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Eu acho

Por Nara Vidal

07/02/2021 às 07h00 - Atualizada 02/02/2021 às 22h15

Há alguns dias, li na internet que o super, mega influenciador das mídias sociais disse algo sobre a leitura de literatura clássica nas escolas. Gostaria de iniciar esta crônica com dois pontos a serem estabelecidos:
Ponto 1: vejo o influenciador como alguém que passou a perceber a importância de lutar contra o fascismo, contra um governo péssimo, contra a pobre lata de leite condensado. – Moça, é verdade isso?
O influenciador em questão é um sujeito importante na luta contra a invenção mais nociva dos nossos tempos: a veiculação e a democratização de notícias falsas.
Ponto 2: opinião é algo bastante comum entre os seres humanos. Todos temos opiniões sobre alguma coisa. Alguns de nós têm opinião sobre tudo, o que é um pouco suspeito. E sobre opinião, quero ressaltar dois subpontos:
Subponto 1: eu acho o verde esmeralda é a cor mais bonita que existe.
Subponto 2: não posso opinar sobre assuntos que exigem um aprofundamento que eu não tenho. Por exemplo: não posso opinar sobre a melhor vacina para o Covid, não posso opinar sobre como baixar a taxa do dólar e a inflação, não posso opinar sobre o melhor motor de carro, não posso opinar sobre o tipo de cachorro mais adequado para conviver com crianças. Sobre esses assuntos eu posso achar. Achar é livre e todo mundo tem seus achismos.
Opinião é algo bastante diferente porque é produzida partindo do princípio do estudo. Por isso mesmo a praga da veiculação das notícias falsas é um dos maiores problemas dos nossos tempos. Durante esta pandemia, eu já recebi, via whatsapp, todo tipo de achismo e fake news: de água com limão para curar Covid até tratamento precoce e a eficácia da tal cloroquina que, aliás, fez um rombo no orçamento, mas não o suficiente para deixar o Centrão sem a grana que precisa para virar pra cá, virar pra lá.
O que o influencer disse foi bastante problemático porque ele não é um profissional das Letras e da Literatura. Você pode achar a leitura de O Cortiço uma experiência monótona. Mas se a sua opinião for essa, você vai precisar desenvolver fundamentos e argumentos para defender o seu ponto de vista. Um influenciador digital com milhões de seguidores pode achar qualquer coisa – eu também acho – mas é bastante desnecessário ter que divulgar o achismo aos quatro ventos. Já uma opinião sobre o assunto, seria muito bem-vinda. Afinal de contas, há excelentes mediadores de leitura nas escolas e há professores que não gostam de literatura e lidam com a experiência de uma forma cristalizada e sem qualquer motivação para ninguém. O debate é muito importante mesmo, mas eu dispensaria achismos porque eles são mesmo muito rasos. É como tentar debater política com o lado oposto e a pessoa te responder com kkkkk ou você mora aí e não sabe o que passamos aqui. É difícil porque é um círculo que sempre volta para o seu início e o achismo não se transforma em opinião porque não se aprofunda. Talvez eu desenvolva um texto sobre a importância dos clássicos, mas neste momento é importante pensarmos sobre achismos e opiniões. Além do mais, estou mesmo muito ocupada organizando um curso sobre Shakespeare. Adoraria que influenciadores assistissem às aulas. Garanto que eles vão gostar. Alguém pode convidá-los em meu nome, por favor?

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Nara Vidal

Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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