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Crônica da Amizade

Por Marcos Araújo

31/12/2020 às 07h03 - Atualizada 30/12/2020 às 17h19

Para Lidiane

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O dicionário diz que amigo é aquele que ama, demonstra afeto, amizade. Sendo assim, a presença física de um amigo, apesar de sempre aprazível, não é determinante para que os laços perdurem. Amor, afeto e amizade são passíveis de demonstração mesmo de longe. Assim, como a lealdade, que é algo imprescindível em uma relação amical e que pode ser mantida a distância. Tenho amigos que são para a vida toda, mesmo não estando ao meu lado a vida inteira.
Com alguns, dividi anos de brincadeiras na rua, nos bancos da escola, da faculdade, no ambiente de trabalho, e a vida se responsabilizou pela interrupção da convivência. Mesmo assim, a presença marcante de cada um me acompanha. É fácil de acontecer, diante de determinada situação, pegar-me imaginando o que cada um deles estaria pensando sobre mim ou sobre como lidaríamos com certos fatos. Nessas horas, tenho a certeza de que a onipresença é um mero detalhe.
O sentimento continua ali, intacto, como se o tempo e o espaço não tivessem a sua significância. E o peso da perda do convívio é aliviado com um telefonema, que raras vezes acontece, ou com aquele esbarrão de repente na rua, em que a gente diz que vai ligar para combinar um encontro e isso nunca acontece. Sabemos que o dia a dia nos atropela, e esse tipo de compromisso acaba sempre adiado para o próximo ano. Mas a benquerença continua, ali, firme.
Às vezes, uma curtida ou uma mensagem rápida nas redes bastam para sinalizar que aquele amigo é muito importante. Sim, porque amizade não é dependência. Amigo de verdade não serve só para conciliar, mas também para duvidar, jogar na cara, chamar para a realidade, opinar de forma contrária. Amigo é independente e talvez por isso tenha o nosso respeito e admiração.
Amigo de verdade transforma nossa história. Às vezes, parecem até inimigos, porque são eficazes na briga pelo nosso bem-estar. Superam condicionamentos, porque nos aceitam e não imaginam as mudanças em nosso interior que foram capazes de patentear. Eles fincam raízes na nossa personalidade, moldam nossas atitudes.
Há aqueles amigos que nunca mais tive qualquer tipo de contato, que nunca mais soube de novidades, ainda assim são reverenciados nas minhas lembranças com a mesma alegria e cumplicidade do tempo em que nos conhecemos. Esse tipo de amigo não precisa fazer atualização de cadastro, ela acontece automaticamente. E, se por conspiração do destino, nos reencontrarmos, isso se dará com a mesma empatia de outrora, com a mesma familiaridade, porque essa identificação nunca se perde.
Nesta última crônica de 2020, ano marcado por tantas perdas, quis deixar essa mensagem sobre os amigos. Falar de amigos é também falar de esperança, porque se eles são fundamentais ao longo da vida, mais ainda se tornaram no decorrer da pandemia, mesmo através das telas e dos áudios. Cada um e à sua maneira teve seu papel para nos trazer até aqui. Amigos de verdade demoram para ser descobertos. Eles não são escolhidos, acontecem e perduram para além do tempo, do espaço e do que mais houver!

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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