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Breve estudo de biomas

Por Júlia Pessôa

02/05/2021 às 07h00 - Atualizada 29/04/2021 às 17h56

Uma das muitas lembranças que carrego de ser filha de professora é minha mãe falando de clima e vegetação em suas aulas de Geografia. Tenho uma memória intacta de suas descrições vívidas de cenários e condições, universos inteiros contidos em algum canto desse mundo. Pensei nisso esses dias. E em como a gente tende sempre a idealizar a vida em seu melhor como um campo florido, uma floresta transbordando biodiversidade, ou qualquer bioma que pareça se vangloriar de sua vitalidade pulsante. Mas viver, em grande parte, está mais pra deserto.

Não pensem que fui acometida pelo pessimismo irreversível – pelo menos não inteiramente. É verdade que regiões desérticas têm escassez quase absoluta de água, o calor é abrasador. Também é fato que para a maioria das formas de vida terrestres a existência em suas condições seria uma sentença de morte. Só que nossa visão limitada e rotuladora das coisas tende a reduzir o deserto a uma metáfora irrestrita de tudo aquilo que (nos) falta.

Creio que a vida é sim, muitas vezes, árida em si. Mas vejo seu flerte com os desertos por sua capacidade inexorável de existir, resistir e mostrar beleza mesmo quando não se espera. E também por sua diversidade surpreendente e complexa. Se durante o dia, em regiões desérticas, o sol racha muito acima dos 40 graus, à noite o frio é abaixo de zero. Ainda assim, se a coisa aperta, a vida dá seus pulos para continuar cumprindo seu papel: prevalecer.

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As plantas xerófilas, típicas dos biomas desérticos, têm folhas e caules grossos que permitem diminuição da perda de água, tão escassa, no processo de evapotranspiração. Animais diversos aprendem a se virar e, assim, espécies malandras como raposas, morcegos, muitas cobras e a maioria dos roedores só saem das tocas à noite, quando a temperatura cai. Os esquilos-do-solo entram em estado de estivação, uma hibernação reversa, para quando está quente demais. Já bichos como o urubu-da-cabeça-vermelha urinam nas próprias pernas para se refrescarem. Cada um se vira como pode.

Povos beduínos, hoje cerca de 10% do Oriente Médio e embora atualmente sejam bem sedentários, historicamente adaptam suas vestes à amplitude térmica. Além disso, tradicionalmente habitaram e habitam tendas esticadas sobre estacas de madeira, num acampamento fácil de montar, desmontar e carregar.

A vida é deserto sim. E o que a gente precisa é se adaptar entre um oásis e outro, mas sabendo que a trajetória não é feita deles. Aqui no meu Saara particular (não o mercado carioca), venho tentando ser camelo. Não que eu seja expert em biologia, mas sei que o organismo do animal tem um sofisticado mecanismo para armazenar e evitar o desperdício de água num cenário em que ela é tão rara. Além disso, seu corpo pode tolerar altas temperaturas e tem seu próprio sistema de controle térmico.

Venho guardando minha grandíssima talagada de água em comedidos goles pelo caminho, e suportando o calor escaldante confiando no meu termostato corporal. Ainda tem muito chão, mas já avisto o próximo oásis lá longe. É só seguir caminhando.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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