A empresa Ciclovidros, única responsável pela reciclagem de vidros em Juiz de Fora e na Zona da Mata, encerrou as atividades este ano. Como resultado, catadores de recicláveis da região não têm onde destinar o material, o que significa menos renda para os trabalhadores e mais lixo sem destinação adequada na cidade.
À Tribuna, a empresa informou que, em dezembro de 2024, houve a aquisição da Ciclovidros pelo grupo Ambipar, com a proposta de elevar substancialmente a reciclagem de vidro na região. No entanto, a empresa entrou em recuperação judicial e decidiu pelo encerramento das atividades. O grupo Ambipar foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até a publicação desta matéria.
Um catador de recicláveis que preferiu não se identificar diz que já notou os impactos do encerramento das atividades da empresa. “Nos condomínios onde eu pegava, eu parei de pegar, e o material foi direto pro lixo. No lixo comum, aumentou muito a quantidade de vidro. E as outras empresas pequenas, algumas eu tentei vender pra elas, mas elas não estão comprando porque não têm pra quem vender, a não ser lá pra São Paulo, o que torna inviável, porque o produto é muito barato.”
Para o trabalhador, as consequências são muitas. “Ah, eu não consigo nem calcular o impacto, porque o ambiental não tem preço, né? Se você destrói o meio ambiente, você joga um produto poluente, que fica anos no planeta, imagina o preço que custa. Não tem preço, não.” Mas os impactos não são apenas para a ecologia: o catador de recicláveis conta que um de seus amigos trabalhava apenas vendendo vidro, mas, com o fechamento da empresa, ele está sem fonte de renda. Com o veículo que usava para recolher o material na oficina mecânica, o catador não está conseguindo trabalhar.
Desafios para a circularidade
De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro), o material inorgânico é composto por uma fusão de areia (seu principal componente), outros minerais e caco de vidro, quando disponível. Se por um lado o tempo de decomposição pode chegar até um milhão de anos, por outro, o material pode ser 100% reciclado.
Mas como aponta o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Samuel Castro, o desafio da reciclagem consiste em questões logísticas e financeiras. “A logística do vidro não é fácil, porque transportar garrafas é transportar um espaço vazio. É importante ter um processamento deste vidro, normalmente feito por trituração e descontaminação, para que a gente otimize essa logística e ela se torne viável economicamente”, defende.
“Essa logística precisa ser viável porque a matéria prima para produção do vidro é muito barata, que é a areia, né? Então, às vezes, o processo produtivo do vidro fica muito mais confortável, a gente pegar a matéria-prima virgem e fazer o vidro a partir desse ciclo finito, do que a gente implementar a circularidade. Você implementar essa logística reversa tem custos e tem desafios culturais”, analisa.
O professor reforça que a reciclagem apresenta inúmeros benefícios para a sociedade, como o potencial de geração de empregos, o retorno de materiais para a cadeia produtiva, a economia de matéria-prima e recursos naturais e a diminuição do volume de lixo nos aterros sanitários. Conforme a Abividro, a circularidade do vidro também diminui a emissão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera e permite a redução do consumo energético.
Quais as alternativas?
Questionada sobre quais as alternativas para a população e para os catadores de recicláveis, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) informou que o vidro pode ser descartado normalmente por meio da coleta seletiva no município e, após o recolhimento, os resíduos são encaminhados às associações de catadores parceiras, que realizam a triagem e a destinação ambientalmente adequada dos materiais recicláveis. Questionada sobre quais associações estão recebendo o material no momento, a PJF não respondeu até o fechamento desta edição.
Também afirmou não realizar nenhum repasse financeiro às empresas privadas de reciclagem, sendo a relação estabelecida por meio de parcerias para fortalecimento da circularidade e apoio às associações de catadores. No caso de alterações no mercado local, as próprias associações possuem autonomia para buscar compradores e dar destinação aos materiais, inclusive junto a empresas de outras cidades. Informou, ainda, que esse fluxo já ocorre com diferentes tipos de recicláveis, como o isopor, que frequentemente é comercializado fora do município.
Em relação ao vidro, a orientação da PJF é que o material continue sendo destinado por meio da coleta seletiva, devidamente acondicionado e identificado, garantindo a segurança no manuseio. Para garantir a segurança dos profissionais envolvidos na coleta, é fundamental que o material esteja devidamente armazenado, preferencialmente embalado de forma segura e identificado, a fim de evitar acidentes durante a coleta.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
