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Jagodes

Por Júlia Pessôa

30/05/2021 às 07h00 - Atualizada 27/05/2021 às 19h10

Das muitas coisas que Juiz de Fora me deu, “jagodes” é um dos presentes que guardo com mais apreço. Não adianta vir o Michaelis dizer que a palavra denomina “homem sem caráter ou ordinário”; “pessoa apalermada” ou, ainda (e desse eu JAMAIS desconfiei), “boneco de louça que representa um chinês cuja boca é o orifício de uma caixa para correspondência ou para outros fins”. Balela.

Entender a singela complexidade do termo extrapola as possibilidades das palavras. Requer, para quem vem de fora como eu, viver como local até que algumas juiz-forices estejam cravadas nas entranhas. Bater no peito e dizer que aqui é que se come torresmo/pastel/pipoca da Halfeld/Fatia Rosa, se bebe cerveja artesanal e qualquer iguaria apontada como sendo melhor aqui. E flagra-se, quando artistas locais atingem a fama, dizendo pras outras pessoas: “Sabia que é de Juiz de Fora?” – para enaltecer ou xingar a figura. Indignar-se e, ao mesmo tempo rir da representação da cidade em novelas, como se fosse uma vila rural. É ter saudade de casinhas, casarões e cinemas de rua que vão sumindo da arquitetura urbana, dando lugar a prédios iguais. É agradecer elogio do jeito mais humilde que há, “às ordens”.

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Talvez eu seja tão de fora quanto o juiz que batizou a cidade, mas sempre me senti em casa desde que cheguei aqui de mala, cuia, matrícula na UFJF e a vida toda pela frente. E aqui fui aprendendo a ser adulta, a ser jornalista, caindo e levantando mais vezes que posso contar, mas sempre acolhida pela cidade nos dois casos.

Como autoproclamei minha dupla origem, vira e mexe respondo que “sou daqui sim” quando questionada. Há quem – como acontece com todas as cidades – odeie Juiz de Fora. Nunca foi o meu caso. Não raramente, para explicar o que é jagodes, aderi ao hábito local e mais preciso, esgotadas definições sem pessoalidade: “Sabe Fulano? Fulano é jagodes”. É infalível, sempre vem um “aaaaaaaaaaaaah tá”. E é do mesmo jeito que opera o amor por esse lugar, creio eu. Não adianta explicar: tem que (vi)ver na prática – e talvez, tudo bem, ser um pouco (e orgulhosamente) jagodes.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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