
Em um momento em que a escassez e os eventos extremos colocam a gestão da água entre os principais desafios ambientais do planeta, Juiz de Fora será sede do 20º Congresso Brasileiro de Limnologia (CBL). Realizado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), entre os dias 20 e 24 de julho, o evento reunirá especialistas brasileiros e internacionais para discutir temas como qualidade da água, mudanças climáticas, conservação de ecossistemas aquáticos e adaptação das cidades às novas condições climáticas.
O congresso não é voltado apenas à comunidade científica, terão atividades para toda a população. Segundo o organizador do evento e professor da UFJF, Nathan Barros, serão disponibilizadas cerca de 300 vagas diárias gratuitas para visitantes, que poderão acompanhar palestras, mesas-redondas e outras atividades mediante cadastro no local. “A gente está tentando tirar essa rigidez de um evento científico e aproximar o evento da sociedade”, afirma.
Além do acesso gratuito, o congresso contará com medidas de acessibilidade, como tradução simultânea para palestras em inglês, intérpretes de Libras e audiodescrição em todas as apresentações. O evento também buscou garantir equidade de gênero e renovação geracional. “Conseguimos balancear a participação de mulheres e homens no congresso. Além disso, trouxemos a representação da juventude para dentro do evento.”
De acordo com o pesquisador, o intuito final é abrir espaço institucional para discutir o efeito do racismo ambiental nas questões hídricas e mitigar impactos históricos preexistentes.
Ciência e participação social
A programação reúne pesquisadores de diferentes países de América do Sul, Europa, Estados Unidos e Canadá, além de especialistas brasileiros considerados referências na área da gestão da água.
Entre os destaques está a mesa “Brasil rumo à Conferência Mundial da Água”, marcada para terça-feira (22). O encontro reunirá cientistas, representantes indígenas, quilombolas, mulheres, juventude e gestores públicos para elaborar propostas que serão encaminhadas à Conferência Mundial da Água.
O principal resultado esperado do congresso é a chamada Carta de Juiz de Fora, documento que deve reunir recomendações para orientar políticas públicas relacionadas aos recursos hídricos. “Eu espero que seja um documento aprovado em plenária e que traga nossas preocupações, nossas soluções e nossa visão para os tomadores de decisão”, explica Nathan.
Além da carta, o congresso também deve apresentar outros documentos técnicos relacionados ao licenciamento ambiental e à gestão de ecossistemas aquáticos.
Gestão da água para uma nova realidade climática
De acordo com a Organização Mundial das Nações Humanas (ONU), o mundo entrou na era da falência hídrica global, isso mostra que o planeta Terra já não consegue prover água para todas as pessoas em quantidade e qualidade, como explica Nathan. Quase metade da população mundial não tem acesso à água o suficiente para atender a todas as necessidades humanas.
A crise hídrica combina extremos: enchentes cada vez mais frequentes, provocadas pelas mudanças climáticas, e escassez de água de qualidade, agravada pela poluição e pela gestão ineficiente dos recursos hídricos. O resultado é o agravamento do desabastecimento em diversas regiões do mundo.
A escolha de Juiz de Fora como sede do evento, que ocorre cinco meses depois de a cidade enfrentar um dos períodos mais críticos de chuvas de sua história, também reflete essa realidade. Para Nathan, o congresso sempre trata de eventos extremos e, com o cenário da cidade, a necessidade de discutir formas de adaptação às mudanças climáticas fica ainda mais intensa.
Segundo ele, eventos extremos como o registrado neste ano tendem a se tornar cada vez mais frequentes. “O principal é os gestores entenderem que existe a necessidade de se adaptar a um cenário de mudança. Já não dá mais para pensar na água, no excesso ou na falta dela, como pensávamos dez anos atrás.”
O pesquisador destaca que o planejamento das cidades não pode mais se basear apenas no histórico climático das últimas décadas. “O futuro vai ser completamente diferente do que foram os últimos cem anos”, avalia.
Atividades para crianças e programação cultural
Além das discussões científicas, o congresso contará com o projeto Travessia Jovens de Limnologia, que receberá cerca de cem crianças por dia, entre terça e sexta-feira. Elas participarão de atividades educativas relacionadas à água e, ao final de cada dia, apresentarão os trabalhos desenvolvidos durante o congresso.
A programação também inclui apresentações musicais, saraus e estandes de parceiros. Nathan afirma que o objetivo é transformar a Praça Cívica da UFJF em um espaço de encontro entre ciência e sociedade. “Meu sonho é que a sociedade participe disso. É de graça. Basta chegar, fazer o cadastro e participar.”
Entre os convidados do congresso estão o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e curador do Museu do Amanhã, Fábio Scarano; o oceanógrafo Alexandre Turra, uma das principais referências em pesquisas marinhas no Brasil; Alex Flecker, da Universidade Cornell (Estados Unidos), que pesquisa a conectividade dos rios e os impactos das mudanças climáticas na Amazônia; Paul del Giorgio, da Universidade de Montreal (Canadá), especialista no ciclo do carbono em ecossistemas aquáticos; e Mariana Meerhoff, da Universidade da República (Uruguai), referência em estudos sobre a resiliência de ambientes aquáticos diante de eventos extremos.
