
O setor da agricultura foi fortemente afetado pelo fevereiro mais chuvoso dos últimos 65 anos, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Foram registradas perdas em plantações locais e impactos na produção rural, com ao menos 109 produtores rurais, segundo a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), atingidos pelas chuvas intensas, que comprometeram lavouras, dificultaram o escoamento da produção e provocaram prejuízos em diferentes regiões do município.
Um levantamento realizado pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Agrário (SDA), contabilizou danos nas Zonas Leste, Norte, Nordeste e Sudeste. Entre os problemas estão a perda de hortaliças folhosas e de equipamentos de irrigação devido às inundações. As áreas de olericultura — ramo da horticultura dedicado ao cultivo de plantas herbáceas, como hortaliças, legumes e verduras — afetadas totalizam cerca de 25 hectares.
A região com maior estrago foi a do Bairro Linhares, Zona Leste, onde choveu cerca de 147,1 milímetros em poucas horas no dia 23 de fevereiro, de acordo com a Defesa Civil. Ao todo, 67 produtores foram atingidos, perdendo cultivos que totalizam uma área de 11,28 hectares.
‘Não dá pra ficar esperando’
O produtor rural Marcos Rogério Toledo, que vive e trabalha na Zona Norte, está entre os agricultores que acumulam prejuízos após as chuvas. Ele se dedica à produção familiar de hortaliças e legumes, mantendo uma tradição que existe desde que nasceu. “Comecei com 12 anos na horta. Completei o Ensino Médio e preferi ficar com meu pai aqui. Nós nunca tínhamos enfrentado esse acúmulo de chuva assim”, conta ele.
As chuvas atingiram 90% da plantação que tinha, na terceira semana de fevereiro em que o volume pluviométrico foi maior. Mas, como conta, em todo o mês a plantação sofreu com o acúmulo de água. A região em que Marcos mora contabilizou dez produtores com prejuízos, com a maior parte das plantações afetadas localizada justamente no seu bairro, Barreira do Triunfo. Os danos foram diversos: um barro amarelo agarrado nas plantações, muitas delas completamente arrancadas e a parte mais alta da horta com fungo e bactérias devido ao solo encharcado.
E esse não foi o único prejuízo que teve. Além de não ter conseguido levar a produção para venda, também teve problemas na sua estrutura, já que a estrada invadiu o terreno e deixou pedras e cascalhos na área. Equipamentos como motores de irrigação e micro trator também foram atingidos, e estão dificultando que ele consiga planejar como retomar o ritmo que estava acostumado antes. “Já estou precisando plantar, já estou precisando arrumar a terra e os motores…Vou ter que contar com as minhas finanças, tentar um empréstimo. Não dá para ficar esperando.”
Produção local é usada para atender famílias desabrigadas
Questionada pela reportagem, a Prefeitura de Juiz de Fora, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA), afirma que tem prestado suporte direto aos produtores atingidos pelas chuvas. A pasta disse que, inicialmente, realizou o levantamento das perdas, que incluem os dados citados nesta matéria. Em seguida, os produtores encaminharam à secretaria demandas como necessidade de aquisição de mudas, insumos e equipamentos. Segundo a SDA, a compra desses itens já está sendo tratada junto ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
No campo da comercialização, a Prefeitura disse que, no início de março, viabilizou a compra de 4,39 toneladas de alimentos, como verduras, legumes e ovos, que não foram perdidos. Os produtos foram destinados ao preparo de refeições para famílias desabrigadas e desalojadas, medida que, segundo o Executivo, contribuiu para garantir renda aos produtores e oferecer apoio social às pessoas afetadas pelas chuvas.
Logística afetada e alerta para próximos meses na Ceasa
Além dos impactos nas propriedades rurais, a Tribuna também esteve na Ceasa em Juiz de Fora para entender os reflexos das chuvas na comercialização. Na avaliação do gerente da unidade, Renato de Melo, os impactos ainda não foram sentidos de forma significativa, principalmente porque muitos revendedores são de outras cidades da Zona da Mata, como Barbacena, onde as chuvas não causaram tantos estragos desta vez, o que evitou impactos imediatos no abastecimento.
