O diagnóstico socioeconômico mais detalhado disponível sobre os moradores de áreas de risco geológico de Juiz de Fora revela um cenário marcado por baixa renda e outros indicadores de vulnerabilidade social. O levantamento do Serviço Geológico do Brasil (SGB), publicado em 2021, apontava renda média mensal de R$ 1.107,79 por domicílio, além de índices de analfabetismo e presença de idosos nessas regiões. Baseado no Censo 2010 e no mapeamento de risco de 2017, o estudo ainda é referência para compreender essa população, mas a defasagem dos dados ganha peso após as chuvas de fevereiro de 2026 e reforça a necessidade de atualização.
Além da renda, o levantamento identificou que cerca de 12% da população que vivia nessas áreas era analfabeta e 22% era formada por idosos. À época, o diagnóstico estimava que 52.495 pessoas, distribuídas em 16.436 domicílios, estavam inseridas em áreas classificadas como de risco geológico alto e muito alto, sujeitas a ocorrências como deslizamentos de terra, erosões e afundamentos de solo.
O técnico do SGB e autor do diagnóstico, Julio Cesar Lana, ressalta que os números, entretanto, não representam necessariamente o cenário atual de Juiz de Fora. O diagnóstico socioeconômico foi elaborado a partir do cruzamento entre o mapeamento de áreas de risco realizado pelo SGB em 2017 e os dados do Censo 2010, que eram os mais recentes disponíveis quando o estudo foi produzido.
Segundo Lana, a defasagem não invalida o levantamento, mas exige cautela na interpretação dos números. As mudanças ocorridas na ocupação urbana e no perfil da população ao longo dos últimos anos podem alterar tanto a quantidade de pessoas expostas quanto às características socioeconômicas dos moradores dessas áreas. Por isso, uma atualização permitiria identificar com maior precisão quem são as pessoas atualmente expostas aos riscos e quais são as condições em que vivem.
Conforme o pesquisador, os mapeamentos de risco retratam as condições existentes no momento em que são realizados e precisam ser atualizados periodicamente, já que as áreas podem sofrer alterações tanto pela ocorrência de chuvas quanto pela ação humana.
“Todo o trabalho de mapeamento de áreas de risco, de diagnóstico de risco geológico, independentemente se é o SGB que fez, ou outra instituição, ou a própria Defesa Civil, ele reflete o momento da sua realização. Ele é como se fosse uma fotografia que foi tirada naquele momento e ele deve ser, periodicamente, atualizado”, explica.
O especialista afirma, porém, que o diagnóstico continua tendo utilidade como subsídio para a atuação do Poder Público. “A intenção da publicação desse trabalho é que ele sirva de um subsídio, de uma base para que o Poder Público utilize isso para melhorar as condições de segurança no que diz respeito à prevenção de desastres dessas áreas”, afirma.
Ocupação do território reflete desigualdade social
Em 2010, quando os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) utilizados no diagnóstico foram coletados, o salário mínimo era de R$ 510. A renda média de R$ 1.107,79 correspondia, portanto, a cerca de 2,2 salários mínimos da época. O valor, no entanto, não pode ser tomado como referência para a renda atual dos moradores, já que o levantamento utiliza dados de mais de uma década atrás.
Ainda assim, Para Lana, o dado ajuda a evidenciar um padrão histórico de vulnerabilidade social associado à ocupação de áreas de risco, como afirma o técnico da SGB. Segundo ele, as regiões mais seguras e adequadas à ocupação tendem a ser valorizadas à medida que os municípios crescem, restringindo o acesso da população de menor renda. “A população que chega depois, e uma população de baixa renda, ela fundamentalmente tem que ocupar regiões mais impróprias para habitação.”
O técnico ressalta que muitas dessas áreas são ocupadas há décadas e não são resultado apenas da expansão urbana recente. “Não necessariamente a população que reside em uma área de risco, reside porque quer, mas porque, historicamente, é a área que ela tinha para ocupar e conseguia pagar”, analisa.
PJF afirma que usa dados do SGB e realiza novo mapeamento
O total de moradores em áreas de risco geológico utilizado atualmente pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) é o mesmo apresentado pelo SGB. Segundo a Administração municipal, o mapeamento vem sendo construído de forma contínua desde 2021, com a adoção da metodologia Gides, desenvolvida pelo Serviço Geológico do Brasil em parceria com o governo do Japão. A Defesa Civil de Juiz de Fora afirma que foi a primeira do país a aplicar esses parâmetros.
Além do risco geológico, o levantamento municipal também contabiliza aproximadamente 76 mil pessoas vivendo em áreas de risco hidrológico, que incluem enchentes, inundações, enxurradas e alagamentos.
Dos 540.756 habitantes de Juiz de Fora na época, 128.946 viviam em locais de risco, o que equivalia a 23,7% da população e colocava o município em 9° lugar entre as cidades brasileiras com maior população em áreas de risco. Os números são os mesmos desde 2017.
Desde a base utilizada pelo diagnóstico socioeconômico, a população de Juiz de Fora também mudou. O município tinha 516.247 habitantes no Censo 2010 e, segundo a estimativa mais recente do IBGE, alcançou 567.730 moradores em 2025, o que representa um aumento de aproximadamente 10%. A mudança populacional ocorreu ao mesmo tempo em que o território passou por novas ocupações e transformações.
Questionada pela reportagem sobre a atualização desses dados após as fortes chuvas deste ano, a PJF informou que está em andamento um novo mapeamento, por meio da atualização do Plano Municipal de Redução de Riscos de Desastres. O trabalho é realizado com recursos do Governo Federal através de uma empresa contratada pelo Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS). O Poder Público disse ainda que as atividades foram iniciadas em 2025, com prazo previsto de 18 meses para conclusão.
“Os trabalhos são conduzidos de forma independente pela equipe técnica responsável pela elaboração do plano, com fiscalização de equipes da Defesa Civil municipal. Até o momento, algumas etapas previstas para a elaboração do plano já foram realizadas, entre elas o levantamento topográfico e voos com drones”, destaca a nota.
Em paralelo a este trabalho, a Defesa Civil municipal disse que realizou um novo mapeamento do Bairro Bom Clima e atualizou o documento da região do Vivendas da Serra. Os resultados encontrados não foram divulgados para a reportagem.
Ferramentas e prevenção de riscos
Apesar da necessidade de atualização dos dados, Lana avalia que Juiz de Fora dispõe de um conjunto de estudos técnicos voltados à prevenção de desastres. Segundo o pesquisador, além dos trabalhos realizados pelo SGB, o município desenvolveu iniciativas próprias e mantém uma Defesa Civil que, na avaliação dele, é atuante.
“É um município que está munido de estudos técnicos para prevenção de desastres”, afirma. Para Lana, a existência de diferentes instrumentos, como mapeamentos de risco, cartas de perigo e estudos voltados ao planejamento urbano, oferece ao poder público elementos para orientar ações de prevenção.


