
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Viçosa (UFV) venceu a categoria Mestre e Doutor da 31ª edição do Prêmio Jovem Cientista, uma das principais premiações científicas do país. O estudo, que analisa a resiliência climática em municípios brasileiros, foi realizado pela pesquisadora Elizângela Aparecida dos Santos, de 32 anos, durante o doutorado em Economia Aplicada, sob orientação do professor Dênis Antônio da Cunha, do Departamento de Economia Rural da UFV.
A pesquisa identificou fatores que tornam alguns municípios mais preparados para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Entre eles estão o maior acesso da população ao saneamento básico, a adoção de práticas agroecológicas, a diversificação da renda entre produtores rurais, a participação em associações agropecuárias e a presença de mulheres à frente das prefeituras.
Segundo Elizângela, o estudo partiu da constatação de que grande parte das análises sobre mudanças climáticas ocorre em escalas amplas, o que deixa lacunas importantes no entendimento da realidade local.
“A vulnerabilidade climática não é homogênea: ela é local, socialmente determinada e varia conforme as características econômicas, institucionais e estruturais de cada território. Nosso objetivo foi identificar quais municípios brasileiros são mais vulneráveis e quais são mais resilientes, além de compreender os fatores que explicam essas diferenças”, afirma a pesquisadora.
O professor Dênis Antônio da Cunha destaca que, embora os efeitos das mudanças climáticas sejam sentidos em diversos setores — especialmente na agropecuária —, municípios submetidos a riscos semelhantes podem reagir de maneiras diferentes. A pesquisa buscou justamente compreender essas diferenças em escala municipal.
Para isso, a pesquisadora desenvolveu uma metodologia baseada em três componentes: suscetibilidade, capacidade de enfrentamento e capacidade adaptativa. A partir de indicadores ambientais, socioeconômicos e demográficos, foi criado um índice integrado de vulnerabilidade climática que permitiu mapear municípios mais vulneráveis e outros mais resilientes em todo o país.
Os resultados indicam que a resiliência climática não depende apenas do nível de exposição a eventos extremos, como secas ou altas temperaturas, nem exclusivamente do grau de desenvolvimento econômico. De acordo com o estudo, a capacidade de adaptação local e a qualidade das respostas institucionais e sociais têm papel central na redução da vulnerabilidade.
“Identificamos municípios altamente expostos a extremos climáticos, como secas e altas temperaturas, que, ainda assim, apresentaram baixos níveis de vulnerabilidade. Isso reforça que resiliência não é ausência de risco, mas sim capacidade de reorganização e resposta eficaz”, afirmou a pesquisadora, que também é professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), campus Unaí.
Entre as características comuns aos municípios considerados mais resilientes estão a diversificação das fontes de renda, o maior acesso à eletricidade, a participação em sindicatos e associações rurais e a adoção de práticas agrícolas conservacionistas.
Além da contribuição científica, o estudo também aponta caminhos para políticas públicas. A pesquisadora destaca que investimentos em assistência técnica rural, incentivo à agroecologia, fortalecimento institucional e planejamento territorial participativo podem reduzir a vulnerabilidade climática e ampliar a justiça climática no país.
Estudo ganhou o Prêmio Jovem Cientista
Os primeiros resultados da pesquisa foram publicados no periódico científico Journal of Environmental Science and Technology, e o índice de vulnerabilidade climática municipal desenvolvido no estudo foi disponibilizado gratuitamente pelos autores. Como reconhecimento, a tese conquistou o Prêmio Jovem Cientista.
A pesquisadora afirma que receber o prêmio é um reconhecimento de uma trajetória dedicada ao estudo das mudanças climáticas desde a graduação e reforça a importância de análises microterritoriais para enfrentar um dos maiores desafios da atualidade. “A premiação amplia a visibilidade do tema, fortalece minha atuação como pesquisadora e reafirma meu compromisso com uma ciência voltada à transformação social e à promoção da justiça climática”, concluiu.
Criado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com a Fundação Roberto Marinho, o Prêmio Jovem Cientista reconhece, há mais de quatro décadas, pesquisas que contribuem para enfrentar desafios estratégicos da sociedade brasileira. Nesta edição, o tema foi “Resposta às Mudanças Climáticas: Ciência, Tecnologia e Inovação como Aliadas”.
