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O desprezo pela ‘favela’

Por Juliana Netto

21/05/2020 às 07h10 - Atualizada 20/05/2020 às 21h59

Presidentes de Vasco e Flamengo durante visita a Bolsonaro em Brasília nesta terça-feira (Foto: Reprodução/Instagram)

Há duas semanas, neste looping quase infinito que tem se tornado o assunto coronavírus, externei nestas linhas minha crítica em relação aos que desejam o retorno do futebol brasileiro em meio a uma pandemia que mata a cada dia mais e mais brasileiros – ainda sem previsão para alcançar o pico.

Como flamenguista, poderia eu estar falando da reprise de Flamengo e River no domingo pela Globo, que fez novamente o grito de gol ecoar pelos blocos do meu condomínio e até fogos serem ouvidos na vizinhança. Mas essa rubro-negra que se emocionou novamente com os últimos três minutos daquele jogo histórico não seguirá por este assunto.

Aquele Flamengo do Mister Jesus, campeão da Libertadores e do Brasileiro em um mesmo fim de semana, infelizmente, não consegue ofuscar meus olhos aos deslizes cometidos pelo clube. Após a horrenda tragédia no Ninho do Uburu, que dirigente nenhum poderia ter negligenciado, o time carioca mais uma vez escorrega fora de campo.

Ao se reunir com Jair Bolsonaro, em Brasília, a comitiva de Rodolfo Landim esquece completamente, mais uma vez, de uma parcela importantíssima de sua gigante torcida: aqueles rubro-negros mais simples, menos abastados financeiramente, que vivem pelos morros da Cidade Maravilhosa. Torcedores “raiz”, que formam a identidade do Clube de Regatas do Flamengo.

Diante de uma doença que coloca centenas de cariocas nas filas de espera dos hospitais públicos do Rio, sobretudo os mais pobres, um encontro com o presidente da República justamente na mesma data que o país bateu a casa de mais de mil mortos em um único dia, é virar os olhos à “favela”, tão celebrada nos cantos vindos das arquibancadas.

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Obviamente, pelos investimentos vultosos no elenco e sem um Maracanã que vinha arrecadando milhões a cada jogo, com sucessivas partidas com público superior a 50 mil torcedores, a receita rubro-negra sofre um déficit inimaginável para um ano que começou tão promissor.

Ao se unir a Landim na capital federal, Alexandre Campello, dirigente vascaíno, também nega a tradição do clube de São Januário em zelar pelo periféricos.

Quem diria que Crivella e Witzel, com seu pensamento exterminador, ao defenderem a paralisação das atividades esportivas por mais tempo, estariam sendo mais racionais. Quem diria!

Sem entrar no mérito político, assunto que sempre evitei aqui neste espaço, ir a Brasília neste momento, definitivamente, é mais uma marca negativa que nem meu coração rubro-negro consegue tratar com parcialidade. Mesmo sendo responsabilidade do Estado – e não do Flamengo – os cuidados com os acometidos pela Covid-19, defender o retorno das atividades num estado tão afetado pela pandemia, em uma cidade onde instituições renomadas pedem lockdown, não condiz com a postura de um clube da grandeza do Rubro-Negro.

A “favela” pode esperar pelo futebol. O adversário, como escrevi há duas semanas, ainda continua o mesmo: o coronavírus.

Juliana Netto

Juliana Netto

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