
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou na quinta-feira (11) a formação do El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que é capaz de alterar os padrões de temperatura e chuva em diversas regiões do planeta. No Sudeste brasileiro, a expectativa é de um inverno menos rigoroso e de temperaturas acima da média histórica entre o segundo semestre deste ano e o primeiro semestre de 2027, com possibilidade de ondas de calor. Em Juiz de Fora, especialistas ouvidos pela Tribuna alertam que os possíveis impactos do fenômeno chegam em um momento em que a cidade ainda não avançou na implementação de instrumentos de adaptação climática considerados fundamentais após os desastres provocados pelas chuvas de fevereiro.
Apesar da confirmação do fenômeno, ainda não é possível dizer qual será sua intensidade, fator que determinará a magnitude de seus impactos, como explica a meteorologista e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Cássia Ferreira. No entanto, nas últimas semanas, projeções para a ocorrência de um Super El Niño fizeram com que municípios brasileiros adotassem medidas de prevenção. O Governo do Amazonas decretou Estado de Emergência Climática e Ambiental, válido por 180 dias, com o intuito de preparar o estado para os possíveis impactos do El Niño. Em Santa Catarina, o estado de alerta climático também foi decretado e festas tradicionais foram canceladas.
De acordo com Cássia, os impactos do El Niño costumam ser mais significativos no leste da Amazônia, no Nordeste e na Região Sul do Brasil. No Sudeste, os reflexos tendem a estar relacionados principalmente ao aumento das temperaturas, que podem superar a média histórica. “O El Niño é classificado em fraco, moderado e forte. Houve muita especulação sobre a possibilidade de um Super El Niño, mas isso ainda não se confirmou. Os modelos climáticos ficam mais imprecisos durante as estações de transição, como outono e primavera. Teremos mais certeza sobre sua intensidade ao longo do inverno.”
Embora as projeções sejam feitas em escala regional, características urbanas de Juiz de Fora podem potencializar os efeitos do calor. De acordo com a pesquisadora, a cidade já apresenta ilhas de calor significativas, especialmente na região central, onde há pouca cobertura vegetal. “Temos uma cidade que já possui uma ilha de calor importante, principalmente no Centro, onde a presença de áreas verdes é muito pequena. Isso faz com que esse ambiente fique ainda mais quente e que as pessoas sintam mais os efeitos das altas temperaturas.”
A preocupação vai além do desconforto térmico. As ondas de calor podem representar riscos à saúde da população, sobretudo para idosos, crianças e pessoas com doenças preexistentes. “A cidade precisa se preparar. É importante disponibilizar água para a população, ampliar áreas de sombra e investir em mais árvores, praças e ruas arborizadas. Esses elementos ainda são pouco frequentes em Juiz de Fora, principalmente na região central”, afirma.
Secas severas e chuvas extremas também são esperados
Além do aumento das temperaturas, o professor do Departamento de Botânica da UFJF e coordenador do Laboratório de Ecologia Vegetal, Fabrício Alvim, alerta para os períodos de seca e o aumento da frequência e intensidade das chuvas. “O que mais me preocupa são os períodos de seca e a queda da umidade do ar, o que favorece a ocorrência de incêndios. Associado a isso, existe uma perspectiva de intensificação dessas chuvas intensas, como vimos em fevereiro deste ano.”
O professor também chama atenção para a possibilidade de ocorrência dos chamados veranicos, períodos de estiagem que surgem em plena estação chuvosa. “O problema é que a vegetação e toda a fauna associada estão adaptadas a um período de maior disponibilidade de água. Quando ocorre uma seca prolongada durante meses tradicionalmente chuvosos, isso pode levar à morte de árvores, alterar a frutificação das plantas e afetar toda a cadeia alimentar.”
Comitê climático previsto para 2025 ainda não saiu do papel
Para o professor do Departamento de Botânica da UFJF e coordenador do Laboratório de Ecologia Vegetal, Fabrício Alvim, a confirmação do El Niño torna ainda mais urgente a implementação de políticas de adaptação climática em Juiz de Fora. O pesquisador defende a criação de um Comitê Municipal de Mudança do Clima, com participação de especialistas de diferentes áreas, representantes do poder público e da sociedade civil.
A proposta está prevista no Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA), elaborado com a participação do professor, que reúne medidas de governança e adaptação climática para o município. A meta era que a instância fosse criada até 2025.
