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Minha 1ª Travessia: Petrópolis X Teresópolis


Por Guilherme Arêas

16/03/2016 às 07h00

Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle
Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle

Eu sou a Camila Coubelle, uma publicitária que ama viajar e estar em contato com a Natureza. Eu compartilho minhas histórias de viagens no meu blog, o Vida Sem Paredes, e muitas delas são para o meio do mato. Eu explico! Vou contar sobre uma experiência que me fez cair de amores para sempre pelo trekking, um estilo de caminhada ao ar livre que oferece contato com a natureza e uma maravilhosa sensação de superação pessoal. Tudo começou com a Travessia Petrópolis x Teresópolis, na Serra dos Órgãos. A convite de alguns amigos, aceitei, sem pesquisar muito a respeito, e, quando comecei a fazer isso, bateu aquele frio na barriga: todos os relatos na internet diziam que era nível hard. Entrei para uma academia no dia seguinte e hoje eu percebo que o trekking começou a impactar minha vida de forma positiva a partir daquele dia.

O destino, Serra dos Órgãos, fica aqui bem pertinho de Juiz de Fora, em uma área de 20.024 hectares, com mais de 200 quilômetros de trilhas entre os municípios de Teresópolis, Petrópolis, Magé e Guapimirim. A famosa Travessia Petrópolis – Teresópolis é considerada clássica e uma das mais bonitas do país. Com cerca de 30 quilômetros, atravessa mais ou menos oito vales cheios de desníveis pelas montanhas que ganharam esse nome por causa da semelhança dos seus picos com tubos de órgãos de igreja. E quem nunca ouviu falar no Dedo de Deus, o pico mais famoso de lá?

Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle
Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle

Depois da academia, o segundo passo foi comprar os equipamentos. É preciso ter mochila cargueira, saco de dormir, roupas adequadas e um monte de coisas para evitar os perrengues que, ainda assim, podem acontecer.

No feriado de Corpus Christi, saí bem cedinho para Petrópolis, onde encontraria, na portaria do parque, meu grupo de amigos e o guia que contratamos. Começamos a subir por volta das 9h30, e o plano era caminhar uma hora e descansar 10 minutos até o destino final do dia, um abrigo de montanha com banheiros e cozinha, onde a gente pode acampar ou dormir em quartos coletivos. Nem preciso contar que passei o maior aperto. Era sempre a última da fila, não tinha ar que me acudisse e a subida não acabava nunca. Olhei no relógio e tinha andado 15 minutos. Faltavam 45, da primeira parte de sete. Mas quando começamos a ganhar altitude, a visão mudou. As montanhas adquiriram contornos mais expressivos, tudo começou a ficar mais bonito, injetando um gás de motivação. Eu fiz algumas das fotos mais bonitas das minhas viagens. Fotos pra lá, fotos pra cá, depois de quatro horas de caminhada, começou a chover. O guia pediu para andarmos mais rápido e avisou que não íamos mais fazer paradas. Eu mal tinha entrado no ritmo e já tive que “passar de nível”! E ainda faltava o trecho mais íngreme do dia, conhecido como Isabeloca, em homenagem a uma suposta passagem da princesa Isabel pelo local em lombo de mula.

Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle
Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle

Chegamos ao abrigo às 17h30, e a chuva não parou mais. Aos pés do Castelo do Açu, uma interessante formação rochosa com uma gruta, o frio ficou cada vez mais forte, e o banho tinha que ser de cinco minutos. Mas depois de trocar de roupa e comer algo quente, senti uma felicidade genuína. Até ali, estava tudo bem. Eu estava conseguindo! Nem a dor nas pernas me tirou esse sentimento e apaguei pouco depois das 20h sem lembrar que o segundo dia era o pior.

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No dia seguinte, saímos cedo, e as subidas eram menos intensas, por muito tempo em lajes de pedras. A má fama do segundo dia vem de duas passagens complicadas na travessia. A primeira é chamada de Elevador e se trata de uma escada improvisada de ferros por 50 metros de altura em uma montanha íngreme. Foi tenso. Minhas pernas curtas acharam mais difícil do que todo mundo. A outra passagem, o Cavalinho, é considerada a mais complicada e requer muita atenção, pois fica ao lado de um precipício. É uma subida só alcançada com corda e com uma jogada da perna por cima da pedra, como se a gente estivesse montando um cavalo. Bom, pelo menos não choveu! Chegamos ao abrigo e tivemos mais uma noite muito agradável. A temperatura fica abaixo de 0º, mas, com as roupas adequadas, não se sente frio. Esse tipo de abrigo é muito legal. As pessoas são solidárias umas com as outras, alguns se reencontram ali e relembram momentos de outras travessias, e todos têm histórias legais para contar. Fiz alguns amigos de várias partes do Brasil.

Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle
Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle

No terceiro dia, acordamos de madrugada para chegar ao ponto culminante da serra, a Pedra do Sino, com 2.275 metros de altitude. A gente testemunhou o Sol nascer lentamente, com um laranja intenso que compensou todo o esforço. Dali para frente, foi moleza, eu já estava me sentindo mais segura e era só descida. Uma longa e interminável descida.

No fim, você se sente esgotado, dolorido e com uma fome gigante. Mas também se sente vitoriosa, mais forte, mais concentrada, mais disposta e um tanto de outras coisas que só essas experiências ensinam a gente. E com uma sensação única de que você é capaz de ir sempre mais além.

Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle
Foto: Aqruivo pessoal / Camila Coubelle

O parque tem 462 espécies de aves, 105 de mamíferos, 102 de anfíbios, 81 de répteis, mais de 500 de invertebrados e protege 120 espécies ameaçadas de extinção. Mas cuidado! Tem um mosquito ainda pouco estudado lá. Dizem que ele pica sem a gente perceber e faz voltar para casa esgotada, mas preparando a lista das “1000 travessias ao redor do mundo para fazer antes de morrer”.

Camila Coubelle, publicitária
vidasemparedes.com.br

 

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