No entanto, no entreposto, comerciantes relataram que, embora grande parte dos produtos venha de outras regiões, já é possível observar redução no volume de mercadorias e queda nas vendas. Ao conversar com representantes de produtores rurais e lojistas, a reportagem também identificou uma preocupação com uma possível mudança de cenário nos próximos meses, diante dos efeitos acumulados das chuvas na produção.
O presidente da Associação dos Produtores Rurais da Zona da Mata, Lucas Barbosa, mantém seu cultivo em Tocantins, cidade próxima a Ubá — onde as chuvas também deixaram inúmeros estragos — e comenta que, assim como ele, diversos produtores da região lidam com prejuízos no campo, que resultaram no atraso do calendário de plantio. “Choveu muito e não deu para plantar. Agora que a chuva parou, a gente está começando a preparar a terra. O que era para colher em abril, vai ficar para junho”, explica.
Segundo ele, o ciclo de produção, que normalmente dura cerca de seis meses, deve ser reduzido pela metade neste ano. “A gente vai colher menos, porque vai ter menos tempo. De 100%, vamos colher uns 50%”, afirma. A situação também refletiu na oferta de produtos no mercado, contribuindo para a alta de preços.
Do lado dos lojistas, o principal impacto foi na distribuição. De acordo com o representante da categoria, Victor Gomes, as chuvas dificultaram tanto a chegada quanto a saída das mercadorias. “Teve dia que o caminhão não conseguia sair para fazer entrega por causa das rotas afetadas”, relata. Ele também destaca que alguns fornecedores tiveram perdas expressivas, chegando a entregar apenas uma parte do volume habitual.
Apesar de o abastecimento ter sido mantido com produtos vindos de outras regiões, os dois representantes apontam preocupação com os próximos meses, já que os efeitos das chuvas na produção tendem a impactar o mercado de forma mais prolongada.
Itens como o jiló e a abobrinha já tiveram aumentos expressivos. A caixa do jiló, que costumava ser vendida entre R$ 50 e R$ 60, chegou a R$ 90. Já a abobrinha brasileira alcançou cerca de R$ 100 a caixa, quase o dobro do valor habitual. Com a elevação dos preços, os produtores enfrentam dificuldades nas vendas. “A venda travou em fevereiro e março. Caiu mais da metade”, relata Lucas. Há 13 anos comercializando no Ceasa de Juiz de Fora, ele diz nunca ter vivenciado uma situação tão difícil.
Com os eventos extremos cada vez mais frequentes, o trabalhador diz, com desânimo, que não é mais possível ter um planejamento da produção. “Está ficando cada vez mais difícil para a gente que trabalha no campo. Cada ano tem uma mudança, não sabemos mais o que fazer.”
Eventos climáticos afetam preços
Essa recorrência dos eventos climáticos extremos também afeta a oferta e o preço final dos alimentos. Como explica o economista e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Weslem Faria, no caso das lavouras temporárias, esses efeitos chegam com ainda mais força, porque as hortaliças são mais suscetíveis a mudanças e eventos climáticos extremos, causando perda instantânea na produção de alface, couve, salsinha e cebolinha, entre outros.
O mesmo ocorre com produtos como tomate e repolho, também de culturas temporárias. “Temos uma redução da oferta no curto prazo, e isso tende a ser percebido no ajuste de preço imediato. Às vezes, é difícil chegar produtos de outras regiões, porque a substituição não é imediata”, explica ele sobre o panorama atual. Apesar da produção nos municípios vizinhos não afetados ajudar a amenizar os preços até que a produção seja restabelecida e a oferta volte aos patamares iniciais, os efeitos podem ser sentidos pelos consumidores.
O prejuízo gerado pela dificuldade de abastecimento da população é uma problemática, mas a recuperação desses produtores é outra. Para ele, é preciso de ações do governo municipal, estadual e federal para que isso ocorra, tendo em vista que os produtores que ficam sem conseguir produzir e vender durante esse período precisam de compensações e programas específicos de crédito. Ele exemplifica como ocorre, por exemplo, com o seguro agrícola e créditos emergenciais que já são direcionados para grandes produções no caso de perdas.

