
As áreas interditadas pelas fortes chuvas em Juiz de Fora poderão ser destinadas à criação de reservas ambientais, projeta a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF). A proposta está em análise e depende da conclusão de um levantamento técnico que vai definir quais locais permanecerão impróprios para moradia. A medida foi anunciada pela prefeita Margarida Salomão (PT) durante coletiva de imprensa, realizada na manhã da última terça-feira (17).
Após tomar conhecimento do projeto, a Tribuna entrou em contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas para ter acesso a mais detalhes. De acordo com a pasta, o levantamento técnico é realizado em conjunto com a Defesa Civil de Juiz de Fora e outros órgãos, com o objetivo de mapear as áreas afetadas e identificar aquelas onde a reocupação não será possível.
A partir desse diagnóstico, a secretaria disse que pretende avaliar alternativas de uso para esses espaços, com foco na recuperação ambiental. A ideia é que regiões de maior sensibilidade, como encostas e Áreas de Preservação Permanente (APPs), possam passar por processos de recomposição vegetal, estabilização do solo e proteção dos recursos naturais.
A discussão sobre o futuro dessas áreas também deve integrar um seminário deliberativo sobre resiliência urbana, convocado pela Prefeitura, que reunirá representantes do poder público e da sociedade civil. O objetivo é debater estratégias de adaptação às mudanças climáticas, mitigação de riscos e reconstrução da cidade após os impactos dos eventos extremos recentes.
“A atuação da secretaria estará voltada para a construção de soluções ambientalmente responsáveis, que contribuam para a segurança da população, a proteção dos territórios mais vulneráveis e o fortalecimento da resiliência urbana de Juiz de Fora”, afirmou a pasta.
‘Se houver planejamento e gestão, tem tudo para dar certo’
Para entender a viabilidade da ação, a Tribuna ouviu o professor de biologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fabrício Alvim. O pesquisador esteve à frente do projeto de restauração ecológica da Fazenda Experimental da universidade, coordenou a elaboração do Plano Municipal da Mata Atlântica e desenvolve estudos voltados à biodiversidade, serviços ecossistêmicos e restauração ecológica, com ênfase em paisagens urbanas. Com base nas informações iniciais divulgadas pela Prefeitura de Juiz de Fora, ele avaliou a proposta.
“Qualquer ação de ampliação do número de reservas ambientais é válida, mas isso precisa ser feito com planejamento”, afirma. O professor destaca que ainda não há informações suficientes sobre como a iniciativa será implementada. “Eu desconheço essas áreas onde isso vai ser implementado, essa questão do terreno, se vão ser várias áreas pequenas de reserva ou uma grande área com várias propriedades desapropriadas. Então, o primeiro passo é ter um projeto para avaliarmos e, em um segundo momento, ver se isso se adequa ao próprio Plano Diretor do município e ao Plano Municipal da Mata Atlântica, onde nós definimos quais seriam as áreas adequadas para conservação e para a restauração”, explica.
Segundo ele, a criação dessas áreas exige planejamento técnico não só na implantação, mas também na fase posterior. “Uma área destinada à reserva vai precisar passar por um processo de restauração florestal. Então sou favorável à expansão de áreas ambientais, desde que sigam os critérios do Plano Diretor do município e os critérios legais para se estabelecer uma unidade de conservação”, completa.
Alvim observa ainda que não há exemplos muito semelhantes no Brasil. “Eu desconheço casos parecidos no país. Sei de situações não idênticas, mas com lógica semelhante na Europa, onde áreas residenciais destruídas durante a Segunda Guerra Mundial foram posteriormente recuperadas e transformadas em áreas ambientais — claro, em outro contexto histórico e com outras tecnologias de restauração ecológica”, elabora.
Apesar de não ter casos de transformação ambiental de áreas tornadas inabitadas por eventos climáticos no país, iniciativas de florestas urbanas já são realidade em diversas cidades brasileiras. Esses espaços — que incluem áreas verdes públicas e privadas, como parques, praças e arborização de ruas — desempenham papel fundamental na melhoria da qualidade do ar, na redução da temperatura e na mitigação de alagamentos.
O Parque Estadual da Cantareira, em São Paulo, é um exemplo disso. Considerado uma das maiores florestas urbanas do mundo, o espaço conta com cerca de 8 mil hectares de Mata Atlântica preservada. Já no Parque Nacional da Tijuca, um dos principais remanescentes florestais em área urbana, são aproximadamente 3.900 hectares. Enquanto o Parque Cinturão Verde de Cianorte se destaca como exemplo de conservação regional, com mais de 500 hectares protegidos.
Esses casos demonstram que, embora o contexto seja distinto, a ampliação de áreas verdes em ambientes urbanos é uma estratégia já consolidada e com resultados positivos no país. Em Juiz de Fora, a Mata do Krambeck, na Zona Norte, atua como um dos maiores remanescentes do bioma da Mata Atlântica em área urbana, de acordo com o Governo de Minas, com 291 hectares preservados.
Reservas ambientais precisam de gestão contínua
O pesquisador também alerta para possíveis impactos sociais e desafios de implementação. “Com certeza essas áreas terão conflitos socioeconômicos, porque vai depender muito do projeto ou dos projetos que serão feitos após o mapeamento da Prefeitura. O ideal seria termos uma grande área desapropriada e transformada em floresta, ao invés de várias pequenas manchas isoladas”, avalia.
Por fim, ele ressalta que a efetividade da medida dependerá da gestão contínua dessas áreas. “Não adianta criar uma reserva ambiental e achar que ela vai dar conta sozinha de segurar a pressão antrópica (impacto das atividades humanas sobre o meio ambiente) — não vai. É preciso fiscalização, planejamento e ampliação do quadro de profissionais da Secretaria de Meio Ambiente. Se a Prefeitura estiver disposta a fazer isso, tem tudo para ser um caso de sucesso”, conclui.
