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Moda de casa

Por Ana Paula Calixto

26/03/2021 às 07h00 - Atualizada 25/03/2021 às 22h10

“Eu me visto,
Eu me exprimo.
Eu me visto,
Eu reivindico.
Eu me visto,
Eu me revelo.
Eu escolho ser isso
Que eu sou.
Eu escolho ser o que
Eu gostaria de ser.
Eu exprimo a minha
Versão do mundo.
Eu sou livre”

Tive contato com este poema em uma disciplina da minha pós-graduação em “personal stylist” e o utilizo em diversas disciplinas que ministro. Simples e direto, ele traduz a minha visão sobre a moda: a expressão não verbal da nossa personalidade.

Próprio do ato de escolher roupas, é nos descrever e nos definir. É claro que considerações práticas interferem na escolha das nossas roupas: considerações de conforto, durabilidade, viabilidade e preço. Mesmo assim, tais escolhas fornecem alguma informação sobre a nossa personalidade, ainda que seja equivalente à declaração “não dou a mínima para a minha aparência hoje”. Tal como um logotipo criado para traduzir a identidade de uma empresa, as roupas exercem o mesmo poder ao expressar personalidades, por isso é comum, quando as pessoas querem provocar mudanças em suas vidas, que comecem estruturando seus guarda-roupas.

Através da arte de vestir pode-se, por exemplo, ter uma ideia acentuada do estado emocional de uma pessoa e muitas vezes de seus valores ou preconceitos. O conceito de personalidade refere-se à formação psicológica única de uma pessoa e à maneira como sistematicamente influencia o modo como ele reage ao seu ambiente. Inconscientemente, todos nós traçamos gráficos de vestuários em mudança e lemos os muitos sinais que a roupa das pessoas transmite a nós. A roupa faz parte da linguagem corporal, tanto quanto gestos, expressões faciais e posturas.

Moda é algo articulado que não se limita à simples roupa. É um fenômeno complexo que concerne e relaciona entre si comportamentos, modelos de ser, formas de linguagem e qualquer outra escolha através da qual estruturamos nosso ser no mundo. Toda época é marcada por roupas e ornamentos corporais que indicam o que é mais importante naquele momento da história. Muitas vezes na história da indumentária, a mensagem dizia, “Eu sou rico” ou “Eu sou poderoso”; mas, hoje em dia, muitas pessoas usam o estilo próprio de vestir para afirmar: “Eu sou autêntico”. Como afirma Glória Kalil, nada mais século XXI do que ter estilo.

E quando a vida no mundo muda radicalmente, claro que a moda muda junto! No período pandêmico que estamos vivendo, várias relações de trabalho e vida social sofreram impactos inimagináveis, o que influencia diretamente a arte de vestir. A pandemia do novo coronavírus forçou milhões de pessoas em todo o mundo a adotar uma nova rotina, e a moda passou a acontecer dentro de casa.

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A pandemia trouxe grandes mudanças na vida de todos, seja nos relacionamentos, no trabalho ou na rotina. Não foi diferente com nossa relação com a moda e o consumo. Passando mais tempo em casa, a grande maioria das pessoas deixou de lado o dress code da empresa para investir em looks mais simples, com tecidos mais confortáveis e um visual mais despojado.

A quarentena moldou o estilo, as prioridades mudaram e o conforto virou uma máxima para quem esteve ou está isolado. Isso trouxe um novo olhar para a maneira de se vestir. Nos primeiros dias, muita gente se rendeu ao pijama: ele virou uniforme oficial para o trabalho em casa. Mas com o passar do tempo e a vida acontecendo dentro de casa, deu para perceber que ficar de pijama o dia inteiro não era uma boa ideia. Era hora de ressignificar!

Era a hora e a vez da moda confortável. O “lookcomfy” virou uniforme da pandemia, e modismos como tie dye (o tingimento artesanal) começaram a ganhar espaço. Cores, formas e maneiras diferentes de usar as roupas de sempre foram se disseminando. Pijamas e roupas de academia tomaram conta do cenário e as pessoas passaram a pautar seus estilos muito mais no comportamento on-line. E, segundo pesquisas, assim como vários setores, a moda passa por um processo de descontextualização. Estamos vivendo o que chamamos de “moda em rede”, uma macrotendência que aponta transformações em toda cadeia da moda, desde a produção até o consumo. Dados apontam que muitos passarão a usar roupas mais básicas no dia a dia depois da pandemia.

Já podemos falar num “home couture”, os estilos que estão emergindo na quarentena e que devem acabar pegando, mesmo após o fim desse período de confinamento. O colorido vibrante, o neon, moletom, tie dye, look esportivo, mangas bufantes , sapatos confortáveis, acessórios extravagantes, maquiagem mais leve.

Momentos como o que estamos vivendo exercem um papel de fazer você mudar desde pequenos hábitos do dia a dia a grandes transformações e a acelerar algo que já tinha começado. E não é diferente com a arte de vestir. Para quem virou um hábito ficar arrumado dentro de casa, até numa tentativa de levantar o astral em meio à situação complicada como a que estamos vivendo, que impacta absolutamente todos os aspectos da vida, fica aqui a minha dica: continue! Claro que tem os dias que o pijama não quer sair do corpo, que não temos energia para pensar em nada. Mas como já escrevi na coluna de um ano atrás: arrumar-se, mesmo que para ficar em casa, é um ato de autorrespeito. Uma atitude de consideração com você mesma e pode te ajudar a atravessar essa fase com mais leveza. Cuidar da sua imagem, assim como você está cuidando da sua casa, pode lhe proporcionar um sentimento de competência e bem-estar. Cuide-se! A sua autoestima agradece.

Ficha técnica:
Ilustração: danibrito @mercadodasalvacaostudio

Ana Paula Calixto

Ana Paula Calixto

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