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Vida que segue

O descontentamento não era com a disputa da Copa América em um solo que já enterrou quase 500 mil pessoas e não tem outros alqueires para enterrar mais

Por Gabriel Ferreira Borges

08/06/2021 às 07h00 - Atualizada 07/06/2021 às 22h25

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Ao abrir o marcador contra o Equador na última sexta-feira (4), Richarlison foi comemorar junto ao banco de reservas e a comissão técnica (Foto: Lucas Figueiredo/CBF/Divulgação)

Passaram-se cinco semanas nos últimos sete dias. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu está na corda bamba. Os chineses agora podem ter três, não apenas dois filhos. O general Eduardo Pazuello não foi punido pelo Exército, mas premiado com um cargo de secretário de Estudos Estratégicos do Palácio do Planalto. A médica Nise Yamaguchi insiste que remédio para verme é bom para vírus. O desabamento de um prédio em Rio das Pedras matou pai e filha. Erasmo Carlos aniversariou, mas Paulo Thiago morreu. Pedro Castillo e Keiko Fujimori disputaram a sucessão presidencial no Peru no cara e coroa. Rogério Caboclo é agora presidente licenciado, não mais presidente. Mas Jair Bolsonaro ainda é.

Passaram-se vinte perguntas, mas nenhuma resposta nos últimos sete dias. Caboclo e Bolsonaro fiaram a Copa América como uma saída de emergência, é verdade. O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) foi denunciado ao Conselho de Ética na última sexta-feira (4) por assédio sexual e moral, mas já se sabia há um bom par de meses que este era o “desvio de conduta”. Caboclo balançava tanto no cargo que estava disposto a pagar R$ 12 milhões pelo silêncio da vítima. Já Bolsonaro paga muito mais em emendas parlamentares para viabilizar o próprio governo desde o último ano. E, acossado não apenas pelos protestos de 29 de maio, como também pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, buscava novamente as rédeas do debate. Bom, Caboclo então mostraria serviço à Conmebol ao estender os braços e a alma para a Copa América. E Bolsonaro teria mais uma foto entregando outra copa a algum capitão.

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Passou-se um Brasil inteiro de euforias e agonias nos últimos sete dias. Tite evocou o comunista João Saldanha. Casimiro, Sócrates. Thiago Silva, Wladimir. Neymar, Reinaldo. E, assim, o verde e amarelo da Seleção Brasileira estaria ressignificado. Só que sem qualquer manifestação pública clara, sem qualquer afirmação, sem qualquer sonora, aspas, fax, apenas uma declaração enfática de absolutamente nada. “Uma revolução nas entrelinhas”, classificou Douglas Ceconello. Primeiro, os jogadores ficaram desconfortáveis. Depois, reivindicaram uma reunião com Caboclo. Depois, queriam boicotar a Copa América. Depois, convocavam líderes de outras seleções. Depois, focariam nos jogos das Eliminatórias. Depois, escreviam um manifesto. De tanta espera, de tanta espera, inaugurou-se um armazém de secos e molhados na Granja Comary.

E passaram-se técnicos, jogadores, balizas e agruras nos últimos sete dias. Tite não foi João Sem Medo. Nem Renato Portaluppi foi Zagallo. Tampouco Caboclo foi João Havelange. Se emergia um arroubo de consciência dos jogadores, não há mais qualquer fio de esperança. O descontentamento não era com a disputa da Copa América em um solo que já enterrou quase 500 mil pessoas e não tem outros alqueires para enterrar mais. Mas, sim, com Caboclo, porque não se sabia que realizar o torneio no Brasil era uma possibilidade até domingo (30). Barão de Itararé dizia mesmo que, de onde menos se espera, daí é que não sai nada.

Vida que segue.

Gabriel Ferreira Borges

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