetos e prioridade em políticas sanitárias estão começando a se levantar. Enquanto o Brasil com sua cara mais covarde compra mansão em Brasília, aglomera, afunda a economia. Que espetáculo de horrores.
Informação extra: casa à venda, 2.500 metros quadrados, dois pavimentos, piso em mármore, academia, sauna, piscina, churrasqueira, forno de pizza, brinquedoteca, salas de estar, garagem com vagas para oito carros, segurança e privacidade. Lago Sul, Brasília. Localização privilegiada. Valor: 6 milhões de reais.
(imóvel comprado por um sujeito investigado pela polícia por lavagem de dinheiro.)

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Nara Vidal

Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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