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A dolorosa

Por Júlia Pessôa

24/01/2021 às 07h00 - Atualizada 21/01/2021 às 22h23

Dava pra percorrer um bom chão de volta ao mundo se eu contasse quantas vezes meus olhos já reviraram com aquela história de ser “responsável por aquilo que cativas etc” d’O Pequeno Príncipe. Veja bem, tenho absolutamente nada contra o livro, contra Saint-Exupéry e, embora antimonarquista convicta, nada contra este príncipe literário – talvez contra o de Maquiavel, inquestionavelmente mais babaca.

Não tenho a pretensão e nem a petulância de desmerecer a obra, até porque gosto muito da ideia de enxergar as coisas com as lentes do afeto, afinal “o essencial é invisível aos olhos”, de fato. Também não faço tipo, não caio no engodo de refutar os clichês. Pelo contrário, sou bem chegada a eles, e sei que só se tornam tal porque tocam um sem fim de pessoas.

Dito isso, a tal responsabilidade “por aquilo que cativas” sempre me bateu mal, como gente que cobra (oni)presença, atenção incondicional, disponibilidade, enfim, cobrança. Não bastassem os boletos e contas cada dia mais salgados, nosso orçamento de bem-estar também vai pro vermelho com relações que nos sugam tanto – ainda que na melhor das intenções, não raramente sem um pingo de reciprocidade. E nesses casos a mensagem do pequeno herdeiro do trono soa como uma praga: “tu te tornas eternamente responsável”. Cruz credo!

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Porém, como não é raro acontecer, a vida sempre encontra seus jeitos quase sempre irônicos de me demover de muitas das minhas certezas. Mesmo que momentaneamente, pois sou teimosa, e ainda bem, porque mostra que estou viva e em movimento, recusando-me à prisão de não repensar o que faço, digo e penso.

Depois de tantas grosserias, indecoros e ataques xenofóbicos à China pela famiglia e seus agregados, só surpreende os mais inocentes, desinformados ou sem caráter que o Brasil tenha ficado como pária internacional nas negociações de importação do insumo para a produção da vacina contra a Covid-19. “Vachina”, “comunavírus” e outras infâmias chulas foram ditas a respeito do país asiático longe das mesas de boteco, mas em depoimentos de representantes do Brasil.

Diante da justificada e diplomática preterição do Brasil na corrida pelos insumos farmacêuticos, sou obrigada a concordar com o principezinho: tu realmente te tornas eternamente responsável pelo ódio que cultivas, neste caso. Infelizmente, a conta, que nunca mereceu tanto a alcunha de dolorosa, é dividida por toda a população.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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