Durante o trajeto pela Avenida Itamar Franco ou pela Avenida Rio Branco, poucos motoristas e pedestres imaginam que, sob o asfalto e o concreto, continuam correndo rios e córregos que fizeram parte da formação de Juiz de Fora. Ao longo de mais de um século de urbanização, cursos d’água foram canalizados, cobertos e incorporados à malha viária da cidade, transformando a paisagem e alterando a dinâmica ambiental urbana. Segundo especialistas, esse processo também ajuda a explicar parte dos alagamentos e inundações registrados há décadas em diferentes regiões do município. Para entender onde estão esses cursos d’água ocultos e quais são os impactos de sua canalização, a Tribuna conversou com geógrafos que estudam a formação e a dinâmica urbana de Juiz de Fora.
Segundo o professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Pedro Machado, o processo começou ainda no século 19, quando a cidade deixou de se concentrar na margem esquerda do Rio Paraibuna e passou a ocupar a margem direita, acompanhando a abertura da Estrada do Paraibuna pelo engenheiro Heinrich Halfeld, atual Avenida Barão do Rio Branco, e deixando o Caminho Novo, que correspondia à Avenida Sete de Setembro. De acordo com o pesquisador, a solução adotada ao longo do desenvolvimento urbano foi a supressão dos cursos d’água, considerados obstáculos ao crescimento da cidade.
“Era uma área mais plana, mas também correspondia a uma planície de inundação, cheia de atoleiros, brejos e lagoas, tudo nutrido por muitos cursos d’água, os córregos. À medida que se dava o processo de ocupação, mais a população se colocava diante de um novo problema: as inundações periódicas, do Paraibuna e de seus afluentes urbanos, sobretudo o córrego Independência”, explica.
Onde estão esses cursos d’água?
Hoje, diversos rios e córregos permanecem escondidos sob ruas e avenidas. Entre os exemplos mais conhecidos está o córrego Independência, que corre sob grande parte da Avenida Itamar Franco. Sua nascente ainda pode ser observada dentro da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mas, a partir dali, o curso desaparece sob a infraestrutura urbana.
O geógrafo Matheus Cremonese destaca outros cursos d’água canalizados, como os córregos Tapera, no Bairro Santa Terezinha, e Matirumbide, nas proximidades da Avenida Governador Valadares, no Manoel Honório. Mais recentemente, intervenções ligadas à BR-440 também resultaram na canalização parcial do córrego São Pedro.
Além dos córregos, áreas alagadas históricas desapareceram do mapa. Um dos casos citados por Machado é a Lagoa da Gratidão, que ocupava cerca de cinco hectares onde hoje está o Largo do Riachuelo, no Centro. Outra lagoa existia na região do atual Bairro Bom Pastor, na Zona Sul, originalmente conhecida como Lamaçal.
“Os córregos foram canalizados, colocados debaixo de grossas camadas de concreto e asfalto, invisíveis aos olhares. A atual Avenida Independência, por exemplo, se estabelece, em grande extensão, sobre o córrego Independência, que nasce dentro da universidade, local onde ainda pode ser visto. Depois de lá, é como se não existisse”, analisa Machado.
O que a cidade perdeu
Para os especialistas, o enterramento dos rios trouxe consequências que vão além da mudança da paisagem. Segundo Cremonese, a canalização e o tamponamento dos cursos d’água comprometem a vida aquática ao reduzir a oxigenação, impedir a entrada de luz solar e prejudicar os processos naturais de autodepuração da água.
“Quando o efluente/esgoto ainda é lançado in natura em suas águas, esses corpos hídricos tornam-se locais inóspitos e altamente propícios ao processo de eutrofização. O simples fato de substituir solo e vegetação ciliar por concreto já afeta profundamente o ecossistema. Quando o rio é totalmente fechado, perde-se o habitat de diversas espécies animais e vegetais e, consequentemente, a qualidade da água”, afirma.
