Uma cidade também pode ser contada pelas árvores que atravessam suas gerações. Em Juiz de Fora, exemplares espalhados por praças, parques e outros espaços públicos ajudam a compor uma paisagem que mudou ao longo do tempo, mas que mantém algumas de suas raízes. Ipês, paineiras, sapucaias, quaresmeiras, abricós-de-macaco e outras espécies fazem parte do cotidiano dos juiz-foranos e, muitas vezes sem serem percebidas, carregam histórias sobre a formação e as transformações do município.
A frase que inicia esta matéria é do biólogo Breno Motta, que atualmente atua como diretor do Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), um dos espaços dedicados à conservação da flora no município. Para ele, olhar para essas árvores também é uma forma de reconhecer o patrimônio natural da cidade.
Com o objetivo de conhecer algumas dessas histórias e curiosidades, a Tribuna conversou com o especialista para descobrir quais árvores de Juiz de Fora merecem um olhar mais atento. Algumas chamam atenção pela raridade ou pelo porte; outras, pela idade ou por características curiosas. Há ainda aquelas que ganharam proteção especial justamente por seu significado para a paisagem e para a memória coletiva.
Entre os exemplares que podem passar despercebidos, o biólogo cita a peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron) do Parque Halfeld. Nativa da Mata Atlântica e de grande porte, a espécie sofreu com a redução de seus ambientes naturais e hoje é considerada rara em muitos remanescentes florestais. No Centro de Juiz de Fora, um exemplar representa um fragmento dessa biodiversidade em meio à paisagem urbana.
A árvore também está entre as espécies protegidas do município. Em Juiz de Fora, determinados exemplares podem ser declarados imunes ao corte quando apresentam características que justificam uma proteção especial, como raridade, porte, longevidade, valor ecológico, histórico, paisagístico ou científico.
“Ao longo das décadas, essas árvores contribuíram para construir uma paisagem reconhecida e afetivamente associada por diferentes gerações de juiz-foranos. Suas flores, frutos, formas e ciclos sazonais passaram a integrar o cotidiano e a identidade visual de Juiz de Fora, muitas vezes de maneira quase despercebida. Preservá-las é também preservar fragmentos vivos da história, da paisagem e da memória da cidade”, ressalta Motta.
Árvores que ganharam proteção
A cidade já teve dez árvores declaradas imunes ao corte. Duas delas, entretanto, foram posteriormente retiradas por apresentarem risco de queda. Entre as que permanecem estão exemplares de pau-brasil, árvore-da-chuva, palmeira imperial, sapucaia, peroba-rosa e pau-ferro.
A proteção não significa que uma espécie inteira esteja proibida de ser cortada. Trata-se da proteção de um indivíduo específico, reconhecido pelo Poder Público como excepcional. Em casos extremos, como quando uma árvore protegida apresenta risco à segurança, a legislação pode permitir a retirada mediante avaliação e autorização dos órgãos responsáveis.
“Entre os critérios mais comuns estão o porte e a longevidade, a representatividade da espécie, o estado de conservação, a importância genética e a relação com acontecimentos ou personagens históricos. Na prática, declarar uma árvore imune ao corte significa reconhecer que aquele indivíduo possui um valor que ultrapassa sua função ambiental e constitui parte do patrimônio natural e cultural de uma comunidade”, explica Motta.
No Parque Halfeld, por exemplo, estão a peroba-rosa, estimada em cerca de 90 anos, e um pau-brasil (Paubrasilia echinata) com aproximadamente um século. São exemplares que atravessaram diferentes períodos da história urbana e permanecem no cotidiano de quem circula pelo Centro da cidade. Por isso, não podem ser cortados.
Museu Mariano Procópio tem árvores com mais de 150 anos
Se o Parque Halfeld guarda árvores antigas em meio à região central, o Museu Mariano Procópio reúne exemplares que remetem ainda mais diretamente à história da cidade. A implantação dos jardins da propriedade teve início no século XIX, e a paisagem recebeu espécies que ajudaram a construir a identidade do parque.
