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Fusca azul

Por Júlia Pessôa

17/01/2021 às 07h00 - Atualizada 16/01/2021 às 16h56

Num lugar em que se presume a pluralidade de ideias, opiniões e vozes, a unanimidade parece um conceito intangível. Ouso dizer que, nos dez anos em que estive diariamente na redação da Tribuna de Minas, chegamos a umas poucas, nem dá para encher uma mão. Uma delas, incontestavelmente, foi o Trajano, motorista do jornal por anos a fio.

Levando a gente pra baixo e pra cima, o Traja contava causos mil, como o de quando teve uma banda de metal em que era frontman e guturava refrãos em Inglês: “eu inventava as palavras tudo”. Na emenda, dava uma canja enquanto rodava por Juiz de Fora : “tchetchecoleeeeeeei, tchetchecolezaaa”. Outras tantas vezes, construía as matérias junto com repórteres: vigiava o estado de determinada rua, pegava uma placa de um carro acidentado, fotografava flagrantes de irregularidades… jogava nas onze.

Talvez a lembrança mais recorrente do Trajano, além de uma doçura talvez até ameaçadora a índices glicêmicos, era a certeza de que um Fusca azul nunca passaria despercebido. Era só avistar e “Fusca azul”, e tapinhas pra quem estivesse no carro. Até hoje, se passo por um, meu cérebro não consegue ficar indiferente. 

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Nesta semana vi um meme com vários fuscas azuis enfileirados e imediatamente fui transportada para o Palio branco com as credenciais da Tribuna que o Traja dirigia. Fui até pesquisar a origem da brincadeira, que apregoa que sejam distribuídos tapas, soquinhos e variantes sempre que o veículo de tal cor seja avistado.

Num site de credenciais duvidosas, que deve se parecer com os que a galera antivacina pesquisa suas informações, li que o criador da brincadeira foi – pasmem – Henry Ford. Sim, aquele que famosamente disse que “você pode ter o carro que quiser, desde que seja preto” e que por isso mesmo emprestou o nome ao sistema de produção industrial em massa, o fordismo. 

Segundo o tal site, certa vez um funcionário teria feito lambança com as tintas e toda a linha de produção, que deveria ser preta como sempre, ficou azul. Henry Ford, pistolíssimo dentro das calças, teria socado (alô, processinho) o responsável. Os carros azuis ficaram na frota interna e, sempre que eram avistados, os colegas, fanfarrões, imitavam o gesto do chefe, socavando quem estivesse por perto. Como isso chegou ao Fusca? Vai saber. Cara de fake news, texto de fake news e lógica de fake news. Mas vai ter bobo pra acreditar.

Seja qual for sua origem, parece que a lenda do Fusca azul – com ou sem ligação com Henry Ford – tem uma supremacia de se fazer acontecer cá pelas nossas bandas. Entre idas e vindas, o Fusca parou de ser fabricado em 1996 e, nesta última semana, a Ford anunciou o encerramento da produção em todas as suas fábricas no Brasil, indo embora daqui de mala e cuia.  Ainda assim, seguimos apanhando diariamente neste país.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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