No entanto, segundo ele, isso ainda não ocorreu. Procurada pela Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) não informou em que estágio se encontra a medida nem se há previsão para sua implantação. No entanto, a PJF disse que aderiu ao programa federal AdaptaCidades e que trabalha no fortalecimento da governança climática do município.
Um plano de ação climática não pode ser pensado apenas para uma gestão de quatro anos. Ele precisa ser um plano de longo prazo, construído por uma equipe multidisciplinar e com participação de especialistas que dominem o tema, destaca o pesquisador.
A avaliação é compartilhada pela ambientalista e pesquisadora Valéria Constemalle, também integrante do Laboratório de Ecologia Vegetal. Segundo ela, a ausência de instrumentos de planejamento climático gera consequências diretas para a capacidade de resposta do município diante de eventos extremos.
Sem um Plano de Ação Climática, o município não possui inventário atualizado das áreas de risco voltado para emergências climáticas, atualização do plano diretor, e nem protocolos integrados de alerta precoce.
Valéria lembra que os alertas sobre a chegada do El Niño vêm sendo feitos há meses por especialistas e instituições de monitoramento. “Não sabemos exatamente quando as chuvas intensas vão ocorrer, mas sabemos que elas virão. A pergunta é: qual é o plano que a cidade tem para enfrentá-lo? A adaptação climática precisa ser prioridade. Não se trata de reagir a uma situação, mas de investir em infraestrutura para evitar mortes.”
Segundo a pesquisadora, a ausência de um plano climático também limita a capacidade do município de acessar financiamentos para projetos de adaptação. Ela cita que Juiz de Fora ficou fora do programa Brazil Mutirão, iniciativa voltada ao apoio técnico e financeiro para ações climáticas em cidades brasileiras.
Especialistas listam ações prioritárias
Entre as medidas consideradas prioritárias pelos pesquisadores estão a atualização do mapeamento das áreas de risco após as chuvas de fevereiro, a implantação de sistemas de alerta precoce com rotas de evacuação definidas por bairro e o investimento em soluções baseadas na natureza.
Conforme Alvim, além de intensificar as ações de mitigação dos impactos das chuvas de fevereiro, Juiz de Fora deveria avançar em um plano de arborização urbana capaz de aumentar a infiltração da água no solo, estabilizar áreas suscetíveis a deslizamentos e ampliar a drenagem natural da cidade. O pesquisador também defende a restauração de nascentes e a proteção de áreas de recarga hídrica.
Já Valéria cita exemplos de cidades como São Paulo, Niterói, Fortaleza e Recife, que vêm adotando medidas como jardins de chuva, parques lineares e ampliação da arborização urbana para aumentar a resiliência frente aos eventos climáticos extremos.
PJF afirma que avança na estruturação da governança climática
Em nota à Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que aderiu, em março de 2026, ao programa AdaptaCidades, iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima voltada ao apoio de municípios na elaboração de estratégias de adaptação climática.
Segundo a Administração municipal, a cidade participa atualmente da etapa de capacitação técnica e articulação institucional para fortalecer a governança climática e avançar na construção dos instrumentos previstos para a área.
A Prefeitura também destacou ações em andamento, como a ampliação da arborização urbana por meio do programa Cultivar o Futuro, a proteção de mananciais e nascentes pelo programa Nossa Água, a elaboração do Plano Municipal de Arborização Urbana e o monitoramento permanente de áreas de risco pela Defesa Civil.
Entre as iniciativas citadas estão ainda a adesão ao Programa Cidades Verdes Resilientes, investimentos em eficiência energética, a implantação de usinas solares em prédios públicos e a estruturação da Sala de Situação para monitoramento de eventos extremos.
A PJF afirma que a ampliação da cobertura vegetal permanece como prioridade da gestão e destaca que Juiz de Fora foi reconhecida por três anos consecutivos pelo programa Tree Cities of the World.
Além da adesão ao Programa Cidades Verdes Resilientes, a Prefeitura busca continuamente oportunidades de cooperação técnica, captação de recursos e participação em iniciativas voltadas à sustentabilidade, infraestrutura verde e resiliência urbana. Como parte desse esforço, a Prefeitura realizou, em parceria com o Grupo Tribuna, o seminário Risco Ambiental e Políticas para Resiliência: Por JF, reunindo poder público, universidades, especialistas, sistema de justiça, Legislativo, comunidades e sociedade civil.
A partir desse processo, é elaborado de forma conjunta um documento de diretrizes para fortalecer a adaptação climática e a resiliência urbana no município, com base na corresponsabilidade de diversos entes em relação ao tema.

