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Um roteiro pautado na força de mulheres contemporâneas

Da Itamaracá, em Pernambuco, da cirandeira Lia, à Lisboa da cantora Madonna, confira os destinos


Por Talita Marchao AE

11/03/2020 às 07h00

Tejo Bar, no coração da boemia de Alfama, o bairro mais antigo de Lisboa, é frequentado por Madonna (Foto: [email protected])

São Paulo – Pensar em roteiros inspirados em mulheres fortes logo traz à tona memórias sobre Frida Kahlo, Anne Frank, Cora Coralina, entre outras. Mas não é só no passado que é possível encontrar inspiração para percorrer o mundo. A proposta aqui é conhecer lugares por onde passaram mulheres contemporâneas, que seguem transformando os espaços por onde passam e empoderando outras mulheres.
Lia de Itamaracá tornou a ciranda tão famosa no Brasil que não é mais preciso ir a Pernambuco para ver suas apresentações: há shows por todo o país. No entanto, viajar coloca o visitante em contato com a cultura local, convida a entrar na roda com os moradores e a dançar, como Lia explica, “com o pé esquerdo”.

Nina Pandolfo conquistou espaço na arte de rua – área dominada por homens – e exibe obras impressionantes no mundo todo. Meghan Markle e Michelle Obama, ambas americanas e negras, enfrentam o racismo e inspiram meninas e mulheres, cada uma à sua maneira: como ex-primeira dama e atual influenciadora ou rompendo com a realeza. E a sempre contestadora Madonna, que aos 61 anos mostra que sempre é possível aprender – e ensinar – algo novo. Dá até para cruzar com ela curtindo um fado em Lisboa.

Lia e a ciranda de Itamaracá

Aos 76 anos, Lia de Itamaracá, ou Maria Madalena Correia do Nascimento, é a mais famosa cirandeira do Brasil. A dançarina, cantora e compositora pernambucana é a rainha da ciranda e considerada Patrimônio Vivo de Pernambuco. Nos cinemas, apareceu como Dona Carmelita, a matriarca de Bacurau, que é velada no começo do filme. Lia segue ativa: lançou seu último álbum, “Ciranda sem fim”, no ano passado.
Para entender a ciranda, vale passar pela terra natal de Lia, a Ilha de Itamaracá, a 56km do Recife. Itamaracá, aliás, significa “pedra que canta” em tupi. Foi badalada na década de 1980 e hoje já não tem o mesmo brilho. Mas a Praia de Jaguaribe vale a visita: o lugar é o favorito de Lia, onde ela cresceu e vive até hoje. Ali, as rodas de ciranda costumam ocorrer no Centro Cultural Estrela de Lia, uma espécie de grande tenda – ela espera apoio estatal para melhorar a infraestrutura do local.

As rodas de Lia costumam ser anunciadas em suas redes sociais. Mas, como a ciranda é parte da cultura local, não se espante se esbarrar em um grupo cirandando por ali. Se quiser entrar na roda, Lia dá a dica: “Se dança com o pé esquerdo, como se estivesse acompanhando o balanço do mar, que vai e vem, seguindo a pancada do surdo, que dita a marcação no pé”. Ela conta que as rodas juntam as pessoas da comunidade e visitantes, “e todo mundo dança”, sem hierarquia ou liderança.

Lia deu outras dicas de lugares que merecem ser visitados na ilha. “A Praia do Sossego e o Forte Orange são muito bonitos”, conta. Ela se refere ao Forte de Santa Cruz de Itamaracá, construído por holandeses em 1631, posteriormente ocupado por portugueses, que deram o nome que é adotado até hoje.

Para ver e dançar ciranda no Recife, Lia indica o Pátio de São Pedro, onde são realizados eventos de música e dança. O espaço tem bares e restaurantes para comer e tomar cerveja – ali ficam também os memoriais para Chico Science e Luiz Gonzaga.
Em Pernambuco, ciranda é coisa séria e tem até data comemorativa: 10 de maio. E como a ciranda se transformou em algo orgânico, é comum que qualquer show se transforme, em algum momento, em uma ciranda imensa. É lindo de ver.

Madonna e sua versão lisboeta

Ícone do feminismo, da sexualidade e da diversidade, Madonna vive mais uma fase de sua carreira como cantora desde que se mudou para Portugal. Ela passou a viver em Lisboa em 2017 por causa do filho, David Banda, que joga no time de base do Benfica, e agora está em turnê pela Europa. Ainda não se sabe se a diva manterá o lar na volta dos shows. Mas o último álbum dela, o Madame X, tem influências da música portuguesa e de Cabo Verde, e seu show exibe referências do fado ao batuque cabo-verdense. Ela ainda canta em inglês, espanhol e português.

Se Portugal mudou Madonna, a cantora também deixou sua marca nas terras lusitanas. Ela é vista frequentemente no Tejo Bar, no coração da boemia de Alfama, o bairro mais antigo da cidade. Madonna já foi vista ali tocando piano, por exemplo. A região é um reduto tradicional do fado, e o passeio pelas ladeiras ajuda a entender a inspiração musical da musa. É onde fica também a Casa de Linhares, famosa pelos jantares acompanhados pela canção popular portuguesa. O bairro é sede ainda do Museu do Fado, no caminho do Tejo Bar, e foi cenário de um ensaio da cantora para a revista Vogue italiana.

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Cenário do documentário sobre o novo disco, o Miradouro Panorâmico de Monsanto tem uma vista de 360 graus para a cidade. Quando esteve lá, Madonna recomendou a “arte urbana” do local, que é todo grafitado. Foi construído para abrigar um restaurante que faliu. Por ser distante do centro, o lugar não era tão frequentado por turistas – agora virou parada obrigatória para os fãs da cantora. Mas tenha atenção redobrada para chegar até o mirante, já que o caminho não é bem sinalizado. Se bater dúvida, peça informações para os militares que ficam na área onde começa o caminho até o local – é possível subir andando ou de carro.

Madonna era figura carimbada no Estádio da Luz, do time do filho É possível visitar o estádio e o museu do Benfica (12,25 euros ou R$ 61). Entre os lugares mais tradicionais, Madonna também fez questão de postar no Instagram seus passeios pelo Mosteiro dos Jerônimos (10 euros ou R$ 50), onde ficam túmulos de figuras históricas portuguesas como Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa.

 

ELAS SEGUEM INSPIRANDO

Frida Kahlo
A trajetória da artista vai além da Casa Azul na Cidade do México. Há ainda o museu e as casas gêmeas de Diego Rivera e Frida

Cora Coralina
A Casa Velha da Ponte, na Cidade de Goiás, está do jeitinho que a escritora deixou e virou museu. A cidade é cheia de referências a ela

Anne Frank
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Eva Perón
A história de Evita se costura com a de Buenos Aires no século XX, seja na Casa Rosada ou no Cemitério da Recoleta

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O bairro de Camden Town, onde a cantora vivia em Londres, mantém sua memória presente em mercados e bares

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