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Um conto de hospital

Por Júlia Pessôa

14/02/2021 às 07h00 - Atualizada 11/02/2021 às 22h32

Deitado eternamente em berço não tão esplêndido, o Brasil semiconsciente reclama da entubação no leito de UTI do qual vem lutando sem qualquer sucesso pra sair. A despeito dos sucessos imensuráveis da ciência e do esforço hercúleo das equipes hospitalares, o quadro não evolui, o paciente não responde. 

“É melhor se preparar para o pior”, orienta o chefe da equipe médica, Novidade. Faz quase um ano que, apesar de uma esperancinha ali e acolá, tudo que a longuíssima linhagem de parentes espera é o pior. E se sentem escapando, escapando, escapando, como quem foge de um cão correndo rente à roda da bicicleta, com a certeza eufórica de que a abocanhada virá.

Semidopado, o Brasil recebeu uma visita, e safo que sempre foi, sabia que estava delirando porque não estava no horário restritíssimo estabelecido. Era um fantasma, uma assombração, um sei lá o que. Era o passado. Na visão, o enfermo viu sua longa vida de promessas e de quilômetros nadados em direção a uma praia que sempre anunciava sua morte. Mas de alguma maneira, o tinhoso sempre sobrevivia, nem que fosse pra ser lançado ao mar novamente e retomar a natação. Por último, viu o golpe que o pôs na cama, com frases que escutava muito ao longe sobre “gripezinha”, “físico de atleta”, devaneios insólitos sobre leite condensado e algo que se repetia feito maldição: “não posso fazer nada, pô!”.

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Depois voltou o silêncio, o nada, o bipe-bipe dos aparelhos, o tubo na goela e a contemplação do tempo passando em sabe-se lá que velocidade. “Tava doidão de remédio”, pensou o Brasil. E estava. E continuava. Porque voltou a ver coisas, e o cenário era um horror. Pensou que estava com o fusível do cérebro trocado, porque se estava vendo o presente, não era possível ainda enxergasse ivermectina e cloroquina. Não era possível que as decisões administrativas sobre a vacina parecessem tomadas em um episódio de Os Trapalhões. “Eu tô doidão de remédio”, pensou de novo o Brasil. E estava. E continuava. O que não fazia o presente ser outro.

Depois de uma breve cochilada, o Brasil acordou e o monitor dos sinais vitais foi às cucuias. Foi preciso chamar mais dois enfermeiros pra que ele parasse de se debater na cama, aflito, afoito, um pi-pi-pi danado nos aparelhos de sinais vitais. Era a visita do futuro, que o assombra e assusta desde sempre, bem antes da invasão gaja: “ai, o Brasil é o país do futuro, não sei o quê”. Em alguns momentos foi quase um fantasminha camarada, porque o que se podia ver adiante, o tal futuro, de fato parecia promissor. Pi-Pi-Pi-Pi-Pi- Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Chega a equipe de emergência. Sinais vitais recuperados. O paciente sobrevive por um fio. Um não, vários. Literalmente, plugados à tomada.

O Brasil está resistindo, mas o futuro não se mostrou promissor. “Vamos manter a esperança, mas precisamos nos preparar para graves sequelas”, diagnostica o médico.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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