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A orgia de sangue de ‘Invencível’ e a menina superpoderosa de ‘Eu sou Lume’

Por Júlio Black

05/05/2021 às 07h00 - Atualizada 04/05/2021 às 14h47

Oi, gente.

Foi ainda na década retrasada que soube da existência de “Invencível”, HQ publicada pela Image Comics nos Estados Unidos e que havia chegado por aqui pela HQM. Apesar de ter como criador Robert Kirkman (“The Walking Dead”), eu tinha a impressão de ser uma história genérica estrelada por super-herói adolescente; por isso, apesar de elogiada, preferi não gastar com a revista os reais recebidos por trabalhar para os encostos.

Atualmente, tudo que vai para o papel acaba no cinema ou streaming ou TV aberta/por assinatura, e daí que “Invencível” virou animação no Prime Video e resolvemos assistir porque poderia render assunto para a coluna. Não havia sequer 1% da expectativa que tivemos com “Patrulha do Destino” ou “Umbrella Academy”, mas ah migas e ah migos… como diria aquele personagem que aparecia nas histórias do Pica-Pau: O QUE ESTÁ ACONTECENDO???

Os minutos iniciais do primeiro episódio foram ok, pareciam mais um amálgama de Superman com Homem-Aranha. Descobrimos que o protagonista é o adolescente Mark Grayson, filho do super-herói mais poderoso da Terra, o alienígena Omni-Man. Ele começa a manifestar os mesmos poderes do pai e decide seguir a carreira de vigilante mascarado, usando o nome Invencível.

Também descobrimos que ele precisa _ no melhor estilo Peter Parker – se virar com o bullying na escola, os hormônios da juventude e as garotas enquanto começa a aprender a usar seus poderes, e prender seus primeiros criminosos a tempo de chegar para o jantar.

Parece mais uma animação leve, para a família, do tipo que a Marvel e a DC Comics fazem há décadas, certo? Pois achou errado, otário! (Rogerinho feelings) O primeiro episódio termina com uma verdadeira orgia de sangue, um massacre que te faz perguntar “CARA, O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO? COMO ASSIM? QUEQUEISSO? O QUE ESTÁ ACONTECENDO?”

Os oito episódios da primeira temporada se equilibraram muito bem nesses elementos do heroísmo clássico do Superman com os problemas adolescentes do Homem-Aranha, clichês de aventuras de super-herói, mais o tempero do mistério que levou à carnificina do primeiro episódio e toda a violência gráfica a que assistimos nos capítulos seguintes. Fosse enfrentando alienígenas, mestres do crime, cientistas loucos, Invencível, Guardiões Globais, Tropa Jovem e Omni-Man não economizaram na violência, livres das amarras que são impostas pelos próprios criadores, editoras e estúdios de cinema.

Sabemos que histórias de super-heróis carregam toda fantasia de bem contra o mal, moral, justiça, ética, que não dá para ter o Batman estripando meliantes todo mês, e filmes de heróis violentos tipo Authority só rolam vez ou outra, mas esse “de vez em quando” é necessário até para refletirmos sobre os riscos de uma pessoa acumular tanto poder, seja ele literal ou não.

Se pessoas com superpoderes existissem no mundo real, elas iriam _ ou pelo menos poderiam – mutilar, rasgar, esquartejar, eviscerar e decapitar vilões e até mesmo os chamados civis, mesmo que fosse por conta dos danos colaterais. Alienígenas, então, teriam menos pena ainda, então vale elogiar a série porque as mortes podem ser chocantes, mas não estão ali apenas para causar. Algumas podem até ser gratuitas, mas são gratuitas pela maldade em si, pela banalização do mal, mas até aí não cansamos de ver esses absurdos no noticiário ou livros de História.

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Se “Invencível” conquista o público com uma trama que mistura leveza e crueldade extrema, ela é nota seis quando o assunto é a qualidade da animação. Enquanto as cenas de luta são sensacionais, todo o resto parece mal acabado, quase tosco, uma versão melhorada _ mas não muito – daquele desenho dos X-Men que passava na “TV Colosso” nos anos 90. Nada que impeça o público de curtir o desenho, mas os pais devem ficar espertos e bloquear para crianças.

Aliás, o desenho me deixou tão curioso em relação à HQ que fui procurá-la na internet, e é possível encontrar tanto no formato físico (importado) quanto no digital, ambos em inglês. Por enquanto, li apenas as oito edições dos dois primeiros volumes, bem menos violentas que a animação e com as diferenças que sempre existem quando um material é adaptado. Mas recomendamos, com certeza, até porque a HQ teve 144 edições e vai oferecer muito material para a série, que já teve a segunda e terceira temporadas confirmadas.

Além da dobradinha TV/HQ de “Invencível”, aproveitamos para ler o arco completo de “Eu sou Lume”, publicada pela Kaiowá Mídia/Universo Guará. Já havíamos comentado, em setembro de 2020, as duas primeiras edições da história que estavam disponíveis no formato digital, e agora recebemos a revista com todas as cinco edições. O resultado, podemos afirmar, é muito bom, misturando super-heróis com política e crítica social.

A protagonista, assim como em “Invencível”, também está na adolescência, mas a vida de Ludimila é nada parecida com a de Mark Grayson. Ela vive na periferia, e o sonho de ser artista tem como obstáculo a realidade marcada pela violência e repressão policial, além do preconceito por causa da cor da pele e sua origem _ principalmente na escola de elite onde estuda graças a uma bolsa concedida como compensação pelo Escândalo das Clínicas, em que entidades “filantrópicas” esterilizavam moradores de Esperanza de forma ilegal.

Essa experiência, porém, resultou no surgimento de pessoas geneticamente modificadas, inclusive Ludimila, e os cinco episódios mostram a jovem tentando entender seus poderes enquanto os políticos canalhas de sempre tentam abafar o escândalo, porém uma vereadora inspirada em Marielle Franco e um jornalista buscam expor os crimes cometidos.

Quando li apenas as duas primeiras edições, comentei que a história tinha alguns defeitos, mas a leitura do arco como um todo deixa a HQ bem redondinha. PJ Kaiowá, que já trabalhou para editoras como a Dark Horse e Legendary e títulos como “Pacific Rim” e “Evil Dead”, manda muito bom ao mostrar a jornada da heroína e contextualizar toda essa trajetória dentro do universo em que ela vive, que é o da pobreza, falta de oportunidades e preconceito.

Além da trama, a arte é outro destaque da publicação, incluindo o trabalho de colorização, coisa de editora grande mesmo. Não sei se teremos mais histórias de “Eu sou Lume”, mas certamente acompanharíamos as novas aventuras da heroína adolescente que não leva desaforo para casa.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

(Além de “Invencível” e “Eu sou Lume”, recomendamos fortemente que siga a playlist da coluna. Tem no Spotify e Deezer, então deixe de vacilação que são mais de duas mil músicas para ouvir enquanto limpa a casa, paga boletos e assina apólices complicadas)

Júlio Black

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