Machado observa, ainda, que a ausência dos córregos na paisagem torna a cidade mais árida e contribui para o aumento das temperaturas. Além disso, o professor cita a relação com as inundações: “basta ver onde estão os pontos de alagamento mais característicos quando chuvas intensas caem sobre a cidade. As águas continuam buscando os locais para os quais elas sempre foram”.
Relação com enchentes
Embora a canalização tenha sido adotada historicamente como forma de controlar as águas, os especialistas apontam que ela não elimina os riscos de alagamentos. Segundo Cremonese, os sistemas de drenagem possuem limites definidos pelos cálculos de engenharia utilizados à época de construção. Com a intensificação dos eventos extremos de chuva e o avanço da impermeabilização urbana, esses sistemas podem se tornar insuficientes.
“Os sistemas de canalização têm, sim, limites e são pensados em cálculos de engenharia que levam em conta os maiores volumes de chuvas das últimas décadas, tendo como marco o momento de realização do projeto, pensando que este parâmetro valerá para décadas futuras. Em parte isso tem funcionado, porém diante dos eventos extremos que passamos a observar nos últimos anos, somado à grande impermeabilização da cidade, é nítido que esses cursos d’água estão querendo recuperar seu lugar natural”, explica.
Um dos exemplos é a região do Largo do Riachuelo, próximo ao encontro das avenidas Rio Branco e dos Andradas, frequentemente atingida por alagamentos e que anteriormente abrigava a Lagoa da Gratidão. Outras áreas vulneráveis citadas pelo pesquisador incluem trechos próximos ao Vale do Ipê, Mariano Procópio, Democrata e Santa Luzia.
O geógrafo afirma que se for colocado um mapa da Juiz de Fora do século 19 sobre o mapa atual será possível notar que muitas áreas que hoje sofrem com inundações coincidem com antigos cursos d’água. Na forte chuva que atingiu a cidade em 15 de dezembro de 2025, quando Juiz de Fora registrou em duas horas um terço da chuva para o mês todo, uma grande cratera se abriu na Rua Professor Francisco Faria devido à força da água da chuva, onde passa o córrego Matirumbide.
Para Machado, a explicação está na própria dinâmica natural da água. “Nas áreas urbanas, com tempestades, não são as ruas que viram rios, mas os rios que foram transformados em ruas”, resume.
É possível trazer os rios de volta?
A chamada renaturalização dos rios urbanos já é realidade em algumas cidades ao redor do mundo e consiste na reabertura de cursos d’água antes canalizados ou tamponados. Os especialistas afirmam que a medida é tecnicamente possível, mas envolve custos elevados e planejamento de longo prazo. Cremonese defende que o debate precisa começar diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas. Segundo ele, recuperar rios urbanos significa ampliar áreas verdes, melhorar a drenagem, fortalecer a biodiversidade e aumentar a resiliência das cidades frente às chuvas intensas.
Diante do panorama das mudanças climáticas revisitar, conviver e cuidar de rios urbanos será tarefa cada vez mais rotineira e pagaremos um preço elevado caso isso seja negligenciado tanto pela sociedade, quanto pelo poder público, afinal cuidar das cidades é um exercício de cidadania. A tão falada resiliência urbana, passa pelo cuidado com os corpos hídricos, que têm inclusive função de combater enchentes quando seus leitos e suas áreas de várzea se encontram devidamente estruturadas. As margens de rios urbanos podem funcionar com grandes parques lineares e como exemplo temos o Parque Birigui em Curitiba, a lagoa do Taquaral em Campinas e a proposta de renaturalização do córrego do Bixiga em São Paulo
Machado avalia que o mais importante é encontrar formas de reintegrar os cursos d’água ao cotidiano urbano. “O mais sensato seria descobrir novas maneiras de tornar os cursos d’água parte da cidade e não um inconveniente. A maior parte de nossos córregos urbanos foram tratados como pontos de lançamento e transporte de esgoto; quase sempre estão tamponados, e quando não estão, passam no fundo das casas. Essas são realidades menos difíceis de se resolver”, afirma.


