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‘Vai uma balinha para adoçar a vida?’

Por Marcos Araújo

24/12/2020 às 07h00 - Atualizada 23/12/2020 às 17h14

Quando me sentei no banco de trás do veículo de transporte por aplicativo, o rádio tocava Dancing Queen, um sucesso setentista da banda sueca Abba. O volume do som estava alto, mas foi diminuído, e ouvi a voz da motorista em tom de felicidade:

– Boa tarde! Vamos para o Centro, certo?

Eu afirmei que sim, e ela logo em seguida:

– Vai uma balinha pra adoçar a vida?

Eu aceitei. Era um dia daqueles em que a vida precisava ser adoçada. O sabor era de menta. Sem qualquer pergunta, ela me disse que se chamava Mariléia. Alto-astral, a condutora passou a primeira e engatou na conversa, enquanto descíamos a Alameda Pássaros da Polônia:

– Trabalhei 20 anos em escritório. Era a mesma chateação todos os dias. Cobranças, intrigas do pessoal, falta de empatia. Um belo dia acordei decidida: essa vida não é mais pra mim. Fui até lá. Entrei na sala do meu chefe e pedi demissão. Simples assim! Depois disso, há dez meses, estou trabalhando como motorista de Uber. Você vai achar que sou louca, mas não. Eu queria ser dona de mim, do meu próprio tempo. Está certo que no fim do mês, às vezes, as contas não fecham. Na época do escritório, o salário chegava direitinho, mas eu não estava feliz! Também não sou tola de dizer que aqui atrás do volante navego num mar de rosas, mas pelo menos sou a senhora do meu nariz. De vez em quando, fico nervosa com gente folgada. Parei de fazer corrida pra buscar passageiro no supermercado. Meu tipo de transporte é pra gente e não pra carregar compras. E quando a pessoa acha que eu tenho que abrir o porta-malas e eu mesma guardar as mercadorias? Ultrajante! Por isso, se a chamada é para um supermercado, eu recuso!

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Para ser educado e mostrar que eu não a estava ignorando, tentei iniciar uma conversa. Mas foi em vão. Ela não parava de falar, não dava brecha para que eu introduzisse um assunto. Mariléia continuou:

– Eu adoro animais, mas também não faço mais esse tipo de transporte. Eles sujam o carro! E quando pegava outra pessoa, em seguida, sempre tinha reclamação. Decidi parar! Olha que maravilha! Eu estou no controle! Sabia que eu gosto de trabalhar à noite e não tenho medo? As pessoas acham que, por ser mulher, fico insegura. Mas, não! E, justamente por ser mulher, sou muito requisitada pra atender jovens, no período noturno. Elas se sentem mais seguras comigo! É bom saber que eu transmito segurança pra elas!

O carro avançava pelas ruas, e a motorista não deixava a palavra morrer:

– Sabe, moço, a vida é um sopro. Se num instante estamos vivos, no outro, quem é que sabe? Um destrambelhado pode avançar o sinal, de repente, e era uma vez a Mariléia! Quando trabalhava no escritório, lidava com tantos problemas, que pensava que um dia iria enfartar. Sei dos riscos que corro dirigindo neste trânsito caótico e também não vou passar o resto da vida como motorista da Uber. Essa é uma fase de transição! Durante anos, fiz muito esforço tentando ser eu. Matando um leão por dia para também ser aquilo que as pessoas esperavam de mim. Aquela que era sempre produtiva, tentando provar que nada era impossível e tudo só dependia de minha vontade própria. Eu me autoexplorava e me consumia. Resolvi mudar meu foco em busca da tal felicidade! Tá pensando que sou psicóloga, né, moço?

Eu apenas dei um sorriso sem graça! As palavras delas tiveram efeito em mim. Não houve mais nenhuma fala até chegar ao meu destino. Antes de desembarcar, ela, muito simpática, ainda disse:

– Foi um prazer transportar você, moço!

Agradeci também com simpatia. Eu saí, mas já não era o mesmo que tinha entrado naquele carro. Se a intenção da motorista-filósofa-psicóloga era adoçar minha vida com aquela balinha, ela conseguiu!

Marcos Araújo

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