“No Museu Mariano Procópio, sapucaias (Lecythis pisonis), paineiras (Ceiba speciosa) e outras espécies históricas podem ter mais de 150 anos, acompanhando a implantação do jardim a partir de 1861. Essas árvores são verdadeiros monumentos vivos de Juiz de Fora, testemunhas silenciosas de mais de um século de transformações da paisagem urbana”, destaca Motta.
Diferentemente de uma construção, que pode ser restaurada ou reconstruída, uma árvore histórica continua crescendo, mudando de aparência e atravessando gerações enquanto permanece no mesmo lugar. É também no Museu Mariano Procópio que está uma das espécies mais particulares da história botânica de Juiz de Fora: a palmeira de coco Mariano (Syagrus macrocarpa).
Encontrada na região no século XIX pelo paisagista francês Auguste Glaziou, a espécie recebeu inicialmente o nome científico Cocos procopiana, em homenagem a Mariano Procópio Ferreira Lage. Nativa da Mata Atlântica e encontrada em áreas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, a espécie foi utilizada por Glaziou em projetos paisagísticos do século XIX.
Espécies que marcam as estações
Nem todas as árvores históricas precisam ter centenas de anos para construir uma relação afetiva com os moradores. Algumas se tornaram parte da identidade visual da cidade justamente por suas flores e pela maneira como transformam a paisagem durante determinadas épocas do ano.
É o caso dos ipês, especialmente o ipê-rosa (Handroanthus heptaphyllus), que pode ser encontrado em ruas, praças e parques. Durante a floração, as copas coloridas mudam temporariamente a paisagem urbana e ajudam a marcar a passagem das estações.
Ipês-amarelos (Handroanthus chrysotrichus), quaresmeiras (Pleroma granulosum) e paineiras também integram esse conjunto de espécies que se tornaram familiares aos moradores. Seus ciclos de floração, queda de folhas, formação de frutos e renovação da copa fazem parte de uma espécie de calendário natural da cidade. No entanto, essa naturalidade tem se modificado. Com o avanço das mudanças climáticas, algumas dessas espécies já convivem com alterações no período de floração e na quantidade de flores produzidas.
Nomes diferentes e características curiosas
Algumas espécies chamam atenção não pela história de um exemplar específico, mas por características que despertam curiosidade. Para o diretor do Jardim Botânico, um dos nomes mais diferentes é o abricó-de-macaco (Couroupita guianensis), que recebeu esse nome por causa da aparência de seus frutos grandes e arredondados que lembram um abricó e são associados a alimentação de macacos.
A espécie também é conhecida como árvore-bala-de-canhão e guarda outra característica peculiar: a caulifloria, que é quando as flores nascem diretamente no tronco e nos galhos mais grossos, em vez de aparecerem apenas nas extremidades dos ramos.
Já o pau-ferro (Libidibia ferrea) recebeu o nome popular por uma característica ainda mais curiosa. A madeira é extremamente dura e densa e, ao bater no tronco, pode produzir um som metálico, semelhante ao de um objeto de metal sendo atingido.
Biólogo reforça importância de preservar
Para quem passa diariamente pelas mesmas ruas, uma árvore pode parecer apenas parte do cenário. Mas a existência de exemplares antigos, raros ou protegidos mostra que algumas delas adquiriram um significado que ultrapassa sua função ambiental.
Elas oferecem sombra, contribuem para a qualidade do ar, ajudam a reduzir a temperatura e servem de abrigo e alimento para diferentes animais. Ao mesmo tempo, podem se transformar em referências espaciais e afetivas: a árvore da praça, a árvore em frente à escola, aquela que floresce todos os anos ou o exemplar que já estava no local antes de muitas das construções que hoje fazem parte da paisagem.
“Quando uma árvore antiga desaparece, não perdemos apenas um organismo vivo, perdemos também parte da paisagem que testemunhou nossas histórias”, finaliza o biólogo.

