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‘Eu plantei, mas é para o futuro’: aos 78 anos, morador cultiva pomar com mais de cem árvores na Via São Pedro 

pomar
Foto: Leonardo Costa
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De bicicleta, José Correia, de 78 anos, percorre o caminho até a Via São Pedro, na Cidade Alta, para cuidar de um pomar que começou a cultivar há cerca de seis anos. No local, às margens da via, estão mais de cem árvores plantadas por ele, todas espécies frutíferas. Antes de começar o trabalho, José conta que passava pelo trecho e percebia pouca presença de pássaros e outros animais. Foi a partir dessa observação que decidiu começar a plantar. 

“Eu comecei a plantar porque não tinha muito passarinho aqui. Os bichos não tinham onde comer. Aí comecei a plantar as árvores frutíferas para ter fruta para eles também”, compartilha. 

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Mangueiras, abacateiros, goiabeiras e aceroleiras fazem parte do pomar. Só de mangueiras, José conta ter plantado 52. Algumas árvores ainda são pequenas; outras já cresceram o suficiente para produzir frutos e formar sombra. 

A rotina de cuidados inclui capina e roçada ao redor das plantas. José também deixa parte do material retirado próximo às árvores, onde, segundo ele, o mato se decompõe e serve como adubo orgânico. “Eu boto o mato em volta aqui. Fica fresco. Apodrece o mato e vira esterco de adubo orgânico”, explica. 

Foto: Leonardo Costa

O seu trabalho ganhou visibilidade nas redes sociais depois que a bióloga Júlia Firjam, que atua com educação ambiental e desenvolve projeto de agrofloresta, passou pelo local durante uma caminhada pela Via São Pedro. Ao conhecer o pomar e conversar com o morador, ela gravou e publicou um vídeo sobre o plantio e os cuidados feitos por ele. A publicação ajudou a levar a história de José para além de quem já conhecia as árvores às margens da via.

‘É da população’ 

Ao longo dos anos, José passou a observar a presença de mais pássaros na área. Ele cita baitacas e outras aves, além de patos, que, segundo ele, começaram a aparecer com mais frequência depois que as árvores cresceram. 

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Para ele, as frutas também podem ser aproveitadas pelas pessoas que passam pelo local, já que é um espaço de lazer e atividade física para muitos juizforanos. José defende que os frutos sejam retirados no momento certo e sem danificar as plantas. “Tudo tem seu tempo”, afirma. 

A ideia de que as árvores possam ser utilizadas por outras pessoas está presente na maneira como José enxerga o próprio pomar. Apesar de ter plantado e cuidar das árvores, ele sabe que a área não é uma propriedade particular. “É meu e não é, né? É da população”, diz. 

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Um trabalho para o futuro 

Quando começou a plantar, ele conta que algumas pessoas estranharam a iniciativa. Houve quem dissesse que ele estava “ficando doido” e quem questionasse se as plantas poderiam permanecer no local. José também ouviu críticas sobre a forma como fazia podas e cuidava das árvores. Ainda assim, continuou. 

A manutenção também não é diária. Consultas médicas e outras limitações fazem com que José não consiga ir ao pomar todos os dias, mas ele afirma que procura estar no local semanalmente. “Toda vez que posso, eu tô aqui.” 

Ele diz que gosta de estar no local e de acompanhar o crescimento das plantas. “Às vezes a gente fica em casa reclamando com a mulher: ‘ah, tá me doendo o joelho, tá me doendo a coluna’. Não, eu venho pra cá porque aqui não reclamo com ninguém.” 

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José não sabe quantas das árvores que plantou ainda estarão no local daqui a alguns anos. Também não sabe quem poderá colher seus frutos ou descansar sob a sombra delas. Mas continua plantando e cuidando das que já estão ali. Para ele, a principal justificativa para continuar está na própria finalidade das árvores: produzir, fazer sombra e permanecer para além do trabalho de quem as plantou. “Eu plantei, mas é para o futuro.” 

Plantio em área pública 

A iniciativa de José também chama atenção para uma questão mais ampla: como moradores podem participar da arborização de espaços públicos em Juiz de Fora. O pomar está localizado em uma área pública e foi formado ao longo dos anos por iniciativa do próprio morador.

A legislação municipal estabelece critérios técnicos para o plantio e a manutenção de árvores em áreas públicas e atribui ao Município a responsabilidades na gestão da arborização urbana. Ao mesmo tempo, a Política Municipal de Arborização Urbana prevê a participação da população em ações de preservação e manutenção das árvores da cidade. 

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Foto: Leonardo Costa

A reportagem procurou a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) para comentar a iniciativa e esclarecer as regras para o plantio e a manutenção de árvores em áreas públicas. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas disse que reconhece e valoriza a iniciativa voluntária do José, “que demonstra cuidado com o meio ambiente e com a cidade.” A PJF reforça que o plantio de árvores contribui para ampliar as áreas verdes, melhorar o conforto térmico, a paisagem e a qualidade ambiental da região. 

Para novas iniciativas como essa, a orientação é procurar previamente a secretaria. Assim, a equipe pode avaliar o local, indicar as espécies mais adequadas e evitar interferências com redes de drenagem, água, energia elétrica e outras estruturas. 

“A secretaria parabeniza o Sr. José Correia pela iniciativa persistente e reforça a importância de ações que contribuem para a preservação ambiental e para uma cidade mais verde, com a população apoiando e respeitando essa ação voluntária”, finaliza a nota. 

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