
Viçosa, município na Zona da Mata mineira, passou a abrigar, na última terça-feira (18), o primeiro banco genético de Cannabis sativa da América Latina. Criado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), o espaço reúne 68 variedades da planta e servirá de base para pesquisas sobre seus potenciais usos medicinais, agrícolas, ambientais e industriais.
O Banco Ativo de Germoplasma de Cannabis sativa (BAGC/UFV) ocupa uma área de quase um hectare no Vale da Agronomia. O local é protegido por equipamentos de segurança e monitorado pela Vigilância da Universidade, devido às características psicoativas da planta.
Um banco de germoplasma funciona como uma espécie de acervo da diversidade genética de uma determinada espécie. As plantas são coletadas, identificadas, catalogadas e mantidas em condições adequadas para que possam ser utilizadas posteriormente em pesquisas e cruzamentos genéticos. A partir desse material, pesquisadores podem buscar características específicas, como maior adaptação a determinado clima ou solo ou maior concentração de compostos de interesse farmacêutico.
Na UFV, a experiência com esse tipo de estrutura é anterior ao projeto envolvendo a cannabis. A universidade mantém bancos de germoplasma de diferentes espécies e abriga, por exemplo, o Banco de Germoplasma de Hortaliças, considerado o mais antigo do país, criado em 1966.
O projeto começou a ser articulado ainda nos anos 2000 e ganhou respaldo jurídico para sua implementação em 2024, quando medidas judiciais permitiram a criação do banco no campus. O projeto recebeu apoio financeiro da empresa Cannabreed Technology Brasil Ltda., por meio de um convênio com a universidade.
Banco já reúne 68 variedades
O acervo do BAGC/UFV conta atualmente com 68 variedades provenientes da biodiversidade brasileira. A meta é chegar a 500, incluindo exemplares de outros países.
O material genético já vem sendo utilizado em pesquisas. Segundo o curador do banco, Derly Henriques da Silva, professor do curso de Agronomia, atualmente há 24 experimentos agronômicos em andamento, abrangendo diferentes áreas do conhecimento. “Tudo começa conhecendo a variedade das plantas e os diferentes potenciais que podem ter para diferentes interesses”, afirma o especialista.
A expectativa é que o banco também contribua para o desenvolvimento de novas tecnologias e para a criação de empresas de base tecnológica na região de Viçosa.
Potencial da cannabis vai além do uso medicinal
A cannabis é conhecida principalmente pelos compostos presentes em suas flores, os canabinoides, que despertam interesse da indústria farmacêutica e já são utilizados em medicamentos comercializados em diferentes países.
Mas as possibilidades de utilização da planta vão além da área medicinal. As sementes possuem proteínas e óleos que podem ser aproveitados pelas indústrias alimentícia e farmacêutica. Já o caule e as folhas podem fornecer fibras de cânhamo, utilizadas na produção de roupas e materiais de construção.
A planta também apresenta características que chamam a atenção para aplicações ambientais e agrícolas. De acordo com Derly, suas raízes profundas podem contribuir para a proteção do solo e seu rápido crescimento permite avaliar o cultivo em sistemas consorciados com outras culturas, inclusive durante períodos de entressafra — intervalo de tempo entre o fim da colheita de uma safra e o início do próximo plantio.
O professor também destaca a capacidade de produção de biomassa da cannabis e seu potencial relacionado ao sequestro de gases de efeito estufa. A partir da diversidade genética preservada no banco, pesquisadores poderão investigar quais variedades apresentam características mais adequadas para cada finalidade.
Para ampliar o cultivo da planta no Brasil, no entanto, ainda são necessários estudos sobre sua adaptação às condições nacionais. Derly explica que muitas variedades utilizadas atualmente para fins medicinais são sensíveis ao fotoperíodo e precisam de suplementação de luz para crescer em determinadas regiões brasileiras. Ele compara o desafio ao enfrentado pela soja, que inicialmente era cultivada apenas no Sul do país e, após pesquisas sobre adaptação ao fotoperíodo, passou a ser produzida de Norte a Sul.
“A expectativa é que o Banco de Germoplasma, contendo uma grande variedade genética, seja como uma grande avenida que leva a diferentes caminhos, envolvendo várias áreas da ciência. Celebramos hoje o início de uma jornada cheia de possibilidades”, afirmou Derly durante a inauguração.
