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Orelhinha

Por Wendell Guiducci

19/01/2021 às 07h00 - Atualizada 18/01/2021 às 23h02

Meu amigo tem uma explicação muito simples para o avanço do negacionismo científico, do autoritarismo, do estouro de boiada que ora nos ameaça.
– Tudo começou com o Batman de orelha curta. Falo com tranquilidade.
Eu dou um riso protocolar, um sinal de anuência à piada, de modo que possamos ir adiante no assunto de forma leve, mas seu tom é grave.
– Que ano saiu o primeiro filme do Batman do Tim Burton? 1989. O que aconteceu em 1989? Primeiras eleições diretas no Brasil depois de mais de duas décadas de mordaça no povo. Como era a orelha do Batman do Tim Burton? Comprida. Orelhas compridas.
– Mas ganhou o Collor, né? E aí o que se seguiu a gente sabe, inflação, sequestro das poupanças, processo de impeachment…
– Não, mas peraí, um bem maior se sobrepôs: as eleições diretas são o marco da retomada democrática no Brasil de fato, com o povo indo à rua eleger o presidente, ainda que tenha sido o Collor. “Power to the people”*, mano, “Power to the people”, não tem nada mais importante que isso. É preciso ver o todo.
– É, vá lá…
– Mas se você quer falar de Collor, tudo bem, 1992: corrupção torando, caras-pintadas na rua, Collor acuado, impeachment, renúncia. É a democracia valendo de novo, “Power to the people right on”. Nos cinemas, chega o segundo “Batman” do Tim Burton. Orelhas? Compridas.
– Cara, você é bem doidão, hein?
– Acompanha, filho. Os dois “Batman” do Joel Schumacher saem em 1995 e 1997. Quem assume a presidência do Brasil em 1995? Fernando Henrique. Os três do Christopher Nolan, de 2005 a 2012. Presidentes no período? Lula e depois Dilma. De 1995 em diante o Brasil só cresceu, só melhorou, pobre tomando iogurte, depois comprando dentadura, e pobre na universidade, pobre viajando de avião, uma loucura. Eleições democráticas, o derrotado ligando para o vencedor para parabenizar pela vitória, o jogo político sendo feito dentro das regras republicanas etc etc etc. Como eram as orelhas do Batman nesses filmes do período?
– Compridas.
– Pois bem, mas aí vem 2016. Dilma é alvo de impeachment num grande acordo nacional. Durante a votação, um deputado menor chamado Jair Bolsonaro esganiça elogios ao torturador coronel Brilhante Ustra em seu discurso, a extrema direita brasileira bate no peito com orgulho, os jornais acham normalíssimo. Então o Conde Drácula em pessoa senta na cadeira da presidência da República. Está me seguindo? Nos cinemas, chega “Batman vs Superman”. Amigo, você reparou na orelhinha? Reparou na orelhinha do Batman do Ben Affleck?
– …
– Depois teve “Liga da Justiça” em 2017, Ben Affleck e orelhinha de novo, e no ano seguinte aquele deputadinho menor vira presidente do Brasil com a anuência de 58 milhões de pessoas. O resto você já sabe. Mas não para por aí: você já viu as fotos do “Batman” que vai sair em 2022? Do vampiro Edward? No trailer dá nem pra ver as orelhas direito, fio, mó fininhas! Olha a encrenca que vem aí…
– Cara…
– A gente precisa fazer uma petição on-line, um abaixo-assinado urgente pra aumentarem essas orelhas. Abaixo-assinado, não: precisamos ir pra rua, mano! Precisamos vacinar e ir todo mundo pra rua porque é o nosso que tá na reta, e falar que a gente não quer mais orelhinha, não! Ficar chorando no Facebook não adianta, temos que ir pra rua e pedir um basta nisso. Ninguém aguenta mais orelhinha! Vamos tocar isso aí, meu velho? Vamos? Vamos derrubar essa orelhinha?

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*”Power to the people” significa “Poder para o povo” e é título de uma canção de John Lennon lançada originalmente em 1971.

Wendell Guiducci

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